“O perigo muda de forma, nunca de intenção. Às vezes, a maior ameaça é acreditar que já acabou.”
Depois de tomarem o café, Santiago e Lívia acompanharam Helena até sua casa. A rua estava quase vazia, restando apenas uma viatura estacionada. Os policiais já saíam da casa quando os três se aproximaram.
— E então? — perguntou Santiago, tentando conter a própria ansiedade.
Um dos agentes respondeu enquanto ajustava a alça do colete:
— Os peritos foram embora há poucos minutos. Confirmaram que a mangueira foi cortada de propósito. Sobre suspeitos, vamos depender da análise do laudo.
Santiago apertou os lábios e assentiu, aceitando a falta de respostas imediatas.
Logo, Helena emendou, ansiosa:
— Já podemos entrar?
— Sim, o local está liberado, — respondeu o policial, antes de caminhar de volta para a viatura.
— Obrigada, — disse ela, vendo os agentes se afastarem.
Assim que abriu a porta, Helena sentiu outra coisa que não veio em palavras, mas em impacto: a casa que antes era aconchego agora parecia território invadido. O corpo dela enrijeceu por um segundo, um arrepio estreitando os ombros. O conforto daquela casa agora tinha um gosto híbrido entre o que sempre foi lar e o que se tornara cena de crime.
Santiago notou a reação e passou o braço pelos ombros dela, um gesto simples de apoio.
— Ainda hoje o Marcelo vem e instala câmeras aqui também, — garantiu ele.
Helena apenas assentiu e a tensão foi cedendo.
Minutos depois, Pedro chegou com uma mochila grande nas costas. Era um modelo pesado, desses usados para acampamento. Ele a retirou com cuidado e perguntou:
— E então? Onde eu posso deixar isso?
Antes que Helena pudesse se adiantar para acompanhá-lo até um dos quartos de hóspedes, o nome de Marcelo surgiu como ausência notada.
— E o Marcelo? — perguntou ela.
— O Marcelo foi à agência, mas já está voltando.
Apesar da noite caótica, a manhã seguiu tranquila dentro do possível. Santiago voltou ao trabalho porque a exposição da galeria estava perto demais para ser adiada. Livia também tinha seus clientes para atender e casos para montar. Marcelo e Pedro passaram horas reforçando a segurança da casa: instalaram câmeras, alarmes e uma proteção extra no muro dos fundos.
Ao meio-dia, Helena pediu almoço para todos na cantina indicada por Aurora, e depois passou o restante da tarde no único quarto que ainda estava vazio. Era ali que ela guardava seus quadros prontos — e agora também parecia ser o único lugar completamente livre de interrupções, ideal para tentar organizar a mente depois do que tinha vivido.
...
No Studio Cassiani, o dia seguia aparentemente normal, mas havia uma ausência estranha pairando na rotina. Já passava das dez da manhã e nem Cássio, nem Silvia tinham aparecido — algo raríssimo. Renato já havia ligado diversas vezes para o amigo, sem sucesso. O celular caía direto na caixa postal.
Apesar da lacuna, o trabalho não diminuiu o ritmo. Os protótipos da nova coleção avançavam a todo vapor, conduzidos pela equipe criativa com uma eficiência quase surpreendente. A coleção destoava completamente das anteriores, deslocada da identidade clássica da empresa. Ainda assim, Renato não podia negar — havia algo ali que funcionava. Quatro mãos no processo tornavam tudo mais rápido. Talvez até mais humano. E esse pensamento o levou, inevitavelmente, até Helena.
Ele tentou imaginar como tinha sido para ela, criando coleção atrás de coleção completamente sozinha. Ele chegou a desprezá-la — mas nunca por uma convicção própria. Sempre pela influência direta de Cássio, que moldava opiniões com a mesma força com que moldava negócios. Mas agora… admirar Helena já não era possibilidade. Era consequência lógica.
Quando finalmente decidiu que iria até a casa de Cássio entender o que estava acontecendo, o telefone sobre a mesa vibrou. O nome do amigo apareceu na tela e ele atendeu no impulso:
— Cara, onde é que você se meteu? — perguntou Renato, sem rodeios.
— Precisei viajar às pressas. Problema com fornecedores. — respondeu Cássio do outro lado.
Renato apertou os olhos, desconfortável. Ele conhecia cada vírgula do jeito do amigo. Cássio nunca desaparecia assim. Nunca viajava “do nada” sem antes pedir a ele que segurasse as pontas por ali. Mas daquela vez não houve aviso, não houve pedido, não houve nada. Só o desaparecimento.
