Chegar ao baile já me jogou num tipo muito específico de vertigem. Os carros paravam em fila impecável, despejando sobrenomes, joias e mulheres com vestidos tão armados que provavelmente precisavam de autorização da prefeitura, e do lado de dentro tudo brilhava em dourado, cristal e expectativa. Eu mal tive tempo de respirar ao lado de Arthur, ainda com o braço preso ao dele e o peso do que tinha acontecido na mansão latejando no fundo da cabeça, porque alguém da organização surgiu do nada e me arrancou do grupo com a eficiência de quem fazia aquilo havia décadas.
— Senhorita Zara, por aqui, por favor. As debutantes estão reunidas no camarim principal.
Olhei uma última vez para Arthur. Ele me devolveu um olhar rápido, sério demais para aquela noite, como se ainda quisesse puxar de mim a história do anel no meio do salão. Mas não havia tempo.
Fui arrastada por um corredor lateral e conduzida até uma sala grande demais para ser chamada de camarim e caótica demais para ser chamada de elegante. Havia meninas por toda parte. Vestidos claros, vestidos escuros, brilhantes, cetim, tule, cabeleiras montadas, maquiadoras correndo, mães opinando, fotógrafos pedindo sorrisos e mulheres da organização tentando impor ordem a um evento que claramente preferia existir no limite do colapso.
Éramos treze, contando comigo.
E isso já parecia ser o primeiro problema, como descobri antes mesmo de conseguir me localizar direito:
— Não deviam ter adicionado uma nova debutante. Treze é número de azar.
Antes que eu pudesse decidir se fingia que não ouvi ou se pisava propositalmente no pé dela, uma outra voz respondeu, firme e educada:
— Isso é bobagem.
Era a mãe da Alícia, impecável num vestido azul-marinho. Ela virou o rosto na minha direção e me lançou uma piscadela rápida, como se dissesse “não liga”.
Eu liguei, claro.
Mas apreciei o esforço.
— Aí está você!
Genevieve apareceu como um respiro. Num vestido verde-escuro lindíssimo, costas retas, cabelo preso num coque baixo elegante e um sorriso genuíno que, naquela noite, valia mais do que qualquer joia que ela ostentava.
— Sério, você está linda — ela disse, me abraçando de leve para não amassar ou sujar nada. — Tenho certeza de que você e Arthur vão ser o destaque da noite.
Soltei um riso pequeno.
— Não exagera. Todo mundo pensa que eu não deveria estar aqui. A propósito, você que está linda. Amei o vestido.
Genevieve arqueou uma sobrancelha.
— Viu? Você já sabe até os elogios sociais falsos a fazer.
Nós duas rimos.
— E não é todo mundo — ela continuou. — Eu acho que você está exatamente no lugar certo. E que vocês vão parar a sociedade carioca quando... — ela baixou a voz — ...anunciarem a data.
Antes que eu pudesse responder, o olhar dela caiu para a minha mão.
O sorriso desapareceu.
— Cadê seu anel?
Soltei o ar pelo nariz.
— Claire descobriu que eu estava usando uma cópia e quebrou o anel antes de sairmos de casa.
Genevieve me encarou, primeiro confusa, depois horrorizada.
— Mas... eu achei que a cópia era só para o dia a dia. Por que você não usou o original hoje?
Suspirei de novo. Mais fundo.
— É uma longa história.
— Ainda temos um tempo.
Antes que eu pudesse protestar, Genevieve já estava me puxando pelo braço em direção ao banheiro do camarim. Entramos, escapando da confusão de debutantes, organizadoras, maquiadoras e fotógrafos lá fora.
Genevieve se virou para mim, braços cruzados, esperando.
Eu encarei o próprio reflexo no espelho por um segundo e desabei.
— Eu menti pra você.
Ela não se mexeu.
— Sobre o anel?


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