Cássio nunca havia levantado a mão para Helena.
Foi rude, sim. Frio, distante, cruel nas palavras e nos silêncios. Mas jamais imaginara ser capaz de cruzar essa linha. E, no entanto, ali estava ela — caída ao chão, o sangue escorrendo lentamente por sua têmpora, e aquele olhar… aquele olhar que ele nunca havia visto antes.
Helena sempre fora como uma pintura viva — uma tela vibrante, cheia de luz e movimento.
Quando a conheceu, era uma jovem artista quase formada, com o brilho do mundo refletido nos olhos e a alma transbordando sonhos.
Ele, ao contrário, estava perdido. Havia estudado, planejado, tentado — mas nada parecia suficiente. Sabia apenas que queria ser grande. Queria ser admirado, respeitado, uma presença que não pudesse ser ignorada.
Ao olhar para o trabalho de Helena, enxergou tudo o que lhe faltava: cor, vida, genialidade.
E, ao olhar nos olhos dela, viu a chama que poderia acender o próprio destino.
Encantou-se. Declarou-se. E ela acreditou.
Ele precisava dela — e ela o amou o bastante para não perceber que, aos poucos, ele a estava consumindo.
Helena lhe deu tudo. Cada “sim” que pronunciava era uma entrega silenciosa:
“Sim, eu aceito namorar com você.”
“Sim, eu aceito me casar com você.”
“Sim, eu abdico da minha carreira pela sua.”
E, assim, ela foi deixando de ser ela mesma — e tornando-se dele.
Como uma tela coberta por novas camadas de tinta, até que a imagem original desaparecesse.
Os pais dela jamais aprovaram a união, mas Helena os convenceu. Disse que Cássio era brilhante, um visionário, alguém destinado ao sucesso. E com o amor cego que só os apaixonados conhecem, conseguiu até que eles investissem o capital que daria início à empresa dos sonhos dele.
Aquele seria o início da vida promissora que ele tanto sonhara.
Mas quando chegou a hora de criar, de dar forma à primeira coleção, os esboços que Cássio produzia pareciam... vazios.
Tentava, rasgava, refazia. Noites sem dormir, desenhando e odiando o que via.
Foi então que Helena, vendo seu desespero, sentou-se ao seu lado e começou a desenhar.
Em poucos traços, ela deu vida ao impossível.
Aquela primeira coleção foi um sucesso absoluto — o estopim da fama, o nome Studio Cassiani ecoando entre empresários, revistas e investidores.
Mas o sucesso, ao invés de gratidão, trouxe um gosto amargo.
Cássio passou a vê-la como uma sombra que roubava seu brilho.
Começou a acreditar que o mérito deveria ser dele — afinal, ele era o homem, o idealizador, o rosto público.
E ela? Ela devia ser apenas uma dona de casa, um braço de apoio, o jantar quente, o silêncio conveniente.
Convencido de que merecia o pedestal sozinho, começou a apagar a presença dela pouco a pouco. Criou um escritório em casa “para que ela tivesse mais conforto”, e o ateliê que prometera construir para Helena tornou-se uma lembrança esquecida.
Ela aceitou tudo, sempre com o mesmo olhar de ternura.
Mas, para ele, esse amor incondicional se tornou um espelho doloroso — refletia o que ele não era.
E quanto mais ela o olhava com doçura, mais ele a desprezava.
Os dias se misturaram em meses, e o amor se tornou hábito. Até que um novo nome surgiu em sua vida — Silvia.
Linda, sedutora e, sobretudo, admiradora.
Cada palavra dela era um elogio, um afago no ego ferido dele.
“Você é brilhante, Cássio.”
“Você é a mente por trás de tudo.”
“Você nasceu para ser admirado.”
E ele acreditou. Ou quis acreditar.
Com Silvia, ele sentia-se grande de novo. Importante.
E, pouco a pouco, começou a depender dela — das palavras, dos sorrisos, da falsa doçura.
Ter uma amante parecia apenas... natural.
Muitos homens de sucesso tinham. E ele continuaria com Helena, sua esposa devota, que sempre o perdoava.
Foi quando Helena apareceu, pálida, com um curativo na cabeça, que o coração dele disparou.
— Helena, o que está fazendo aqui? — perguntou, incrédulo, a voz trêmula, o olhar dividido entre o espanto e o pavor.
Ela o fitou por um instante. O olhar sereno, impassível, quase ausente. Depois desviou para Silvia, para a barriga dela e de volta para ele — e nesse breve silêncio, Cássio sentiu-se menor do que nunca.
Silvia, percebendo o desconforto dele, se adiantou com a voz melosa:
— Helena, você não precisa fingir se machucar para vir espiar o Cássio. Já disse que entre nós não há nada. Ele só foi gentil comigo, nada mais que isso.
Aquelas palavras soaram como uma faísca sobre um barril de pólvora. Cássio explodiu.
— Como você pode ser tão baixa? Já não basta o que fez com a Silvia? Agora está me seguindo por algo que só existe na sua cabeça? Você deveria se desculpar com ela!
Helena pensou em todas as vezes que aquele tipo de discurso a afetou, deixando-se rebaixar para agradá-lo. Deu um sorriso de canto incrédula consigo mesma.
— Não precisa, Cássio... — murmurou Silvia, com a voz trêmula, teatral, encenando inocência. — A culpa foi minha. Eu não deveria ter abordado a Helena na empresa... só queria confortá-la para que não pensasse o pior de nós.
Cássio, tomado pela emoção, envolveu Silvia nos braços, sentindo-se o protetor que sempre quis ser.
Helena observava tudo, imóvel, como quem assiste a um espetáculo grotesco.
Seu olhar era calmo demais — e isso o desarmava.
— Pare de ser tão insegura, Helena. Isso me envergonha. — disse ele, seco. — Faltam apenas cinco dias para o aniversário da empresa. Em vez de dramas, concentre-se em organizar o evento.
Silvia, protegida pelos braços de Cássio, deu um leve sorriso de triunfo para Helena. Já ela, apenas assentiu, a voz serena como o gelo:
— Tudo bem.
Passou por eles sem desviar o olhar. O som firme dos saltos ecoando pelo corredor ficou preso na mente de Cássio como um eco impossível de silenciar.
Ele ficou parado, sem entender.
Cadê o tremor, as lágrimas, os pedidos de perdão?
— Não a cobre tanto, amor. — Sussurrou Silvia, sorrindo com falsa ternura. — Ela só faz isso pra chamar sua atenção.
Cássio não respondeu, mas sentiu a dúvida germinar dentro de si — pequena, incômoda, mas viva.

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