Nos dias que se seguiram ao incidente na cafeteria, Cássio não voltou para casa. Apenas enviava mensagens curtas pelo celular, justificando a ausência com compromissos intermináveis de trabalho, reuniões de última hora e viagens repentinas.
Em compensação, Silvia não economizava esforços, mantinha um ataque constante de mensagens venenosas. Fotos deles almoçando em restaurantes sofisticados, beijos apaixonados e até fotos íntimas deles entrelaçados nus na cama. Sempre acompanhadas de comentários sarcásticos:
“Estou exausta, Cássio não consegue desgrudar as mãos de mim.”
“Cassio disse que você é fria e que não desperta mais desejo nele. Ele só te mantém pois você é uma boa dona de casa.”
“Como você consegue ficar ao lado de um homem que não te ama? Não cansa de se humilhar?”
“Cássio se declarou pra mim, disse que sou a única que ele ama. Por que não evita passar mais vergonha e vai embora de vez?”
Cada imagem, cada palavra escolhida a dedo como se quisesse que Helena sentisse a humilhação em cada letra e em cada pixel.
Helena olhou para aquelas mensagens por um longo tempo tentando lembrar do que sentirá por aquele homem, tentando achar algum resquício daquele sentimento... mas já não havia mais nada a não ser raiva.
Raiva pelo tempo perdido, pela vida não vivida.
Não respondeu a nenhum dos dois, mas retornou a Manoel que a havia contatado pedindo ajuda com a produção dos protótipos.
"Sra. Helena, desculpe-me por incomodá-la.
Preciso de sua ajuda com algumas dúvidas que estão travando o andamento do trabalho.
Aproveito também para expressar minha solidariedade diante do infeliz ocorrido na empresa.
Lamento profundamente o episódio e mais ainda por não ter conseguido ajudá-la de alguma forma.
Com admiração,
Manoel."
Ela sabia que Manoel não tinha qualquer culpa pelo que acontecera; pelo contrário, sempre a tratara com respeito, mesmo ela sendo bem mais nova que ele.
"Olá, Sr. Manoel, espero que esteja bem!
Agradeço suas palavras e seu apoio, mas não há pelo que lamentar.
Envie-me por e-mail as questões que precisa esclarecer, terei prazer em ajudá-lo."
Ela ficou grata a ele por ter lhe dado algo com o que se ocupar. E assim, passou os dias empenhada a ajudar mesmo que de longe.
Lívia havia enviado, discretamente, os papéis do divórcio.
Helena sabia que o momento certo de agir se aproximava, mas o peso da decisão exigia paciência.
A raiva precisava ser contida; a estratégia, precisa.
A simples visão daqueles documentos trouxe uma mistura de alívio e determinação — cada cláusula era uma promessa de liberdade e justiça, escrita de forma meticulosa para garantir que Cássio não pudesse reivindicar nada do que ela criara ao longo dos anos.
...............
No quarto dia, Cássio finalmente retornou.
Ele havia estranhado a ausência de mensagens de Helena nos últimos dias, mas o trabalho e os momentos com Silvia logo o distraíram de pensar muito nisso.
Entrou na casa com o ar de sempre: altivo, confiante, como se a ausência de dias não tivesse nenhuma consequência. Mas os olhos dele carregavam ainda uma sombra de ressentimento pelo constrangimento público. Sem sequer cumprimentá-la, foi direto:
— Helena, quero que organize a festa de cinco anos do Studio Cassiani. Cada detalhe deve ser impecável. Não quero me envergonhar diante dos convidados — disse, a arrogância impregnando cada palavra. — E você não vai participar. Se algo sair errado, será o fim desse casamento, entendeu? Encare isso como a última chance que estou te dando!
Ele já não demonstrava nenhuma necessidade em ser gentil para conseguir o que quisesse dela. E ali ela o enxergou, sem máscaras, sem a névoa que o estupor daquele amor que ela sentia conferia a ele.
Ela apenas assentiu como a esposa submissa que sempre fora. Controlou o rubor da raiva que subia, e manteve o silêncio. Dentro dela, a decisão de agir com precisão estratégica já estava firmemente consolidada, e Cássio, ele mal sabia o que o esperava.
...............
A semana seguinte se transformou em uma rotina intensa, quase ritualística.
Helena reservou o centro de convenções do melhor hotel da cidade, contatou empresas de decoração, locação e bufê.
Optou por um coquetel de aperitivos e finger foods, idealizando um evento mais descontraído e que estimulasse a interação.
Supervisionava cada detalhe com atenção obsessiva. Os arranjos de flores, a iluminação, cada cadeira, eram escolhidos para destacar a elegância e o prestígio do evento. Nada poderia ser deixado ao acaso.
As cores dos arranjos foram selecionadas com cuidado: tons de marfim, dourado e nuances suaves de azul para criar uma harmonia visual que encantaria os convidados mais exigentes.



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