Meu coração estava tão acelerado que, por um segundo, achei que o salão inteiro fosse ouvir antes mesmo de Angélica abrir a boca.
— Nossa última debutante da noite... Zara Altieri, neta de Augusto Altieri. Vinte e um anos, estudante de Medicina da Santa Trindade, apreciadora de dança contemporânea e artes visuais. E atualmente está noiva.
Atualmente está noiva.
Era uma frase absurda para ser dita em voz alta para um salão inteiro. Ainda mais quando o “atualmente” parecia perigosamente provisório e, segundo o meu avô, o “noiva” vinha agora com data marcada e tudo.
Naquele momento, tudo o que eu sabia era que precisava descer aquela escada sem cair, sem vomitar e, de preferência, sem parecer uma mulher que tinha socado uma viúva no banheiro menos de uma hora antes.
Respirei fundo.
Um degrau.
Depois outro.
O vestido vermelho se movia bonito em volta das minhas pernas, como se ele não soubesse que eu estava em colapso psicológico lá dentro. O colar brilhava. A pulseira da minha mãe pesava no meu pulso com uma doçura que doía. E o salão inteiro estava olhando para mim.
Meu primeiro impulso foi procurar Arthur.
E lá estava ele, parado no fim da escada, esperando por mim.
Terno escuro, postura firme, aquele rosto impossível de ler por completo, embora eu já estivesse começando a aprender que, quando ele ficava quieto demais, geralmente estava sentindo alguma coisa que não queria nomear.
Eu quase me perdi naqueles olhos.
Mas havia outro rosto que eu precisava olhar. Outro homem por quem eu estava ali.
Então procurei meu avô.
E lá estava Augusto, sorrindo sem vergonha nenhuma, os olhos doces, aplaudindo enquanto eu descia como se aquilo fosse, de fato, um dos momentos mais felizes da vida dele.
Sorri de volta.
E quase tropecei.
Meu salto deslizou meio centímetro no degrau seguinte, o suficiente para me dar um susto e me lembrar de que emoção demais e escadaria não combinavam.
Melhor me concentrar.
Cheguei ao último degrau com alguma dignidade restante, e Arthur estendeu a mão para mim. Coloquei a minha na dele, e o contato, por menor que fosse, me estabilizou de um jeito que eu não queria analisar muito.
A música recomeçou.
E fomos nós dois.
Só nós dois.
Sem outros casais em volta, sem ninguém para dividir o vexame, a tensão ou a atenção. O centro do salão. O centro dos olhares. O centro da fofoca do dia, da semana, talvez do mês.
Arthur me puxou para perto na posição da dança, e eu sorri sem mostrar os dentes.
— Meu Deus — murmurei. — Isso é pior do que eu pensava. Pelo menos antes a atenção seria dividida.
Arthur inclinou a cabeça, olhando para mim como se estivesse se divertindo um pouco mais do que devia.
— Você é a futura senhora Zara Altieri Sartori. Você não é exatamente do tipo que divide atenções.
Antes que eu pudesse responder, ele me girou num movimento bonito, fluido e completamente desnecessário, o que arrancou de mim um sorriso real.
— Exibido — sussurrei quando voltei para perto dele.
Infelizmente, quando terminei o movimento e meus olhos reencontraram o salão, dei de cara com Claire.
Ela não parecia nem um pouco emocionada. Nem resignada. Nem educadamente neutra. Claire estava assistindo àquilo como quem vê alguém cometer um erro em câmera lenta.
Perto dela, Alícia parecia prestes a espumar de raiva.
E, mais ao lado, a mulher do banheiro. Com o nariz impecavelmente medicado, o olhar venenoso e a dignidade restaurada à base de maquiagem e ódio.
— Acho que esse casamento vai desagradar mais gente do que agradar — murmurei, ainda sorrindo para fora como uma boa debutante treinada para sofrer em silêncio e com postura.
Arthur nem se deu ao trabalho de olhar para elas.
— Tudo bem. Desde que agrade ao padrinho e ao meu pai, o resto é detalhe. Fora isso, só precisa agradar a nós dois.
Arqueei uma sobrancelha.
— E você acha que isso vai ser possível? Quero dizer... meu jeito claramente não te agrada. E, se quer saber... — deixei o tom escorregar para uma provocação divertida — você também não é exatamente meu tipo.
Arthur reprimiu um sorriso.
— Não foi o que pareceu aquele dia.


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