Claire estava do outro lado do salão, conversando com uma funcionária, mas o olhar de diagnóstico rápido chegou até mim antes mesmo de ela terminar a frase. De longe, sem se aproximar, ela já tinha feito a varredura completa e chegado a conclusões que certamente não eram positivas.
Me virei para Geórgia.
— Você não me falou que sua mãe ia estar aqui. Na verdade, você nem me falou que a gente vinha aqui.
Ela abriu um sorriso forçado que não enganava ninguém.
— Surpresa dupla!
— Geórgia.
— Vocês não tiveram oportunidade de se conhecer direito ontem. Minha mãe fez questão de marcar esse horário hoje para remediar isso.
Claro. Ela tinha deixado bem claro ontem que o meu cabelo estava horrível. Fazia todo sentido que o próximo passo fosse resolver o problema pessoalmente.
Fomos recepcionadas por uma moça que falava baixo e se movia com suavidade. Ofereceram champanhe e canapés. Aceitei os dois porque eu tinha aprendido que quando oferecem comida de graça, você aceita, independente do contexto — ainda que o contexto fosse bebida alcoólica às 9 da manhã. Nos levaram para uma salinha de espera com sofás brancos e cheiro de produto caro no ar.
Geórgia olhou para o celular, olhou para mim, e disse:
— Preciso ir ao banheiro. Um segundo.
E sumiu.
Fiquei sozinha com Claire.
Ela cruzou as pernas, pegou a taça de champanhe com uma delicadeza que parecia ensaiada e me olhou com a expressão de quem está prestes a começar uma conversa que já planejou inteira.
— Zara. Que bom que conseguiu esse horário tão... de última hora.
Mordi a língua para não responder que não tive escolha na questão. Sorri.
— Ah, tudo bem.
Houve uma pausa onde nós duas sabíamos que a conversa ia começar de verdade mas nenhuma das duas queria ser a primeira.
— Fiquei realmente surpresa quando você apareceu — ela disse, com uma voz que soava quase gentil se você não prestasse atenção. — Depois de tantos anos do Augusto falando dessa neta desaparecida.
— Eu mesma achei que era coincidência no começo. Mas ele estava na minha cola há um tempo, pelo que entendi.
— Na sua... cola — ela repetiu, com um sorriso amarelo que durou exatamente um segundo. — Foi o que ouvi dizer. Sabe, o Augusto ficou realmente muito triste quando a Heleninha fugiu de casa. Mas... era inevitável, não era?
Parei.
— Fugiu?
Claire continuou como se não tivesse ouvido.
— Eles nunca se deram bem. E tudo explodiu quando ela percebeu que não teria como escapar da vida que estava programada para ela — Eela inclinou a cabeça. — O curioso é que vocês não são nada parecidas.
— Não somos?
— Ah, não. Você parece quase... satisfeita em se casar com meu filho, não é?


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