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Quadros de um divórcio romance Capítulo 99

“O perigo muda de forma, nunca de intenção. Às vezes, a maior ameaça é acreditar que já acabou.”

Depois de tomarem o café, Santiago e Lívia acompanharam Helena até sua casa. A rua estava quase vazia, restando apenas uma viatura estacionada. Os policiais já saíam da casa quando os três se aproximaram.

— E então? — perguntou Santiago, tentando conter a própria ansiedade.

Um dos agentes respondeu enquanto ajustava a alça do colete:

— Os peritos foram embora há poucos minutos. Confirmaram que a mangueira foi cortada de propósito. Sobre suspeitos, vamos depender da análise do laudo.

Santiago apertou os lábios e assentiu, aceitando a falta de respostas imediatas.

Logo, Helena emendou, ansiosa:

— Já podemos entrar?

— Sim, o local está liberado, — respondeu o policial, antes de caminhar de volta para a viatura.

— Obrigada, — disse ela, vendo os agentes se afastarem.

Assim que abriu a porta, Helena sentiu outra coisa que não veio em palavras, mas em impacto: a casa que antes era aconchego agora parecia território invadido. O corpo dela enrijeceu por um segundo, um arrepio estreitando os ombros. O conforto daquela casa agora tinha um gosto híbrido entre o que sempre foi lar e o que se tornara cena de crime.

Santiago notou a reação e passou o braço pelos ombros dela, um gesto simples de apoio.

— Ainda hoje o Marcelo vem e instala câmeras aqui também, — garantiu ele.

Helena apenas assentiu e a tensão foi cedendo.

Minutos depois, Pedro chegou com uma mochila grande nas costas. Era um modelo pesado, desses usados para acampamento. Ele a retirou com cuidado e perguntou:

— E então? Onde eu posso deixar isso?

Antes que Helena pudesse se adiantar para acompanhá-lo até um dos quartos de hóspedes, o nome de Marcelo surgiu como ausência notada.

— E o Marcelo? — perguntou ela.

— O Marcelo foi à agência, mas já está voltando.

Apesar da noite caótica, a manhã seguiu tranquila dentro do possível. Santiago voltou ao trabalho porque a exposição da galeria estava perto demais para ser adiada. Livia também tinha seus clientes para atender e casos para montar. Marcelo e Pedro passaram horas reforçando a segurança da casa: instalaram câmeras, alarmes e uma proteção extra no muro dos fundos.

Ao meio-dia, Helena pediu almoço para todos na cantina indicada por Aurora, e depois passou o restante da tarde no único quarto que ainda estava vazio. Era ali que ela guardava seus quadros prontos — e agora também parecia ser o único lugar completamente livre de interrupções, ideal para tentar organizar a mente depois do que tinha vivido.

...

No Studio Cassiani, o dia seguia aparentemente normal, mas havia uma ausência estranha pairando na rotina. Já passava das dez da manhã e nem Cássio, nem Silvia tinham aparecido — algo raríssimo. Renato já havia ligado diversas vezes para o amigo, sem sucesso. O celular caía direto na caixa postal.

Apesar da lacuna, o trabalho não diminuiu o ritmo. Os protótipos da nova coleção avançavam a todo vapor, conduzidos pela equipe criativa com uma eficiência quase surpreendente. A coleção destoava completamente das anteriores, deslocada da identidade clássica da empresa. Ainda assim, Renato não podia negar — havia algo ali que funcionava. Quatro mãos no processo tornavam tudo mais rápido. Talvez até mais humano. E esse pensamento o levou, inevitavelmente, até Helena.

Ele tentou imaginar como tinha sido para ela, criando coleção atrás de coleção completamente sozinha. Ele chegou a desprezá-la — mas nunca por uma convicção própria. Sempre pela influência direta de Cássio, que moldava opiniões com a mesma força com que moldava negócios. Mas agora… admirar Helena já não era possibilidade. Era consequência lógica.

Quando finalmente decidiu que iria até a casa de Cássio entender o que estava acontecendo, o telefone sobre a mesa vibrou. O nome do amigo apareceu na tela e ele atendeu no impulso:

— Cara, onde é que você se meteu? — perguntou Renato, sem rodeios.

— Precisei viajar às pressas. Problema com fornecedores. — respondeu Cássio do outro lado.

Renato apertou os olhos, desconfortável. Ele conhecia cada vírgula do jeito do amigo. Cássio nunca desaparecia assim. Nunca viajava “do nada” sem antes pedir a ele que segurasse as pontas por ali. Mas daquela vez não houve aviso, não houve pedido, não houve nada. Só o desaparecimento.

— Do nada? — insistiu Renato, o tom carregando estranhamento.

— Pois é. Foi tudo em cima da hora. E se precisar de algo urgente, fale com a Silvia, — disse Cássio.

— Ela não tá com você? — perguntou Renato, informação que parecia óbvia… mas precisava ser dita.

— Não. Por quê?

— Porque ela também não veio.

O silêncio foi pesado e longo. Até que Cássio concluiu, impaciente:

— De qualquer forma, eu só volto em três dias. Você terá que se virar aí. Eu sei que vai dar conta.

— Três dias? Por que tanto tempo? — perguntou Renato.

— Ué, virou minha mãe agora? — provocou Cássio com um riso curto, irritado.

Renato mordeu a frase por dentro. Ele queria dizer que algo parecia errado com o amigo, que o estado emocional dele no dia anterior tinha sido… preocupante. Mas sabia: falar isso só acenderia o pavio errado. Então desistiu da tentativa de dissecar a verdade naquele momento.

Capítulo 99 - Curva em sépia 1

Capítulo 99 - Curva em sépia 2

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