Silvia despertou. A noite quase inteira tinha sido vivida em estado de sítio: medo, raiva e uma angústia silenciosa por não saber o que viria de Dante. E essa dúvida a consumia em silêncio. Quando a porta abriu, pensou que fosse algum dos capangas. Mas se enganou.
Dante estava parado no batente, vestido com seu terno preto e o colarinho da camisa pontiagudo emoldurando o rosto. Não disse nada. Apenas a observou. Por tempo demais.
Instintivamente, Silvia sentou na cama e recolheu as pernas junto ao peito, apoiando as costas na cabeceira. Abraçou a própria forma como um mecanismo de defesa — não só contra o homem, mas contra tudo que ele representava. Dante então entrou, sem pressa. Aproximou-se, sentou na lateral do colchão como quem assume território, e, com um gesto mínimo, deixou a mão caminhar. Primeiro pelo braço dela, depois descendo pela perna coberta pela camisola longa. Não era um toque apressado. Era um reconhecimento silencioso de posse.
Silvia sentiu a repulsa subindo à pele como febre fria, o corpo lembrando do que a mente tentava sobreviver: invasões deixam ecos na pele. Conteve o impulso de se encolher ainda mais. Ela sabia que tal reação poderia ofendê-lo e despertar a ira nele.
E o pior era o contraste. A aparência dele — apenas a aparência — não era de se desprezar. Ele carregava traços que, em outro tempo, certamente foram considerados belos. Devia ter pouco mais de quarenta anos, o que por si só já era uma provocação muda. Jovem demais para todo o poder que tinha. Velho o bastante para carregar mapas de violência no rosto. A cicatriz não era a única marca. Era apenas a mais visível. O olhar seco, a mandíbula decidida, o silêncio permanente das expressões contidas… tudo parecia ter sido moldado no mesmo forno: frieza.
Silvia não tinha dúvidas sobre o que o poder cobra. Para alguém chegar ao topo naquele universo tão cedo, não existe moldura sem sangue. O caminho dele devia ter sido aberto na força bruta e costurado na corrupção silenciosa. E isso incluía vidas como a dela. Pessoas que já estavam caídas… e que ele encontrara pelo instinto de esmagar o que restava.
A vida dela já estava em ruína antes dele aparecer. Mas antes, ainda tinha sonhos pequenos, frágeis, possíveis. Dante não os começou. Mas ele os encerrou. Foi ele quem raspou o que restava da inocência dela.
— Passarinha… passarinha… — A voz dele deslizou baixa, quase musical. — Ainda não decidi se você é realmente inútil… ou se fui eu quem esperou demais de você.
As palavras tinham doçura no som, mas não na intenção. Silvia engoliu seco. Não havia para onde escapar dentro daquele tom, dentro daquele quarto.
O olhar dele não estava nela agora. Estava na mão dele mesmo, os dedos segurando o tornozelo dela com uma firmeza tranquila demais, pensativa demais. O toque era leve o bastante para não deixar marcas, mas preciso o suficiente para lembrar que ele podia apertar quando quisesse.
Silvia, no entanto, não se mexeu. O medo a paralisava, mas a mente a traía no sentido contrário: ela tentava decifrar o que ele estava pensando, o que aquele silêncio calculado escondia.
— A única ordem que te dei foi seduzir aquele idiota. — A palavra idiota pareceu ecoar por mais tempo que o necessário, esticada pela irritação que ele mascarava em cadência lenta. — Era pra você aprender a manipulá-lo.
Silvia o encarou com um misto de incredulidade e ácido reconhecimento. Ela sabia exatamente do que ele falava.
— O plano era simples: entender como ele se move, como ele pensa… usar a vaidade dele contra ele mesmo. E você falhou no básico.
Os olhos cortaram de leve para o ventre dela antes de voltar para a linha imaginária no ar entre os dois.
— Você se envolveu emocionalmente com ele. — Não era uma pergunta. A frase dele veio como sentença.
— Não, eu não… — Silvia tentou negar.
— Ficou claro quando eliminar a ex virou sua obsessão, — ele disse, inclinando o corpo para frente o suficiente para que a fala encostasse nela como um dedo apontado. — Por quê? Inveja? Ciúme?
O peito de Silvia reagiu primeiro ao ataque implícito. Ardeu em raiva viva, rápida, orgânica. Helena não era nada e, ainda assim, ele estava insinuando que ela tinha inveja justamente daquilo que desprezava. A sugestão a atingia no orgulho.
— Não, — respondeu ela, forçando firmeza. — Ela era só um empecilho no caminho.
— Empecilho como? — ele rebateu, sem alterar o volume da voz, o que deixava a discordância ainda mais incômoda. — Se o divórcio foi ideia dela? Ela saiu do caminho por conta própria. E nem assim você conseguiu capturar a atenção dele.
Silvia apertou a mandíbula ao ouvir aquilo. Era a lógica pura, simples e irritante da situação — e justamente por isso doía. Por mais que tivesse tentado, Cássio sempre voltava como um imã para Helena. Ela sabia, mas ouvir isso em voz alta fazia a ferida ter som.
— Me conta, — disse ele, a pausa calculada antes da pergunta mais perigosa. — Você se apaixonou por ele?
— Não, — respondeu ela rápido demais, quase atropelando a própria convicção.
O silêncio que veio depois não era acusação. Era investigação. Ele a observava com calma demais. Procurava qualquer coisa que soasse dúvida ou mentira. Mas talvez nem ela mesma soubesse qual era a verdade.
Dante se pôs de pé com a lentidão calculada. Ajustou o colarinho, um gesto simples que no corpo dele nunca era só estética — era ritual de encerramento e domínio. Então falou sem nuances:
— Você não precisa mais se esforçar tanto. Pela sua incompetência, tive que agir eu mesmo. — Fez uma pausa mínima, o suficiente para o impacto se alojar. — E agora eu já tenho Cássio Amaral nas mãos.
Silvia continuou sentada, como se alguém tivesse freado o sangue dentro dela. Os olhos se alargaram num espanto involuntário. Ela tentou imaginar o que exatamente ele fizera, mas ele não ofereceu resposta alguma além da própria frase. E justamente porque era Dante dizendo… significava que o cenário era real. Irrefutável. Ela permaneceu olhando para ele esperando explicação, silêncio que implorava contexto, mas que só ecoava medo.
— Você vai voltar para lá para me manter informado. Só isso. — disse ele, finalmente caminhando até a porta.
No batente, voltou o olhar, agora mais duro que antes:
— Mas a partir de agora, esqueça Helena Duarte.


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