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Quadros de um divórcio romance Capítulo 10

O som ecoava dentro da cabeça de Helena como uma sirene distante.

O golpe ainda ardia — não apenas na pele, mas na alma.

Tocou o local ferido, e quando seus dedos voltaram cobertos de sangue, a intensidade do vermelho pareceu lhe gritar tudo o que ela precisava ouvir: "bastava".

Se antes tudo que ela queria era justiça, agora ela não teria piedade.

O sangue escorrendo por entre seus dedos era o retrato cru de tudo o que ela havia ignorado por amor.

Cada gota parecia uma lembrança — das promessas de Cássio, dos sorrisos cúmplices, dos sonhos que ela mesma pintou para os dois. Tudo uma farsa.

Ergueu-se devagar, a respiração entrecortada. As pernas tremiam, mas ela segurava firme a pasta contra o peito — como se aquele monte de papéis fosse o último fio de dignidade que lhe restava. Passou por entre os corredores da empresa, enquanto olhares chocados e cochichos se erguiam ao redor. Alguns funcionários baixaram os olhos, constrangidos; outros a olharam com pena.

Mas Helena não olhou para ninguém.

Não mais.

Empurrou a porta giratória e sentiu o ar frio da rua bater-lhe o rosto, trazendo de volta um sopro de lucidez. Levantou o braço e acenou para um táxi.

— Para onde, senhora? — perguntou o motorista, lançando-lhe um olhar apreensivo ao ver o sangue em sua têmpora.

— Para o hospital, por favor.

Durante o trajeto, ela manteve o olhar fixo na janela. As luzes da cidade pareciam borradas — um reflexo perfeito da sua mente, turva, dolorida, confusa.

Ao chegar ao hospital, deu entrada no pronto-atendimento. Enquanto esperava para ser atendida, passou por um corredor, e uma porta entreaberta chamou sua atenção.

Por um instante, seu coração parou.

Lá dentro, em uma sala privativa, estavam Cássio e Silvia.

Ela estava deitada, coberta por lençóis brancos, e chorava mansamente. Cássio, ao seu lado, lhe segurava a mão em um gesto doce.

— Eu não queria interferir no seu casamento… — dizia Silvia, com voz trêmula e encenada. — A culpa é toda minha… eu jamais quis que chegasse a esse ponto…

Cássio, visivelmente tomado pela emoção, respondeu com ternura:

— Shhh… não diga isso. O importante é que você está bem. Você e o bebê.

A palavra caiu como uma pedra no peito de Helena.

Bebê.

O som do hospital se dissolveu.

O ruído das máquinas, os passos apressados, as vozes — tudo se tornou um zumbido distante e o chão pareceu sumir sob seus pés.

Durante anos, Helena sonhara em ser mãe — imaginava o riso de uma criança correndo pela casa, o toque pequeno de uma mão segurando a sua, o lar cheio de vida que sempre desejou construir ao lado de Cássio.

Mas, em todas as vezes que tocou no assunto, ele a convenceu de que "ainda não era a hora certa", que "o momento ideal viria quando a empresa estivesse estável", que "teriam muito tempo pela frente". E ela, acreditando no amor que sentia, aceitou.

Encheu o corpo de pílulas que lhe causavam enjoos, dores e alterações, confiando na promessa de um futuro compartilhado. Agora, vendo-o feliz com a gravidez da amante, compreendia enfim a verdade amarga: não era que Cássio não quisesse ter filhos — ele não queria tê-los com ela.

O golpe na cabeça doía, mas não tanto quanto aquele instante.

Um nó se formou em sua garganta. Helena levou a mão ao peito, sentindo o coração pulsar dolorido, pesado, como se cada batida empurrasse para fora mais uma lembrança, mais um sonho que morria.

Uma única lágrima quente escorreu por seu rosto e se misturou ao gosto metálico do sangue em seus lábios. Naquele instante, ela entendeu que algo dentro dela também havia nascido — não um filho, mas uma força nova, fria e determinada, que jamais permitiria que ele ou qualquer outra pessoa a fizesse se sentir pequena novamente.

Foi a voz de uma enfermeira que a arrancou do torpor:

— Senhora Helena Amaral? Seu quarto já está pronto, o médico vai atendê-la em seguida.

Helena ergueu o rosto, os olhos secos.

— Duarte.

— Perdão?

— Meu nome é Helena Duarte.

Disse o nome como quem assina um novo destino e atravessou o corredor sem olhar para trás.

Na sala de atendimento, o médico falava, mas as palavras soavam distantes, como se ela estivesse submersa.

— O ferimento precisou de sete pontos… — dizia ele. — É importante permanecer em observação até amanhã, para descartarmos risco de concussão. Foi por pouco. Um pouco mais de força, e o trauma poderia ter sido grave…

Helena o ouvia sem ouvir. A mente vagava entre o passado e o presente, entre o amor e a decepção.

Consuelo levou a mão à boca, em choque. Rogério, vermelho de raiva, apertava o punho com tanta força que as veias saltavam.

— Não se preocupe, minha pequena — disse ele, enfim. — A festa da empresa está chegando, e estaremos aí. Ele vai entender com quem mexeu.

Seus pais eram magnatas do setor da construção, e como filha única sempre a trataram com todo o zelo.

Quando ela lhes contou sobre sua intenção de largar a carreira e se casar com Cássio, ambos foram contra. Eles sempre lhe diziam que ela merecia viver por si primeiro antes de viver por qualquer outra pessoa. Que ela era talentosa demais para abdicar de seu dom e que se arrependeria. Mas ela, naquela época, com a teimosia da juventude, não deu ouvidos.

Vendo que não conseguiriam mudar a decisão da filha, a apoiaram, dando-lhe até o capital necessário para que Cássio desse início a sua empresa.

Helena, com o olhar sereno e firme, respondeu:

— Não, pai. Essa é uma história que eu mesma preciso encerrar. Sozinha.

O silêncio que se seguiu não era de discordância, mas de respeito.

Rogério a olhou com o mesmo orgulho que tivera quando a viu andar pela primeira vez.

— Finalmente, minha filha está de volta.

Depois que desligou, Helena respirou fundo. Sentia o coração mais leve, ainda que ferido.

Levantou-se, arrumou os cabelos ao redor do curativo e se preparou para sair.

Mas antes que deixasse o quarto, o celular vibrou novamente.

Uma nova mensagem de Silvia.

“Agora, com o filho de Cássio em minha barriga, é só questão de tempo para eu seja a nova Sra. Amaral.”

A mensagem vinha acompanhada de duas fotos: o resultado positivo de um teste de gravidez e um ultrassom.

Helena leu, e por um momento, ficou imóvel.

Então, pela primeira vez em muito tempo, sorriu — um sorriso frio, silencioso, cortante.

Digitou apenas duas palavras.

“Boa sorte.”

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