~ ARTHUR ~
Com a interrupção, eu pulei para longe da Zara no mesmo instante, já em pé, tentando me recompor rápido demais para alguém minimamente convincente.
— Thomas! — rosnei, passando a mão no cabelo. — Ninguém te ensinou a bater na porta?
Do sofá, agarrada a uma almofada contra o peito exposto, Zara resmungou com desdém:
— Olha quem fala...
Thomas, claro, não teve a decência de parecer constrangido. Encostado à porta aberta, ele só arqueou uma sobrancelha, olhando de mim para ela como quem tinha acabado de encontrar entretenimento inesperado numa tarde burocrática.
— Ninguém te ensinou a trancar a porta? — devolveu. — Aliás, achei que você tivesse me chamado aqui.
Eu ainda tentava organizar a respiração, o cabelo e o resto da minha dignidade profissional espalhada pela sala.
— É... é. Aliás, foi por isso que te chamei também, Zara. Vocês não tiveram oportunidade de se conhecer ainda. Thomas, essa é a Zara. Zara, esse é o Thomas, nosso futuro padrinho de casamento, se estiver tudo bem para você.
Thomas foi até ela com a naturalidade irritante de quem conseguia transformar qualquer situação em piada sem parecer um idiota completo. Zara permaneceu sentada, imóvel, abraçada à almofada como se estivesse decidindo entre preservar a própria honra ou me matar na frente do meu melhor amigo. Ainda assim, estendeu a mão, e ele apertou.
— Eu preferia ter conhecido a noiva com mais tecido e menos tensão sexual — disse ele, com um sorriso descarado —, mas é um prazer finalmente conhecê-la. Arthur fala muito bem de você.
Zara ergueu uma sobrancelha.
— Ah, fala? Quem diria.
— Ah, é. — Thomas assentiu com convicção. — E, pra ser honesto, eu achei que o Arthur ia preferir amputar a própria perna a subir num altar. Então você já tem meu respeito.
— Thomas... menos.
— Estou sendo gentil — respondeu ele, sem olhar para mim. — Você devia agradecer.
Depois se virou para a parede num gesto teatral.
— Agora, como eu acredito que o que estava acontecendo aqui não era exatamente uma consulta médica, vou recorrer aos meus limites éticos e olhar trinta segundos pra parede.
Aproveitei o raro bom senso dele para pegar a blusa da Zara no chão e jogar de volta. Ela agarrou no ar com uma rapidez admirável e se vestiu depressa, ainda segurando a almofada por um segundo a mais do que precisava antes de largá-la de lado.
Eu achei engraçado, e perigosamente adorável, o tipo específico de timidez que ela tinha. Porque a Zara era sempre a garota com uma resposta afiada na ponta da língua, a mulher que partia para cima do mundo com os dentes cerrados, mas ainda conseguia ficar tímida em situações completamente específicas.
— Pronto — ela avisou, sem me olhar.
Thomas se virou novamente para nós dois, ainda com um sorriso enorme no rosto. Eu sabia que ele ia jogar aquilo na minha cara por dias!
— Então, Zara — começou ele, encostando no canto da mesa — que loucura, hein? Encontrar seu avô e receber, junto com ele, um contrato de casamento. Como você está se sentindo?
Ela travou por um segundo.
Olhando para o rosto dela, ficou muito claro que talvez ninguém ainda tivesse feito aquela pergunta daquele jeito. Não de verdade. Ninguém parecia querer saber como Zara estava se sentindo. Só queriam saber se ela aceitava. Se ela cabia na história. Se ia cumprir o papel.
Ela olhou para mim rapidamente, como se procurasse algum tipo de autorização invisível, e depois voltou os olhos para Thomas.
— Acho que... como se eu estivesse em O Show de Truman. Ou... O Show de Zara.
Uma risada curta escapou de mim antes que eu pudesse impedir. Eu entendia perfeitamente. Porque, em certo nível, eu também me sentia assim. Como se minha vida tivesse sido transformada em espetáculo elegante.
Thomas assentiu como se a resposta fizesse todo sentido.
— Ah, é. Deve ser uma merda. Ou, em certo ponto, pode ser bom, veja bem. Desde que comecei a trabalhar aqui, Arthur praticamente controla a minha vida. Em compensação, minhas chances de fazer merda caíram uns oitenta por cento. E o meu pedido na cafeteria? Ele decorou faz tempo. Às vezes até combina nossos horários pra poder me levar pra jantar. Honestamente, mais um pouco e eu começaria a chamar isso de casamento. Mas aí você apareceu.
Zara riu, e aquilo me irritou um pouco menos do que devia.
— Podemos dividir — respondeu ela. — Não sou ciumenta.
— É, podemos — Thomas seguiu na brincadeira. — Mas, pra disfarçar bem, você me arruma uma dama de honra bem gata pra ficar do meu lado no altar.

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