~ ARTHUR ~
A chuva tinha começado cedo e vinha insistente, grossa, escorrendo pelas janelas do Hospital Sartori & Altieri como se quisesse lavar a cidade inteira de uma vez. Eu gostava de dias assim. A chuva deixava o mundo mais silencioso, mais fechado, mais fácil de organizar.
Ou, pelo menos, era o que eu costumava pensar.
— Doutor Sartori.
Levantei os olhos da tela do tablet no exato momento em que Helena, minha assistente, entrou na sala já com uma pasta na mão e três problemas na expressão.
— O pediatra da clínica geral da ala infantil avisou que vai se atrasar quarenta minutos. A diretoria quer sua confirmação sobre a reunião das onze e o conselho mandou remarcar a apresentação do relatório financeiro para amanhã. Ah, e a engenharia quer sua assinatura para a nova ala de infusão.
Peguei o café, já frio.
— O pediatra?
— Preso no trânsito por causa da chuva.
— Eu cubro a primeira hora. Remarca o que puder e encaixa o resto com a doutora Patrícia.
Helena assentiu sem pestanejar. Já estava acostumada a me ver trocando uma reunião por um consultório com a mesma naturalidade com que outras pessoas trocavam de camisa.
— E o Programa Sartori & Altieri de Excelência Clínica? — ela perguntou, antes de sair. — O RH acadêmico quer sua validação final dos horários.
— Depois que eu finalizar o atendimento.
Ela fez que sim com a cabeça e saiu, fechando a porta atrás de si.
Fiquei um segundo olhando para a chuva do outro lado do vidro.
Eu gostava de ordem. Sempre gostei. De agenda, de lógica, de números fazendo sentido, de gente chegando no horário, de protocolo sendo seguido. Era por isso que o hospital funcionava. Era por isso que meu pai confiava em mim ali dentro. Era por isso que meu padrinho, mesmo me chamando de frio, ainda deixava metade do império nas minhas mãos sem hesitar.
Peguei o jaleco da cadeira e saí.
A ala infantil era uma mistura álcool, talco e desenho animado ligado alto demais. O caos ali obedecia a regras próprias. Criança chorando, mãe com olheira, pai tentando parecer tranquilo, enfermeira cruzando o corredor com uma bandeja, um menino com máscara de astronauta andando como se aquele corredor fosse uma pista de lançamento.
— Doutor Arthur! — a pequena Letícia, oito anos, me viu antes mesmo de eu chegar na sala. — Hoje você vai ouvir meu coração ou vai fingir que está ocupado?
Sorri sem querer.
— Hoje eu vou ouvir seu coração, seu pulmão e ainda vou ter que aguentar você mentindo que não comeu o chocolate escondido.
Ela arregalou os olhos.
— Eu não menti!
Era sempre assim com criança. Eu não precisava me esforçar muito. Com adulto, todo mundo queria parecer forte. Com criança, bastava abaixar um pouco a postura, falar na altura certa e prestar atenção de verdade.
Atendi três casos em sequência. Uma febre que parecia assustadora para os pais e banal para o laboratório. Uma crise respiratória leve. Um garoto com dor abdominal que, para o alívio da mãe, não era nada cirúrgico, só a combinação clássica de alimento ruim e muita imaginação.
Quando saí da última sala, Helena já me esperava no corredor com aquele olhar de “você perdeu quinze minutos e ganhou quatro novos problemas”.
— A engenharia subiu para a diretoria. O doutor Vilela quer falar sobre a ala onco pediátrica antes da reunião. E o conselho confirmou presença remota do seu pai.
Suspirei.
— Ótimo. A chuva veio para melhorar o humor de todo mundo.
Subi para a diretoria, passei uma hora entre orçamento, cronograma de obra, expansão de leitos, relatório de satisfação dos pacientes e uma discussão previsível sobre custo de equipamento novo. Depois desci de novo para a ala de oncologia pediátrica, onde sempre havia uma espécie de gravidade diferente no ar. Ali ninguém fazia piada alta, ninguém corria sem motivo, ninguém fingia que a vida era simples.
Passei em dois quartos, ouvi a equipe, revisei um prontuário, conversei com uma mãe que já parecia feita de exaustão e fé na mesma medida. Quando saí, sentia aquele peso conhecido na nuca. O peso que vinha sempre que eu passava muito tempo naquela ala e lembrava por que meu padrinho insistia tanto em falar de humanidade como se fosse matéria obrigatória.
No fim da tarde, a reunião do administrativo se arrastou mais do que devia. Quando saí da sala, Thomas me esperava do lado de fora, encostado na parede com dois copos de café na mão.
— Você está com cara de quem pisaria em um investidor se isso adiantasse alguma coisa.
Peguei um dos copos.
— Depende do investidor.
Thomas sorriu.
Nós tínhamos feito faculdade juntos. Ele tinha sido uma das poucas pessoas que nunca me tratou nem como sobrenome nem como cargo. Talvez por isso eu o tivesse puxado para dentro do hospital quando tive a chance. Confiava nele mais do que era prudente confiar em quase qualquer um.
Fomos até a cafeteria do térreo, que naquela hora já estava meio vazia por causa da chuva.
Thomas me estudou por um segundo antes de perguntar:
— Você dormiu três horas ou está ficando simpático por cansaço?
— Nenhuma das duas.
— Então é pior.
Tomei um gole do café.
— Ando sobrecarregado.
— Hospital, conselho, seu pai, seu padrinho... — ele contou nos dedos. — E agora o programa.
Inclinei a cabeça, cansado.

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