— Só mencionei que estava acompanhado.
Eu mal percebi quando soltei o ar, aquele tipo de respirada longa que só acontece quando você estava segurando o fôlego sem ter percebido que estava segurando.
Arthur não deixou isso passar, claro.
— Por que você parece tão aliviada?
— Meu nome já anda na boca de muita gente sobre muita coisa — desviei, encolhendo um ombro. — Não precisava de mais essa fofoca me envolvendo.
Ele ficou me olhando por um segundo. Aquele olhar que eu estava aprendendo a temer porque não parava na superfície de nada. Então, assentiu devagar.
Mas eu sabia que ele não estava convencido. Havia qualquer coisa na forma como ele assentiu que dizia que ele estava guardando aquilo para depois.
Tudo bem. Eu também podia guardar para depois.
— Vamos almoçar — disse, me virando para a casa antes que ele pudesse continuar. — Tem peixe frito. Meu Deus, eu amo peixe frito.
Assim que entramos, fui dominada por aquele cheiro de óleo quente, peixe crocante, alho dourado. O tipo de cheiro que o estômago reconhece antes do cérebro e que, no meu caso específico, carregava uma memória tão precisa que me fez parar por meio segundo na entrada da sala de jantar.
A Dona Conceição terminava de arrumar as travessas com tranquilidade e eficiência. Peixe frito numa travessa funda, arroz branco soltinho, feijão temperado com bacon que eu conseguia sentir pelo cheiro antes de ver. Tudo simples, tudo honesto, tudo exatamente do jeito certo.
— Que maravilha — murmurei, mais para mim do que para alguém.
— É simples — ela disse, com o orgulho discreto de quem não precisa de elogio mas aprecia quando vem com sinceridade. — Mas é feito com carinho.
— Simples é o melhor tipo. — Já estava me servindo antes de me sentar direito, sem cerimônia nenhuma, porque não havia cerimônia possível diante de peixe frito daquele nível. — Uma vez, quando eu era pequena, minha mãe trabalhou numa fazenda por um tempo. Era quando eu comia melhor na vida. Peixe bem fritinho, polenta cremosa, arroz soltinho, salada de tomate com agrião...
Fechei os olhos por um segundo, deixando a memória montar sozinha. O cheiro de lenha, a mesa comprida do caseiro, a barulheira dos bichos lá fora.
— Quase consigo sentir.
A Dona Conceição soltou uma risada gostosa.
— Polenta e salada posso preparar amanhã com prazer. Hoje temos feijão tropeiro também.
Abri os olhos.
— Não me acorde se isso for um sonho.
Ela saiu para a cozinha ainda rindo, e ficamos os dois sozinhos à mesa. Arthur se serviu com aquela compostura de sempre, mas havia uma leveza nele naquela tarde que eu não estava acostumada a ver. Sem jaleco, sem camisa de alfaiataria, sem o peso do hospital ou da mansão em volta. Só uma camisa simples, manga arregaçada, sentado numa fazenda comendo feijão tropeiro como qualquer pessoa normal.
Eu achei isso mais perigoso do que o usual.
— Me fala mais — ele disse, depois de um momento. — Sua mãe trabalhou em fazenda?
— A gente se mudava muito. — Peguei mais um pedaço de peixe sem culpa. — Mas sim, por um tempo ficamos em uma. Eu adorava. Comida boa, animais pra todo lado, banho de riacho no final do dia com as crianças da propriedade. Era uma das únicas fases em que eu lembro de ter dormido bem.
Ele me olhou com atenção.
— E você? Têm essa fazenda desde sempre?
— Desde que eu era moleque. — Ele passou o guardanapo pelos lábios. — Eu adorava vir pra cá. Foi onde aprendi a cavalgar, cheguei a competir por alguns anos.
Olhei para ele.
— Uau. Nossas infâncias foram muito parecidas.
— Foi ironia?
— Profunda.



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