~ ARTHUR ~
Chegamos na mansão e subimos direto.
A mansão estava mais quieta do que de costume, como se soubesse que havia algo pesado demais para ser preenchido com barulho. Ou talvez só eu estivesse lendo aquilo no silêncio dos corredores.
— Vai tomar um banho — falei, antes que Zara pudesse se jogar na cama novamente com aquele peso de quem decidiu que o mundo podia continuar sem ela por mais um tempo. — Eu mando preparar alguma coisa para você comer.
— Não precisa...
— Você ouviu o que o advogado disse, Zara. Vida normal. Começa agora.
Ela me olhou por um segundo com aquela expressão de quem está pesando se vale a pena brigar.
— Eu tô pouco me fodendo pra esse testamento, Arthur. — A voz quebrou no meio da frase. — Eu volto pra favela amanhã se precisar. — Se jogou na cama, abraçando o travesseiro, a voz afundando num choramingo que ela claramente estava tentando controlar e não estava conseguindo. — Eu só quero meu avô de volta.
Me larguei na cama ao lado dela, olhando para o teto por um segundo antes de falar.
— Eu também quero, Zara. — A frase saiu mais baixa do que eu esperava, carregada de um peso que eu tinha passado dias tentando segurar dentro de uma caixa bem fechada enquanto cuidava dela. — Eu também quero. Mas você precisa viver por ele agora. Vamos fazer a vontade dele. Vamos ser não só um casal, mas aliados. Vamos, um dia, comandar aquele hospital juntos do jeito que ele sempre prezou. Não vamos deixar tudo nas mãos de uma mulher que provavelmente venderia toda a parte do Augusto sem pensar duas vezes porque só se importa com dinheiro.
Ela ficou quieta por um momento.
— Ela faria isso? — Finalmente olhou para mim. — Destruir todo o legado do meu avô?
— Sem pensar duas vezes. Você acha que ela está interessada em tocar um hospital? Claro que não. Ela quer lucro rápido para viver bem o resto da vida. Não tem filhos, não tem para quem deixar nada. E também não tem mais a mesada generosa que o Augusto enviava todos os meses.
Zara ficou me olhando.
— Não vou deixar ela fazer isso.
— Então começa indo tomar um banho. Depois se alimenta. E amanhã... amanhã você volta pro hospital comigo. Vida normal.
Ela concordou com a cabeça, fragilmente, e foi para o banheiro.
Fiquei parado por um instante, ouvindo o barulho da água começar lá dentro.
Depois desci.
Fui até a cozinha para pedir que preparassem uma daquelas comidas caseiras que a Zara sempre dizia que aqueciam o coração. Ela estava precisando. Eu também estava precisando, se era para ser honesto comigo mesmo, coisa que eu raramente fazia quando havia tarefas concretas para resolver.
Eu e o Augusto sempre tivemos uma conexão que ia além do que qualquer contrato ou obrigação familiar poderia explicar. Era carinho genuíno, era família escolhida, era ele aparecendo em todas as minhas competições de hipismo quando eu ainda era adolescente e achava que aquilo era óbvio, e só entendendo anos depois que não era óbvio — era amor. Era ele cobrindo minhas costas quando eu cometi erros que podiam ter destruído minha carreira antes mesmo de ela começar. Era ele sendo o pai que meu pai não conseguia ser naqueles anos em que tudo ao redor desmoronava com a doença da Clarice. Era ele simplesmente estando lá, toda vez, sem fazer disso um peso.
Eu não queria que a Zara percebesse o quanto eu também estava desabando. Não porque eu achasse que ela não suportaria, mas porque ela já carregava tanto que eu preferia ser a superfície estável enquanto ainda conseguisse manter isso. E porque o Augusto teria feito o mesmo — segurado o chão para todo mundo antes de processar a própria dor. Era o mínimo que eu podia fazer por ele agora.
— Então, como foi?

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