Arthur se aproximou devagar, do jeito de quem está dando uma última chance ao universo para mandar uma desculpa convincente para sair correndo dali. Cumprimentou a todas com a cordialidade mínima aceitável e ficou de pé por um segundo, avaliando a situação como se ainda estivesse calculando se havia uma saída.
— Você veio almoçar sozinho? — Geórgia perguntou. — Que estranho.
— Vim comprar um sapato novo e resolvi almoçar. Não tem nada de estranho.
— Então almoça com a gente — Genevieve apontou para a última cadeira vazia da mesa com naturalidade.
Arthur tentou negar, mas Geórgia já estava argumentando.
— É melhor do que ficar sozinho.
Ele olhou para mim. Eu olhei para ele. A expressão dele dizia tudo sem precisar de palavras: será que é mesmo?
Revirei os olhos e dei de ombros.
Ele se sentou.
Fez o pedido rapidamente, com a familiaridade de quem já conhece o cardápio, o que me irritou levemente porque eu tinha sofrido com aquele menu em francês enquanto ele provavelmente o decorou na infância.
— Estava contando para as meninas — Geórgia disse para o irmão, animada — que vou ganhar uma Dakota de aniversário. E a Zara achou que eu estava falando de sapato.
Arthur riu. Uma risada curta e genuína.
Queria sumir embaixo da mesa.
— Eu nem sabia que existia essa marca de sapato — Genevieve disse, com uma curiosidade honesta. — É boa?
— Ah, sei lá — desviei, olhando para o copo de água com um interesse inexistente.
— Vamos fazer compras depois — Geórgia continuou, incapaz de deixar qualquer assunto morrer sozinho. — Podemos ver uns sapatos. Você pode vir com a gente se estiver livre.
— Claro. Preciso de um colar novo para o Baile de Debutantes. — Genevieve se virou para mim. — Aliás, Zara, está animada?
— Ah, é. O baile. Claro — menti com uma convicção que eu mesma não sabia que tinha.
— Precisamos marcar a data, aliás — Arthur disse, com o tom de quem está tratando de uma reunião de negócios.
— Data?
— O padrinho quer anunciar nosso casamento no baile.
Senti o estômago revirar. Céus. Ia mesmo acontecer. Um casamento. De verdade. Com data, vestido, bolo e provavelmente um padre ou juiz de paz me perguntando se eu aceitava aquele homem como meu marido, e eu tendo que responder que sim na frente de um salão inteiro de pessoas que eu mal conhecia. Isso era real. Isso estava acontecendo com a minha vida.
— Achei que o baile era um debute de mulheres solteiras. Tipo... carne fresca no mercado.
Arthur me encarou por um segundo longo o suficiente para eu me arrepender imediatamente da expressão.
Genevieve salvou a situação antes que ele respondesse.
— É mais ou menos isso. No meu caso, por exemplo. Vinte e um anos, solteira, pronta para casar, segundo meus pais. Mas, no seu caso, é mais uma apresentação para a alta sociedade carioca em geral.
— E não foi isso que fizemos ontem na mansão?
— Só para os íntimos — Geórgia explicou. — No baile é para todos. Todos os nomes importantes, claro. E normalmente quando a garota já tem um noivo, eles dançam juntos e anunciam a data.
Olhei para Arthur.
— Vamos dançar juntos?
— Com cor de vestido e gravata combinando e tudo — ele respondeu, com um sorriso de canto que não tinha nada de animação. — Mal posso esperar.
— Certamente você só não está mais animado do que eu.
A comida começou a ser servida antes que qualquer um de nós precisasse continuar aquela conversa, o que foi uma intervenção divina que eu agradeci internamente. Mas o estômago que eu já tinha sentido revirar não tinha voltado ao lugar, e eu precisava de um minuto que não fosse embaixo de três pares de olhos.
— Com licença.

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