— Calma, calma. Você ia cair.
A voz de Arthur veio baixa, perto demais, e só então eu percebi duas coisas ao mesmo tempo: que continuava agarrada ao braço que me segurava e que, se ele não tivesse me puxado, eu provavelmente teria despencado escada abaixo igual uma protagonista burra de filme de terror.
Meu coração ainda estava tentando fugir pela boca.
— Me solta — repeti, mas dessa vez sem a mesa certeza de antes.
Ele me soltou imediatamente.
No escuro, eu só conseguia ver o contorno dele recortado por um relâmpago distante. A chuva lá fora batia na mansão inteira como se quisesse entrar.
Respirei fundo. Uma vez. Depois outra.
— Obrigada — murmurei, ainda meio tonta, segurando o corrimão.
Arthur inclinou a cabeça.
— Uau. Então é assim que soa quando você me agradece por alguma coisa.
Revirei os olhos, embora ele provavelmente não pudesse ver.
— Não se acostuma.
— Tarde demais. Vou guardar esse momento no coração.
— Você tem um?
— Às vezes. Para ocasiões especiais.
Outro trovão ribombou, forte o suficiente para fazer meu corpo inteiro enrijecer. Arthur percebeu.
— Vem — disse ele. — No meu escritório é mais silencioso.
Eu podia ter dito não. Podia ter insistido que estava tudo bem, que não precisava de ajuda, que conseguia muito bem continuar surtando sozinha, obrigada. Mas o próximo relâmpago iluminou a janela do hall de um jeito tão violento que eu só balancei a cabeça e fui atrás dele.
O escritório dele ficava no térreo, numa parte mais reservada da casa. Entramos no escuro, e Arthur foi direto até uma gaveta, tateou por um instante e tirou uma caixa de fósforos. Acendeu uma vela. Depois outra. Depois uma terceira.
— Estamos com problemas no gerador há uns meses — explicou. — Mansão antiga, difícil encontrar um profissional adequado.
A luz morna e trêmula tomou conta do ambiente aos poucos, deixando tudo menos ameaçador. Madeira escura, estante de livros, um sofá comprido, uma mesa impecavelmente organizada. Tão Arthur que quase dava vontade de revirar alguma pilha de papel só por implicância.
Ele foi até o bar discretamente embutido em um móvel lateral, serviu dois dedos de uísque em um copo e me olhou por cima do ombro.
— Quer?
Balancei a cabeça.
— Hoje eu vou ficar só na água.
— Prudente da sua parte.
Ele encheu um copo com água para mim, pegou o uísque e veio até o sofá. Sentei de um lado, ele do outro, ambos voltados para a janela enorme de vidro onde a chuva escorria em rios tortos.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, só observando lá fora.
Por fim, eu falei primeiro:
— Não consigo dormir por causa da chuva. Mas e você? Qual a sua desculpa?
Arthur girou o uísque no copo antes de beber.
— Perdi um paciente hoje.
Virei o rosto para ele, o pegando mais abatido do que eu imaginava.
— É triste, mas... se você for ficar sem dormir toda vez que perder um paciente, vai enlouquecer. Infelizmente isso faz parte da nossa profissão.
Arthur assentiu devagar.
— Eu sei.
Ele tomou mais um gole, como se precisasse do álcool para continuar falando.
— Você já sabe o que vai fazer quando se formar? Residência? Especialização?
— Ainda tenho um pouco de tempo para pensar, mas... talvez eu vá para o lado da cardiologia.
Ele olhou para mim de verdade pela primeira vez desde que entramos.
— Como a sua mãe.
— Sim, como você sa... — me interrompi no meio da frase. Ia perguntar como ele sabia, mas era uma pergunta idiota. Augusto provavelmente falava da filha como quem fala de um órgão vital. — É. Como ela. Sempre ouvi minha mãe falar muito bem da medicina. Acho que foi por isso que cresci sabendo o que queria fazer. Nunca entendi por que ela não atuava mais.


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