O som ecoava dentro da cabeça de Helena como uma sirene distante.
O golpe ainda ardia — não apenas na pele, mas na alma.
Tocou o local ferido, e quando seus dedos voltaram cobertos de sangue, a intensidade do vermelho pareceu lhe gritar tudo o que ela precisava ouvir: "bastava".
Se antes tudo que ela queria era justiça, agora ela não teria piedade.
O sangue escorrendo por entre seus dedos era o retrato cru de tudo o que ela havia ignorado por amor.
Cada gota parecia uma lembrança — das promessas de Cássio, dos sorrisos cúmplices, dos sonhos que ela mesma pintou para os dois. Tudo uma farsa.
Ergueu-se devagar, a respiração entrecortada. As pernas tremiam, mas ela segurava firme a pasta contra o peito — como se aquele monte de papéis fosse o último fio de dignidade que lhe restava. Passou por entre os corredores da empresa, enquanto olhares chocados e cochichos se erguiam ao redor. Alguns funcionários baixaram os olhos, constrangidos; outros a olharam com pena.
Mas Helena não olhou para ninguém.
Não mais.
Empurrou a porta giratória e sentiu o ar frio da rua bater-lhe o rosto, trazendo de volta um sopro de lucidez. Levantou o braço e acenou para um táxi.
— Para onde, senhora? — perguntou o motorista, lançando-lhe um olhar apreensivo ao ver o sangue em sua têmpora.
— Para o hospital, por favor.
Durante o trajeto, ela manteve o olhar fixo na janela. As luzes da cidade pareciam borradas — um reflexo perfeito da sua mente, turva, dolorida, confusa.
Ao chegar ao hospital, deu entrada no pronto-atendimento. Enquanto esperava para ser atendida, passou por um corredor, e uma porta entreaberta chamou sua atenção.
Por um instante, seu coração parou.
Lá dentro, em uma sala privativa, estavam Cássio e Silvia.
Ela estava deitada, coberta por lençóis brancos, e chorava mansamente. Cássio, ao seu lado, lhe segurava a mão em um gesto doce.
— Eu não queria interferir no seu casamento… — dizia Silvia, com voz trêmula e encenada. — A culpa é toda minha… eu jamais quis que chegasse a esse ponto…
Cássio, visivelmente tomado pela emoção, respondeu com ternura:
— Shhh… não diga isso. O importante é que você está bem. Você e o bebê.
A palavra caiu como uma pedra no peito de Helena.
Bebê.
O som do hospital se dissolveu.
O ruído das máquinas, os passos apressados, as vozes — tudo se tornou um zumbido distante e o chão pareceu sumir sob seus pés.
Durante anos, Helena sonhara em ser mãe — imaginava o riso de uma criança correndo pela casa, o toque pequeno de uma mão segurando a sua, o lar cheio de vida que sempre desejou construir ao lado de Cássio.
Mas, em todas as vezes que tocou no assunto, ele a convenceu de que "ainda não era a hora certa", que "o momento ideal viria quando a empresa estivesse estável", que "teriam muito tempo pela frente". E ela, acreditando no amor que sentia, aceitou.
Encheu o corpo de pílulas que lhe causavam enjoos, dores e alterações, confiando na promessa de um futuro compartilhado. Agora, vendo-o feliz com a gravidez da amante, compreendia enfim a verdade amarga: não era que Cássio não quisesse ter filhos — ele não queria tê-los com ela.
O golpe na cabeça doía, mas não tanto quanto aquele instante.
Um nó se formou em sua garganta. Helena levou a mão ao peito, sentindo o coração pulsar dolorido, pesado, como se cada batida empurrasse para fora mais uma lembrança, mais um sonho que morria.
Uma única lágrima quente escorreu por seu rosto e se misturou ao gosto metálico do sangue em seus lábios. Naquele instante, ela entendeu que algo dentro dela também havia nascido — não um filho, mas uma força nova, fria e determinada, que jamais permitiria que ele ou qualquer outra pessoa a fizesse se sentir pequena novamente.
Foi a voz de uma enfermeira que a arrancou do torpor:
— Senhora Helena Amaral? Seu quarto já está pronto, o médico vai atendê-la em seguida.
Helena ergueu o rosto, os olhos secos.
— Duarte.
— Perdão?
— Meu nome é Helena Duarte.
Disse o nome como quem assina um novo destino e atravessou o corredor sem olhar para trás.
Na sala de atendimento, o médico falava, mas as palavras soavam distantes, como se ela estivesse submersa.
— O ferimento precisou de sete pontos… — dizia ele. — É importante permanecer em observação até amanhã, para descartarmos risco de concussão. Foi por pouco. Um pouco mais de força, e o trauma poderia ter sido grave…
Helena o ouvia sem ouvir. A mente vagava entre o passado e o presente, entre o amor e a decepção.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio