Era Claire.
Por um segundo, com ela parada ali e me olhando daquele jeito gelado, achei que ela estivesse falando de mim. Que a aberração fosse eu. Que ela estivesse dizendo a Arthur que ele não iria ao baile comigo.
Mas não era isso, e eu entendi no instante em que ela avançou na minha direção.
Claire agarrou meu braço, puxou minha mão para si, arrancou o anel do meu dedo com uma força que me fez soltar um “ai” curto de surpresa, e, antes que eu pudesse sequer reagir, jogou a peça no chão de mármore.
O estalo da peça batendo no piso ecoou no hall.
No segundo seguinte, ela pisou em cima.
Com força.
O salto fino desceu certeiro sobre a pedra verde.
Houve um ruído seco. Pequeno. Feio.
Quando Claire tirou o pé de cima, a pedra central estava rachada em várias partes. Os pequenos “diamantes” laterais tinham arranhado feio, e a armação parecia torta o bastante para fazer qualquer joalheiro chorar.
Meu estômago despencou.
Claire ergueu os olhos para mim, absolutamente serena.
— Você acha que isso me engana, Zara? — perguntou, com a calma insultante de quem não precisava levantar a voz para humilhar alguém. — Você acha que isso engana qualquer pessoa que tenha um gosto minimamente apurado? Dá para ver de longe a falsificação.
Eu abri a boca.
— Não... eu...
Arthur me interrompeu antes que eu conseguisse cavar minha própria cova.
— Mãe. — A voz dele saiu seca, firme. — É claro que eu dei uma cópia para Zara junto com o original. Não é como se ela fosse sair por aí com um anel tão valioso, não é?
Olhei para ele, completamente confusa.
Arthur não olhou para mim de volta. Só fez um movimento quase imperceptível com a cabeça.
Mas Claire ainda estava irritada demais para comprar aquilo sem reclamar.
— Bom, o baile não é “por aí” — disse ela, com desprezo cirúrgico. — Se ela usa um anel falsificado logo hoje, todos vão estar comentando que nossa família está falida antes do final da noite.
A raiva, que tinha vindo junto com o susto, finalmente encontrou uma saída.
— Duvido muito — rebati. — Tem tanto diamante pendurado em você que vai estar todo mundo muito mais preocupado em descobrir como desligar essa árvore de Natal.
Arthur soltou o ar pelo nariz, quase como se tivesse precisado segurar uma reação pior.
Claire virou o rosto na minha direção devagar. Muito devagar.
— Você é mesmo uma menininha muito petulante, não é?
Eu já estava respirando rápido. Sentindo o sangue subir. Mas o que ela disse em seguida me tirou do eixo de verdade.
— Vai acabar igualzinho à sua mãe.
Tudo em mim ficou em brasa.
— Dobra a sua língua pra falar da minha mãe!
Dei um passo na direção dela.
Talvez dois.


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