— Zara, você precisa sair dessa cama.
Tinham se passado quinze dias desde o velório, e como Arthur bem fazia questão de lembrar, eu mal saía da cama. Mal comia — nos primeiros dias, ele literalmente teve que me enfiar sopa na boca, colherada por colherada, com aquela paciência de médico que eu nem merecia naquele momento. Mas a verdade era que eu não tinha ânimo para nada. Nenhum.
Por sorte estava de férias na faculdade. O programa no hospital, eu nem estava me importando. Por que me importaria? Mal estava me importando em tomar banho.
Arthur caminhou até a janela e puxou a cortina com um movimento deliberado, deixando o sol entrar com aquela crueldade de luz de tarde que não pede licença.
— Fecha isso! — reclamei, colocando o travesseiro sobre a cabeça.
Ele veio até a cama, se sentou ao meu lado e começou a fazer carinho no meu cabelo com uma paciência que eu ainda não tinha aprendido a merecer. Deixou um beijinho na minha testa antes de falar.
— Você precisa estar presente hoje.
— Eu não quero. Eu não ligo para o testamento do Augusto.
— Bom... — Ele continuou passando a mão no meu cabelo, a voz firme mas sem dureza. — Aparentemente você se importa muito com essa cama na qual está dormindo há quinze dias e com o teto embaixo do qual ela está. Então, Zara, sinto muito, eu sei que você está sofrendo. Eu estou sofrendo também. Mas a gente precisa estar lá hoje para garantir a vontade do seu avô.
— Eu não quero — repeti, mais baixo dessa vez.
— O que está naquele papel é literalmente a última vontade do seu avô. — Ele tirou o travesseiro do meu rosto com cuidado. — Vai deixar prevalecer o que ele queria ou o que você quer?
Olhei para o teto por um segundo.
Depois me sentei.
Me vestir foi um esforço que levou mais tempo do que deveria. Mas fiz. Coloquei alguma roupa escura que me pareceu apropriada, prendi o cabelo sem muita cerimônia e desci as escadas da mansão com Arthur ao meu lado, que não disse nada, não fez nenhuma observação sobre o estado do meu cabelo ou a escolha da roupa. Só ficou ao meu lado, que era tudo que eu precisava que ele fizesse.
O escritório do advogado era exatamente o tipo de lugar que eu imaginava quando pensava em dinheiro e papéis importantes. Madeira escura, estantes do chão ao teto forradas de livros que provavelmente ninguém lia, uma mesa enorme no centro com cadeiras pesadas ao redor e um cheiro específico de papel antigo e ar-condicionado que tornava tudo mais solene do que precisava ser. A luz entrava filtrada pelas persianas meio fechadas, dando ao ambiente uma penumbra que parecia ensaiada para a ocasião.
Estávamos todos sentados quando chegamos — Arthur e eu de um lado, Eduardo com um advogado ao seu lado, Leonora com uma mulher de terno que eu não reconhecia e que tinha uma postura ainda mais rígida do que a dela, o que era notável. Leonora me lançou um olhar quando entramos, breve e difícil de ler, antes de voltar a encarar o centro da mesa com aquela compostura de quem veio preparada para qualquer coisa.
O advogado responsável pelo testamento, um homem de uns sessenta anos com óculos de armação grossa e uma pilha de documentos à sua frente, se levantou para nos receber e depois voltou a se sentar com a seriedade de quem leva seu trabalho muito a sério.
— Bom dia a todos. Sou o doutor Henrique Braga, advogado e depositário do testamento do senhor Augusto Altieri. — Ele ajustou os óculos. — Antes de darmos início à leitura formal, informo que o instrumento foi lavrado por escritura pública, devidamente registrado em cartório e encontra-se em plena validade jurídica. Qualquer manifestação deverá aguardar o término da leitura.
Ninguém disse nada.


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