Os últimos momentos na fazenda tinham sido de uma tranquilidade que eu já sabia que não ia durar.
Tínhamos ficado no piquenique até o sol começar a baixar, conversando sobre nada importante e tudo importante ao mesmo tempo, sem aquele peso de quem resolveu temporariamente parar de fingir que as coisas são mais complicadas do que precisam ser.
O carro do Arthur tinha sido recuperado, mas ele insistiu em voltar com motorista e um segurança, o que eu não contestei porque era a primeira decisão prática dele que eu entendia completamente. Fiquei encostada na janela vendo a cidade aparecer aos poucos enquanto o interior ficava para trás.
Quando o carro entrou no portão da mansão, entendi imediatamente que o Rio tinha aproveitado o fim de semana para fazer hora extra.
A mansão estava irreconhecível.
Funcionários temporários por toda parte, arrumando os jardins, instalando cadeiras com capas brancas em fileiras que ainda não tinham encontrado a posição final, espalhando tecidos, decorações, estruturas de metal que eu não sabia o nome nem a função. A entrada principal tinha ganhado um arranjo de folhagens que bloqueava metade do caminho e cheirava intensamente a algo floral que eu não conseguia identificar mas que era, objetivamente, demais para uma única entrada. Alguém discutia sobre a posição de uma mesa no jardim com a seriedade de quem discute um tratado internacional, enquanto Geórgia balançava a cabeça com tanta força que parecia poder descolar do pescoço a qualquer momento.
Era o meu casamento.
Aquela loucura toda era o meu casamento.
Eu mal tinha colocado o pé no saguão quando uma mão me agarrou pelo braço.
— Aí está você. Por favor, nunca mais faça isso.
Era Beatriz, a wedding planner que Claire tinha contratado e que nos últimos dias tinha se tornado uma presença constante na minha vida, sempre com uma agenda, sempre com uma caneta atrás da orelha e sempre com aquela expressão de quem está administrando uma crise enquanto administra outras quatro.
— Fazer isso o quê?
— Fugir às vésperas de um casamento!
— Eu não fugi. E bem... não pretendo ter outros casamentos.
Troquei um olhar rápido com Arthur, que estava parado ao meu lado com a mala na mão e uma expressão entre divertida e aliviada por não ser ele o alvo. Ele sorriu de volta para mim, murmurou boa sorte num tom que não tinha nada de solidariedade, e saiu em direção ao corredor.
— Traidor! — gritei na direção dele, com a voz que tinha mais riso do que raiva.
— Temos alguns problemas — Beatriz disse, me puxando de volta para a realidade com a eficiência de quem não tem tempo para assuntos secundários.
— Aposto que são muito importantes para você estar tão desesperada assim — minha ironia transbordou, mas ela pareceu não entender. Ou resolveu ignorar.
— De fato. — Ela abriu a agenda. — Mas vamos dar um jeito. Meu trabalho é dar um jeito. Primeiro: enviaram pétalas de rosas bicolores, branco e rosa claro, quando tínhamos solicitado completamente brancas. Posso solicitar a troca, mas o tempo me preocupa, então...
— Mantém as bicolores — falei, como se aquilo fosse o menor problema do universo. Porque era. Bicolor, unicolor, o que a Beatriz precisasse entender era que eu não ia passar os próximos vinte anos lembrando da cor das pétalas do meu casamento. Ia lembrar de outras coisas.
Beatriz piscou.
— Certo. — Fez uma anotação. — Segundo problema. Liguei para confirmar o bolo e o confeiteiro me garantiu que o que ficou reservado foi um bolo de chocolate com brigadeiro, leite Ninho e Nutella.
— Foi.
— Foi? — Ela piscou confusa.

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