Não é que eu queria, queria.
O que eu queria era contrariar aquela perua, então as palavras saíram mais como um desafio do que como uma declaração. Ela não podia me dizer o que fazer. Simples assim.
Dito isso, tenho que admitir que escurecer o cabelo realmente foi uma boa ideia. O resultado era bom, eu sabia disso, mas me recusei a dar crédito a ela por isso. Me recusei também a cortar mais do que dois dedinhos, o que foi uma batalha silenciosa entre mim e o cabeleireiro que tentou me convencer três vezes de que um long bob ficaria lindo e as três vezes ouviu não com uma firmeza que encerrava o assunto.
O resto da manhã passou muito lentamente. Unhas, maquiagem e um climão no ar que ninguém mencionou mas todo mundo sentiu. Claire falava com a funcionária, eu olhava para o espelho, Geórgia tentava puxar conversa com as duas alternadamente como quem está segurando uma panela borbulhando com as duas mãos ao mesmo tempo.
Quando a gente finalmente saiu do salão, respirei tão fundo quanto alguém que precisa buscar o ar em um lugar escasso. Por sorte Claire tinha outro compromisso e, agora, seriamos só Geórgia e eu.
— Que tal almoçar? — Geórgia perguntou, como se nada tivesse acontecido. — Tem um restaurante ótimo aqui no último andar.
Imaginei que aquela seria a refeição mais cara que eu já tinha comido na vida. Não só mais cara do que qualquer coisa que eu tinha comido individualmente, mais cara do que tudo que eu tinha comido nos últimos seis meses somado. Mas já tinha deixado o PIB de um país pequeno naquele salão de cabeleireiro, então o que era gastar um pouco mais, não é mesmo.
— Tudo bem — disse.
O restaurante estava cheio, com uma fila de espera respeitável. A recepcionista explicou que teríamos que aguardar cerca de uma hora, com o tom educado de quem já está acostumada a dar essa notícia.
Geórgia sorriu.
— Você é nova aqui, não é? Meu nome é Geórgia Sartori. Verifica aí no seu computador.
A recepcionista verificou algo. A postura mudou antes mesmo de ela terminar de ler.
— Peço perdão, senhorita Sartori. Nossa maître pode acompanhá-las até uma mesa imediatamente.
Enquanto nos guiavam para dentro, me virei para Geórgia.
— Como você fez isso? O restaurante está cheio.
— Eles sempre mantêm algumas mesas disponíveis para pessoas importantes. — Ela deu de ombros. — Você precisa aprender essas coisas. Ajudam muito.
— Certo. Aprender que ter dinheiro ajuda muito. Acho que consigo guardar essa lição.
Ela revirouos olhos, mas antes que pudesse responder, parou no meio do caminho.
— Ah, olha. É a Genevieve. Oi, Gen!
Genevieve Bragança estava sentada sozinha perto da janela com um cardápio na mão. Seu rosto corou levemente quando nos viu, o que eu achei estranho, mas ela se levantou para nos cumprimentar antes que eu processasse direito.
— Você está sozinha? Podemos almoçar juntas! — Geórgia já estava puxando a cadeira.
— Claro. Ainda não pedi nada.
Nos sentamos. Genevieve pegou o celular rapidamente e digitou uma mensagem, depois colocou o aparelho na mesa com uma expressão de quem foi pega fazendo algo errado.
— Desculpa a má educação. Só precisava encerrar uma conversa.
— Claro — respondi.
O cardápio veio dentro de uma capa de couro legítimo, em papel tão grosso que eu me perguntei quantas árvores tinham sido sacrificadas para aquela experiência gastronômica. Era minimalista. Minimalista até demais. E, como se não bastasse, não tinha preço. Quem em sã consciência não colocava preço nas coisas? Como as pessoas decidiam o que pedir? No escuro? Na fé? No saldo da confiança?
Mas podia piorar. E piorou. Porque eu não entendi absolutamente nada do que estava escrito ali.
— Que raios de língua é essa? — deixei escapar, baixinho.
Genevieve riu daquele jeito educado dela.
— Francês. É um restaurante francês com duas estrelas Michelin.
Olhei de novo para o menu, como se isso fosse magicamente transformá-lo em português.


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