Quando o tour acabou, Arthur dispensou o grupo com a mesma voz calma e profissional que tinha usado a manhã inteira, reforçando que todos receberíamos mais orientações ainda naquele dia por e-mail. Eu já estava praticamente ensaiando uma fuga estratégica para casa (ou, no mínimo, para longe dele, de Alícia e de qualquer lugar parecido com um hospital) quando ouvi:
— Zara... uma palavrinha na minha sala, por favor.
Alguns burburinhos surgiram no mesmo instante em que os outros começaram a se dispersar. Claro. Porque aparentemente o universo não descansava enquanto eu não parecesse uma beneficiária oficial de nepotismo com crachá e noivo administrador.
Segui Arthur corredor adentro já irritada.
Porque não bastava todo mundo comentando pelas minhas costas sobre o fato de eu estar ali “por contatos”. Ele ainda precisava piorar chamando justamente a mim para a sala dele? Ou não era isso? Era o contrário? Ele ia me dizer, com toda a educação corporativa do mundo, que seria melhor eu me afastar do programa para evitar mal-entendidos?
Olha, eu juro, se fosse isso, Alícia ia me pagar.
Arthur abriu a porta da sala, deixou que eu entrasse e fechou atrás de si.
— Eu queria falar com você sobre...
— Sobre o fato de você não ter me preparado avisando que seria o supervisor do programa e que trabalharíamos diretamente juntos?
Ele piscou, como se eu tivesse estragado a ordem do raciocínio dele.
— Eu disse. Te disse no dia em que aprovamos a lista de selecionados.
Cruzei os braços.
— Bem, você me disse que era um dos supervisores. Não que eu ia ter que lidar com você todos os dias.
Arthur deu de ombros.
— Isso importa?
Soltei uma risada curta, incrédula.
— Claro que importa, tá todo mundo comentando pelas minhas costas.
— Olha, não é isso...
— E você vai fazer o quê? Vai me suspender do programa pra não causar mal-entendido?
Ele franziu a testa de verdade.
— Claro que não. Que loucura...
Parei por um momento só para observar o rosto dele. Entregava claramente que aquela possibilidade nem tinha passado pela cabeça dele.
O que, por algum motivo, me irritou mais.
— Então, se for sobre a Alícia...
— Se fosse sobre a Alícia, eu resolveria com a Alícia — ele me cortou, já impaciente. — Céus, Zara, por que você sempre espera o pior de mim com relação a você?
Fiquei alguns segundos só olhando para ele.
Porque a resposta era simples demais para ser bonita.
— Não é que eu espere o pior de você — falei, mais baixo. — Eu espero o pior de todo mundo. Foi o que o mundo me ensinou.
Alguma coisa no rosto dele mudou.
Arthur deu alguns passos na minha direção, diminuindo o espaço entre nós com uma calma que fez meu coração errar o ritmo.
— Sinto muito que a vida tenha sido difícil com você, Zara — ele disse. — Mas você não precisa ficar na defensiva comigo.
Soltei o ar pelo nariz.
— Não preciso? Eu vi como você me olhou quando a Alícia disse aquilo sobre o exame. E eu lembro muito bem de todas as vezes que você me chamou de golpista.
Ele inclinou um pouco a cabeça.
— Como eu te olhei?
— Como alguém que...
Parei. Porque eu mesma não sabia mais definir.
Arthur continuou, mais perto:
— Porque tudo o que estava passando na minha cabeça naquele momento era que eu não queria que você perdesse a cabeça e quebrasse o nariz dela na frente de todo mundo. Porque aí, sim, eu teria que te expulsar do programa.
Eu não consegui conter a risada.
— Acho que eu tenho uma fama.
Arthur sorriu de leve.
— Tem. E eu devia estar preocupado com isso como seu supervisor.
Ele deu mais um passo.
— O problema é que, naquele momento, eu não estava pensando como seu supervisor.
Senti o coração tropeçar.
— E estava pensando como o quê?
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO