“Algumas manchas não estão na pele.”
No fim da tarde, Silvia acompanhou Viviane até a porta com uma energia nova, quase elétrica, pulsando sob a pele. Se não podia ser amada, Helena também não seria. Com paciência, arrancaria tudo o que fosse importante para ela.
Assim que fechou a porta, subiu as escadas sem pressa. Tomou um banho longo, quase ritualístico. Quando saiu, não se vestiu. Parou nua diante do espelho do quarto, o corpo ainda úmido, os cabelos pingando sobre os ombros.
Seus olhos desceram devagar até o ventre já levemente saliente.
Ali estava a prova.
O que a mantinha de pé.
O que a tornava necessária.
Silvia pousou as duas mãos sobre a barriga, os dedos abertos, como se quisesse moldar o futuro ali dentro. O reflexo lhe devolveu um sorriso torto, quase irreconhecível.
— Você é meu — murmurou, para si mesma… ou para algo que só ela via.
Naquele corpo havia poder. Um poder que Helena jamais teria. Helena tinha talento, tinha amor, tinha brilho — coisas frágeis, voláteis, facilmente roubáveis. Silvia tinha algo que prendia. Algo que amarrava para sempre.
Inclinou o rosto, analisando cada detalhe do próprio reflexo, como se buscasse defeitos, mas encontrasse apenas justificativas.
Ela sempre teve tudo, pensou.
Sem precisar pedir. Sem precisar implorar. Sem precisar se sujar.
Um riso baixo escapou de seus lábios.
— Não é justo… — sussurrou. — Mas justiça nunca foi o jogo, foi?
O pensamento de Helena também grávida atravessou sua mente como uma lâmina. Aquilo a corroía por dentro. Não era só inveja, era uma sensação insuportável de ter sido preterida pelo universo inteiro.
Endireitou a postura, recompondo o rosto. A máscara doce voltaria a qualquer momento — ela sabia vestir aquela personagem como ninguém. Mas ali, sozinha, deixou que o pensamento final se formasse, claro e perigoso: “Helena pode até achar que venceu. Mas eu ainda estou de pé.”
Cássio entrou no quarto e parou abruptamente ao vê-la ali nua e molhada. Por um segundo, esqueceu qualquer coisa que pretendia dizer. O olhar dele percorreu o corpo dela quase por instinto, como se buscasse ali algum tipo de ancoragem.
— O que você está fazendo? — perguntou, a voz baixa, rouca demais para soar como reprovação.
Silvia se virou devagar, sem pressa alguma. Havia nos olhos dela algo que não era apenas desejo — era cálculo. Caminhou até ele em passos lentos, estudados, como quem sabia exatamente o efeito que causava. Ergueu a mão e tocou o rosto dele, os dedos deslizando da mandíbula ao pescoço, depois descendo para o peito exposto pelos botões abertos da camisa.
— Estava te esperando — murmurou, a voz macia, quase um sussurro.
Cássio engoliu em seco. Não recuou, mas também não correspondeu de imediato. Havia cansaço demais dentro dele. Confusão demais. A lembrança do hospital, do comercial, de Helena — tudo ainda pulsava como um eco incômodo.
— Silvia… — começou, sem saber exatamente o que dizer.
Ela inclinou a cabeça, aproximando o rosto do dele, como se pudesse silenciar qualquer pensamento com a simples proximidade.
— Meu amor... você tem passado por coisas demais — disse, os dedos ainda ali, firmes, possessivos. — Me deixa cuidar de você.
Por um instante, Cássio fechou os olhos. Não era exatamente desejo o que sentia. Era necessidade. A necessidade de não pensar. De não lembrar. De se agarrar a algo que estivesse ali, palpável, exigindo menos do que a verdade.
Quando abriu os olhos novamente, o quarto parecia menor, mais abafado. Silvia sorriu — um sorriso discreto, satisfeito — ao perceber que ele não se afastava.
Ela o puxou pela camisa até a cama empurrando-o sobre o colchão. Assim que ele caiu, ela se posicionou sobre ele sem dar-lhe tempo para pensar direito. Lambeu de seu peito até a ponta de seu queixo enquanto a mão descia para a braguilha da calça dele.
Cássio segurou o pulso dela com força, o olhar perdido entre a decisão de afastá-la ou se render. Em um movimento brusco jogou-a de costas na cama segurando seu braço sobre a cabeça.
Ela seria sua esposa afinal, poderia se aproveitar dos benefícios mesmo que não fosse aquilo que ele realmente queria.
Com um movimento rápido ele esfregou os pés se livrando dos sapatos, com a mão livre soltou seu cinto a abriu suas calças.
Seus movimentos eram rápidos. Sua força era quase excessiva sobre ela. Não havia pressa, havia urgência.
Em poucos instantes, ele a penetrou com ímpeto. O maxilar tensionado pelo estímulo.
Ela pegou a esponja e começou a esfregar a pele com movimentos lentos, quase com cuidado. O sabonete formava uma espuma discreta, o gesto ainda controlado, metódico. Era como se tentasse convencer a si mesma de que tudo estava normal. De que bastava lavar, enxaguar, seguir em frente.
Mas a sensação não cedia.
A mente trouxe de volta a lembranças de todos os homens que foi obrigada a seduzir. Em todas as vezes em que se deixou ser usada.
Esfregou uma segunda vez. Depois uma terceira. A pressão aumentou um pouco, quase imperceptível no início. A água continuava caindo, indiferente, enquanto algo dentro dela começava a apertar.
Desceu para o colo, para o ventre. O movimento já não era tão suave. A esponja arrastava a pele, insistente, como se houvesse algo ali que precisava sair.
Esfregou outra vez. Mais forte.
O ardor começou a surgir, primeiro leve, depois mais presente. A pele ficou rosada, sensível ao toque — e isso, ao invés de fazê-la parar, pareceu insuficiente. Ela trocou a esponja pela própria mão, as unhas pressionando junto, como se precisasse sentir.
— Não… — murmurou, quase sem som.
Os movimentos perderam o ritmo. Agora eram rápidos, repetidos, quase frenéticos. Subiu para o pescoço, esfregando sem cuidado, depois os ombros, os braços. A espuma já não importava.
A vermelhidão se espalhou. Vergões irregulares surgiam onde ela insistia mais. A sensação ardia, queimava — e ainda assim não bastava.
— Sai… — disse outra vez, a voz falha, abafada pelo barulho da água.
Esfregou até os músculos do braço começarem a doer, até o toque se tornar quase insuportável.
Quando finalmente largou a esponja, os dedos tremiam. Encostou a testa na parede fria do box, o corpo ainda sob o jato, respirando pesado. A água descia agora sobre uma pele machucada, ardente, que reagia a cada gota.
Por fora, estava limpa. Demais. Mas por dentro...
Ela saiu do banheiro, deixando no carpete do corredor o rastro silencioso de pés ainda molhados.
No quarto, Cássio já dormia, alheio à presença dela.

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