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Quadros de um divórcio romance Capítulo 161

Santiago permaneceu abraçado a Helena por mais alguns instantes na rede, até que a voz de Olivia ecoou da varanda acima deles:

— Venham comer, crianças, antes que esfrie.

Ele passou a perna por cima da rede para se levantar e estendeu a mão para ela.

— Vamos, antes que a vovó venha nos buscar pessoalmente.

Helena segurou a mão que ele lhe oferecia e deixou-se ajudar a levantar. Subiram juntos até a varanda e, ao chegarem, foram recebidos por uma mesa que parecia respirar calor e cuidado.

As travessas de barro e as panelas de ferro ainda fumegavam, espalhando pelo ar aromas que se misturavam e se reconheciam: o feijão-tropeiro recém-preparado, marcado pelo alho dourado e pela farinha crocante; o frango com quiabo brilhando no caldo espesso, cozido sem pressa; o angu cremoso, servido quente, convidando à primeira colherada. Havia também arroz soltinho, couve refogada bem fininha, ainda verde-viva, e torresmo estalando, dourado e irresistível, disposto numa gamela de madeira.

No centro da mesa, uma panela de ferro guardava a carne de panela que se desfazia ao toque do garfo, acompanhada de legumes macios, completamente impregnados de tempero. Ao lado, a linguiça caseira cortada em rodelas grossas brilhava no próprio suco, enquanto um cesto de pães de milho e broas recém-saídas do forno repousava envolto em pano, preservando o calor.

Queijos da região — meia-cura, fresco — completavam o cenário, acompanhados por potes de doce de leite cremoso, goiabada cascão e compotas caseiras, à espera da sobremesa. Jarras de vidro com suco de laranja, limonada com hortelã e vinho iam sendo servidas sem pressa, como tudo ali.

Entre os pratos, pequenos vasos com flores do campo — margaridas, ramos de alecrim, manjericão — traziam cor e perfume. Talheres simples, copos grossos e guardanapos de tecido reforçavam a sensação de algo feito para acolher.

Era uma mesa farta, mas, acima de tudo, uma mesa viva. Daquelas que não servem apenas comida, mas celebram histórias, promessas e o início de uma vida compartilhada. Um almoço de noivado em que o amor não precisava ser anunciado em voz alta — ele estava ali, temperando tudo.

Santiago puxou a cadeira para que Helena se sentasse.

— Eu encontrei o último cavalheiro — provocou ela, apaixonada, arrancando suspiros divertidos da amiga ao lado.

Entre risos, conversas cruzadas e o tilintar de talheres, todos começaram a se servir.

Antes que começassem a comer, Marcelo bateu de leve o talher na taça de vinho, pedindo atenção. As conversas foram cessando aos poucos, até que todos os olhares se voltaram para ele.

— Um brinde ao casal mais bonito dos últimos tempos — disse, erguendo a taça. Fez uma breve pausa, olhando para Helena e Santiago com um sorriso sincero. — Que a vida que vocês irão compartilhar seja repleta de felicidade e paz. Que esse amor persevere diante de qualquer obstáculo, crescendo, amadurecendo e contagiando todos ao redor, hoje e sempre.

As taças se ergueram quase ao mesmo tempo, acompanhadas por sorrisos, suspiros emocionados e um coro suave de votos silenciosos.

Helena sentiu a mão de Santiago apertar a sua sobre a mesa. Inclinou-se, pronta para beijá-lo, mas antes que pudesse fazê-lo, Lívia puxou-lhe o braço.

— Ei, me passa seu celular.

Helena franziu a testa, confusa.

— Pra quê?

— Como assim, pra quê? — respondeu Lívia, já impaciente. — Eu sei que você não vai responder ninguém. A partir de agora, além de sua advogada, serei sua assessora. Anda, me dá isso aqui.

— Não sei se é uma boa ideia — hesitou Helena. — Não quero chamar tanta atenção assim. Pode ser perigoso.

Do outro lado da mesa, Marcelo foi quem tomou a palavra:

— Perigoso tudo é… mas a verdade é que agora você já é uma designer reconhecida — disse, com serenidade. — E, além disso, deu o pontapé na sua carreira de pintora naquela exposição.

— Sem contar a quantidade de mulheres que você motivou, minha menina — acrescentou Consuelo, com orgulho contido.

Marcelo assentiu e completou:

— Vocês dois já estão nos holofotes.

— Só precisam ter cuidado com o que mostram — ponderou Pedro. — Nada de rotina. Postem eventos e momentos que já tenham passado, sem revelar localização em tempo real. Isso é essencial.

— Isso! — exclamou Lívia. — Vou seguir essas instruções à risca.

Helena respirou fundo antes de entregar o celular à amiga ainda com receio em seu gesto.

...

Na cidade, Cássio acordou sobressaltado. Esfregou os olhos ainda pesados, com a sensação incômoda de ter dormido além da conta. O quarto estava silencioso demais. Olhou em volta e percebeu que estava sozinho.

Pegou o celular e franziu o cenho ao ver o horário. Já passava do meio-dia.

O nariz finalmente já não doía tanto, mesmo sem a ajuda de analgésicos, mas havia ainda um desconforto residual.

Vestiu o roupão e desceu as escadas à procura de Silvia. Não a encontrou.

Sentou-se numa das banquetas altas, junto à bancada de pedra, já levando o celular à mão para ligar para ela, quando a porta da frente se abriu. Silvia entrou carregando sacolas de papel.

— Onde você estava? — perguntou ele, desconfiado, observando-a com atenção em roupas que ela não costumava usar para sair.

— Tive uma dorzinha hoje de manhã e fui até a clínica ver se estava tudo bem com o bebê — respondeu ela, forçando a voz a soar cansada. Não foi difícil.

— Por que não me chamou? — questionou Cássio, erguendo-se um pouco. — Eu teria ido com você.

— Você estava dormindo tão profundamente que não quis te preocupar — disse ela, com naturalidade ensaiada. — O médico me orientou a fazer repouso.

— Foi por causa do que fizemos ontem? — perguntou ele, e a culpa ameaçou emergir quando a lembrança da forma bruta com que a possuíra lhe atravessou a mente.

— Eu não sei — respondeu Silvia, dando de ombros. — De qualquer forma, é melhor pegarmos mais leve.

Cássio assentiu, sério.

— Da próxima vez, me acorde.

“Será que ele está realmente preocupado comigo?” — Silvia se perguntou, observando-o em silêncio.

Não. Aquilo devia ser apenas por causa do bebê.

— Aproveitei e trouxe nosso almoço — acrescentou, erguendo levemente as sacolas. — Filé mignon com purê trufado. Seu preferido.

Tentou sorrir.

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