— Do nada? — insistiu Renato, o tom carregando estranhamento.
— Pois é. Foi tudo em cima da hora. E se precisar de algo urgente, fale com a Silvia, — disse Cássio.
— Ela não tá com você? — perguntou Renato, informação que parecia óbvia… mas precisava ser dita.
— Não. Por quê?
— Porque ela também não veio.
O silêncio foi pesado e longo. Até que Cássio concluiu, impaciente:
— De qualquer forma, eu só volto em três dias. Você terá que se virar aí. Eu sei que vai dar conta.
— Três dias? Por que tanto tempo? — perguntou Renato.
— Ué, virou minha mãe agora? — provocou Cássio com um riso curto, irritado.
Renato mordeu a frase por dentro. Ele queria dizer que algo parecia errado com o amigo, que o estado emocional dele no dia anterior tinha sido… preocupante. Mas sabia: falar isso só acenderia o pavio errado. Então desistiu da tentativa de dissecar a verdade naquele momento.
Tomou um comprimido para dor, os dois calmantes, e encheu um copo com o uísque que estava no minibar do quarto. Engoliu de uma vez só. Então se deixou cair na cama, implorando silenciosamente para que os remédios e a exaustão fizessem efeito rápido, para que a escuridão lhe oferecesse um intervalo.
Ele só precisava de um momento de silêncio que não fosse cheio de perguntas.
...
Quando Cássio despertou, a luz já dominava o quarto com uma intensidade agressiva. A claridade queimou seus olhos antes da consciência se ajustar, e ele precisou apertar as pálpebras por um segundo, como se aquilo pudesse amortecer o mundo.
O corpo, no entanto, não ofereceu o mesmo alívio. Doía mais do que no dia anterior — uma dor funda, corporal, quase punitiva. Esticar o braço até o criado-mudo para alcançar o celular era um esforço absurdo. Ele desistiu no meio do gesto e deixou o braço cair de volta, sem força para negociar com a própria anatomia.
Virou-se de costas no colchão, puxando o aparelho agora contra o peito, tentando apenas respirar até que a onda de dor desse sinais de recuo. O ar difícil demais para respirar.
Quando finalmente conseguiu olhar a tela, notou o horário: mais de dez da manhã. Dezenas de notificações. Ligações perdidas. Quase todas de Renato.
A insistência do nome na tela trouxe primeiro um tropeço mental, depois um golpe de pavor. Cássio imaginou que todo o esforço da noite anterior tinha sido inútil, que o álibi havia sido desmontado. Criou o cenário completo sozinho: as provas recuperadas, a polícia na porta, a mídia repetindo seu rosto em rede nacional, “procurado” em letras frias e implacáveis. O medo veio devastador, físico, como um segundo hematoma se expandindo por dentro.
Até porque, como alguém poderia fazer um homem desaparecer da cena e apagar todas as provas? — A pergunta nasceu depois do pânico, pesada de incredulidade. — Como um homem poderia ter tanto poder?
Confiar naquilo — no desconhecido — era desesperador.
Retornou a ligação para Renato com os dedos ainda trêmulos, temendo que a instabilidade emocional escapasse na voz. Mas não queria ser impulsivo. Precisava entender antes de reagir. Do outro lado, a primeira pergunta do amigo era um soco de preocupação mal disfarçado: “Cara, onde é que você se meteu?”
Cássio controlou o tom, forçando a voz a soar estável. Disse apenas que precisou viajar a trabalho.
O coração dele finalmente deu um passo atrás quando Renato não mencionou nada sobre sequestro, polícia ou mídia. A conversa avançava simples, cotidiana, quase normal. Quase. Até que o nome de Silvia emergiu como ruído narrativo inevitável no diálogo.
Ela também não havia aparecido na empresa. Foi então que a memória retornou com um impacto pequeno e persistente: ela não estava em casa na noite anterior também, quando ele chegou em casa já tarde da noite.
Ele rolou as chamadas de novo. Nada. Nenhuma ligação dela. O coração dele retomou um ritmo incerto, mas a pergunta agora era interna e diferente: Será que aconteceu alguma coisa com o bebê?
Não. Ela teria avisado.
E então outra pergunta nasceu, como se elas não tivessem mais fim. Só que está veio mais sombria, quase claustrofóbica: “Como Dante entrou na minha casa?”
Ele possuía um dos melhores sistemas de segurança, e não havia nenhum sinal de arrombamento.
Era a dúvida que finalmente o fazia perceber que o perigo talvez não tivesse ido embora com a noite. Ele só havia mudado de forma.

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