A festa acontecia numa parte diferente do jardim, com acesso direto ao salão de festas da mansão, e tudo estava exatamente como tinha sido planejado durante dias de discussões. Nessa parte, o jardim estava com mesas redondas cobertas de toalhas brancas, arranjos baixos que não atrapalhavam a conversa, luzes penduradas entre as árvores formando uma constelação artificial que ficava mais bonita conforme o céu escurecia de verdade.
O bolo de chocolate com brigadeiro que eu tinha escolhido contra a vontade da Claire estava exposto numa mesa central, alto e brilhante, parecendo orgulhoso de ser exatamente o tipo de bolo que ninguém naquela classe social costumava ter em um casamento. A comida que em breve circularia entre os convidados era o tipo de coisa que eu mal sabia identificar pelo nome — pratos com nomes em francês, guarnições que pareciam esculturas — mas que quando provei descobri que não era tão ruim assim, apesar de tudo. A decoração era impecável — flores brancas e bicolores, velas já acesas refletindo dourado em cada superfície de metal e vidro, tudo exatamente do jeito que Beatriz tinha prometido com aquela determinação inabalável dela, mesmo depois da crise do vestido.
Parecia um jardim verdadeiramente retirado de um livro de contos de fadas.
Arthur e eu nos dirigimos para tirar as fotos primeiro. O fotógrafo nos orientava com uma paciência profissional enquanto Arthur e eu tentávamos descobrir onde colocar as mãos, como sorrir sem parecer forçado, como ficar próximos sem parecer estranhos. Depois vieram as fotos com todos os padrinhos juntos, depois separados — Thomas fazendo caretas atrás da câmera, Geórgia insistindo em poses específicas que ela tinha visto em algum lugar, Genevieve elegante em todas elas como se tivesse nascido para aquilo.
Chamaram o Augusto.
Fotos de nós três, fotos só dele e eu, fotos só dele e Arthur. Depois os pais do noivo se juntaram, e por um momento o grupo inteiro ficou organizado em fileiras seguindo as instruções do fotógrafo.
Quando todos começaram a se afastar, Claire se aproximou de mim com um pretexto de ajustar algo no meu vestido.
— É um belo vestido — disse, com a voz baixa, só para mim. — Pena que decidiu não usar o que lhe dei de presente.
Senti algo subir rápido demais para eu controlar. Tinha sido um dia inteiro de noivado, descoberta, votos — e a Claire tinha escolhido aquele momento específico, depois de tudo, para deixar mais um comentário envenenado em forma de elogio.
— Você é mesmo uma vaca falsa do caralho.
Claire ficou completamente imóvel. Os olhos arregalaram por um segundo antes de se recompor numa expressão de choque controlado, como se aquilo fosse fisicamente impossível de processar, como se palavrão e Sartori fossem conceitos mutuamente excludentes no universo dela.
Eu não entendi muito bem o motivo do espanto. Ela já devia saber que eu não era o tipo Genevieve, garota perfeitinha que escolhe as palavras com pinça antes de soltá-las. Mas ela simplesmente se afastou sem dizer mais nada, e eu fiquei ali, sem nenhum arrependimento, vendo as costas dela desaparecerem em direção ao salão com a postura ainda impecável apesar de tudo.
Quando as fotos terminaram, seguimos para o salão interno.
A banda começou a tocar assim que entramos. Pétalas de rosas caíram sobre nossas cabeças vindas de algum lugar acima e o público se abriu formando um corredor que terminava no centro do salão, onde nos esperava a primeira dança.
Arthur me puxou para perto.
— Céus, eu nunca imaginei que meu casamento ia ser assim — falei, olhando ao redor enquanto começávamos a nos mover no ritmo da música.
— Mesmo? Como você imaginava que seria?
Pensei por um segundo.
— Na verdade... acho que nunca imaginei. — Ri. — Nunca fui do tipo romântica. Mas se eu fosse imaginar, diria casamento rápido em uma igreja qualquer e churrasco na laje depois. Carne ao ponto, porque eu não gosto dela malpassada, farofa, salpicão, vinagrete... e um arroz bem soltinho, claro. Ah, e pão de alho! Muito pão de alho.
Arthur soltou uma gargalhada sincera, daquelas que ele não fazia em público com frequência.
— Já percebeu que você sempre fantasia sobre a comida com mais detalhes?
Eu ri, porque era verdade.
— Acho que sim.



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