Acordei na segunda-feira com a certeza incômoda de que o dia ia ser longo.
Eu sabia disso antes de sair de casa — antes de sair da mansão, que ainda era uma frase estranha de pensar — porque me olhei no espelho e não reconheci completamente a pessoa que estava de volta. O cabelo hidratado e arrumado, a calça jeans escura e bem cortada com uma camisa branca simples que Genevieve tinha insistido que era o básico que não falha. Salto baixo, bolsa nova.
Eu parecia alguém que pertencia a algum lugar.
A entrada na Santa Trindade foi silenciosa por exatamente três segundos. Depois começou o murmúrio.
Eu estava caminhando pelo corredor quando ouvi a voz, alta e bem projetada:
— A borralheira encontrou uma fada madrinha?
Risos.
— Ou um príncipe otário caiu no golpe — outra voz respondeu, do mesmo tom de quem quer ser ouvida.
Mais risos. Mais gente olhando.
Parei. Me virei na direção das duas. Dei um sorriso breve, levantei o dedo do meio com uma calma que eu mesma achei satisfatória, e continuei andando.
Bom. As aulas de boas maneiras ainda não tinham começado de verdade. Eu ia usar meu dedo do meio quantas vezes fosse necessário até lá.
Me sentei no meu lugar habitual e durou menos de dois minutos para Alicia aparecer e se instalar na cadeira atrás de mim.
— Não pensa que algo muda só porque você tem roupas novas.
Continuei abrindo o caderno.
— Ainda te acho uma golpista.
— Pode me achar o que quiser. Estou pouco me fodendo com a sua opinião.
— Tá vendo? — Ela se inclinou levemente para frente. — Suas roupas não mudam quem você é. Uma faveladinha com vocabulário grosseiro. Você acha que vai pertencer ao nosso mundo assim? Não vai.
— Eu já pertenço — coloquei a caneta em cima do caderno e me virei o suficiente para ela me ver de frente. — Sou uma Altieri e vou me casar com Arthur Sartori.
Uma risada alta soou próxima a mim.
— Ela ainda acha que a gente tá comprando que ela tem um namorado rico.
Bárbara tinha parado ao lado da nossa fileira com um sorriso que não tinha nada de gentil. Era loira, sempre impecável, e fazia parte do grupo da Alicia com aquela fidelidade de quem construiu toda a identidade social em cima de uma amizade.
— Arthur Sartori, sério, Zara. Sua fantasia tá indo longe demais.
— A golpista ainda acha que pode enganar a gente — Alicia concordou, com um sorriso.
Bárbara foi embora. Ficamos eu e Alicia sozinhas por um momento, com a sala ainda enchendo ao redor.
— Você pode me provocar o quanto quiser — murmurei para ela, baixo o suficiente para não ser ouvida pelos outros. — Mas você sabe que é verdade. Sabe que eu vou me casar com Arthur.
Ela ficou me olhando por um segundo. Então se levantou, pegou a bolsa, e disse, pausando em cada palavra como se estivesse gravando para posteridade:



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