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Quadros de um divórcio romance Capítulo 157

“Há sombras que só precisam de uma fresta para entrar.”

Santiago conduziu Helena por uma pequena trilha de terra até um trecho da fazenda que ela ainda não conhecia. O caminho serpenteava entre árvores altas e áreas abertas, e o vento frio da noite batia suave contra o corpo dela, misturado ao cheiro de mato úmido. Após alguns minutos, ele reduziu a velocidade e apontou à frente.

Ali, no alto de outro mirante, surgia um sobrado em formato de A, todo construído em madeira e vidro, integrado ao verde ao redor como se tivesse nascido dali. As luzes externas realçavam as linhas simples da arquitetura, refletindo nas superfícies envidraçadas e criando uma atmosfera acolhedora e silenciosa.

Helena tirou o capacete devagar, ainda absorvendo a cena, e aceitou a mão que Santiago estendia para ajudá-la a descer.

— Amor… que lugar mais lindo — exclamou, com a voz baixa, quase reverente.

Ele sorriu satisfeito, passando o braço pela cintura dela.

— Imaginei que você ia gostar — disse, orgulhoso. — É aqui que eu costumo ficar quando venho visitar a vovó. Vem, deixa eu te mostrar por dentro.

Santiago abriu a porta e acendeu as luzes. O interior revelou um espaço amplo e acolhedor. O pé-direito alto exibia vigas aparentes de madeira mel, que se encontravam no topo como costelas bem desenhadas, criando uma sensação de abrigo e amplitude ao mesmo tempo.

As luminárias pendentes adicionavam um brilho intimista sobre tudo.

No centro do espaço, uma escada de madeira com corrimãos metálicos pretos conduzia ao mezanino, leve e funcional, quase flutuando no ar. O andar superior funcionava como um quarto mais reservado, visível, mas discretamente separado do restante da casa, reforçando a ideia de intimidade sem isolamento.

A sala era dominada por um sofá claro e profundo, disposto de forma convidativa, como um convite silencioso ao descanso. Tapetes felpudos aqueciam o piso e abafavam os sons, criando uma atmosfera de conforto quase tátil. À frente, uma lareira embutida na parede de tom neutro prometia noites lentas, de calor constante e conversas baixas.

Integrada ao ambiente, a cozinha surgia ao fundo com elegância discreta. Bancadas escuras contrastavam com a madeira predominante, e banquetas altas, estofadas em tons terrosos, alinhavam-se como espectadores atentos ao cotidiano. Eletrodomésticos modernos dividiam espaço com plantas pendentes e pequenos detalhes decorativos, equilibrando rusticidade e contemporaneidade com naturalidade.

Nada ali parecia excessivo. Tudo tinha propósito. O chalé respirava calma — um lugar onde o tempo desacelerava assim que se cruzava a porta, convidando quem entrasse a ficar, a respirar mais fundo e a existir com menos pressa.

Helena caminhou alguns passos para dentro, girando lentamente, como se tivesse medo de quebrar o encanto.

— É… perfeito — disse por fim, emocionada. — Tem a sua cara. Simples, forte… e ao mesmo tempo cheio de paz.

Santiago a observava em silêncio, com aquele sorriso tranquilo de quem sabia exatamente onde queria estar — e com quem.

Santiago a conduziu até o deque dos fundos. A jacuzzi ocupava um canto discreto, cercada por madeira e pela sombra das árvores. Àquela hora da noite, a vista se escondia na escuridão, mas o ambiente estava longe de ser silencioso: o cricrilar dos grilos, o sussurro de insetos noturnos e o vento leve compunham uma trilha natural, quase hipnótica.

Ele se apoiou no parapeito ao lado dela.

— E então… o que achou?

Helena o envolveu em um abraço, encostando o corpo ao dele, ambos apoiados na madeira fria.

— É incrível — respondeu, sincera. — Obrigada por hoje, meu noivo.

Ela sorriu ao dizer a palavra, erguendo a mão para observar a aliança recém-colocada, como se ainda estivesse se acostumando àquela realidade.

Santiago segurou a mão dela, entrelaçando os dedos.

— Tudo por você — disse, com a voz firme e tranquila. — Vamos ter um filho e eu não quero que você tenha nenhuma dúvida do que eu sinto.

Ela o olhou com carinho, uma emoção suave brilhando nos olhos.

— Por que não me contou antes?

— Se tivesse contado, não teria sido surpresa — respondeu ele, brincalhão, mexendo com uma mecha do cabelo dela e deixando os dedos demorarem ali. — Que tal um banho? Está frio para ficarmos aqui fora agora… mas tem uma banheira lá dentro também.

Helena sorriu, encostando ao peito dele por um instante.

— Um chuveiro, por hoje, está perfeito.

Ele assentiu, beijando-lhe o topo da cabeça, e juntos voltaram para dentro do sobrado, deixando o som da noite do lado de fora.

...

Silvia passou a manhã de sábado supervisionando a remontagem do quarto do bebê no de hóspedes. Dava ordens, corrigia detalhes, mudava móveis de lugar — mas a mente estava focada em desvendar o motivo do ataque de pânico de Cássio.

Ele a avisara que recebera alta e seguira direto para a empresa. Depois de almoçar uma salada com salmão pedida por delivery, ela se permitiu esticar as pernas no sofá, observando a casa luxuosa que, oficialmente, passava a ser também dela.

A campainha soou.

Silvia bufou, ponderando se valia a pena atender. Quando o toque se repetiu — mais longo, mais impaciente —, ela cedeu. Caminhou até a porta já irritada.

O sorriso delicado da tela desapareceu, substituído pelo reflexo do próprio rosto de Silvia no vidro do celular. O olhar endureceu. Frio. Calculado.

Viviane fez um muxoxo, cruzando os braços com um meio sorriso enviesado.

— Não sei o que o Santiago vê naquela mulherzinha. Um homem bonito, interessante… pena que tem um gosto tão duvidoso. Eu, sim, seria muito melhor para ele — disse, com um brilho estranho nos olhos.

Silvia inclinou levemente a cabeça, observando-a como quem avalia uma peça rara.

— Você tem interesse nele, é? — perguntou, em tom casual, enquanto a mente já se adiantava vários passos.

Viviane não se deu ao trabalho de negar.

— E quem não teria? Ele é lindo, bem-sucedido… e ainda por cima parece apaixonado. — Fez um bico contrariado. — Uma pena desperdiçar tudo isso.

Silvia sorriu de canto. Se não podia atingir Helena de frente, talvez arrancar algo que lhe fosse precioso também fosse eficaz.

— Quem sabe ele não acaba caindo em si? — disse, com falsa leveza. — Você é mesmo mil vezes melhor do que ela. Mais bonita, mais adequada… mais à altura dele.

Viviane endireitou a postura, inflada pelo elogio.

— Você acha mesmo?

— Tenho certeza. — Silvia se aproximou um pouco mais, baixando a voz como quem compartilha um segredo. — E, se quiser, eu posso te ajudar.

Os olhos de Viviane brilharam de excitação.

— Sério? — perguntou, quase saltando do sofá. — Mas… como?

Silvia cruzou as pernas com calma e sorriu com segurança — aquele sorriso que nunca anunciava nada de bom.

— Deixa isso comigo — disse, firme. — Só confia em mim.

Viviane assentiu, empolgada demais para perceber que acabara de se tornar mais uma peça em um jogo que Silvia jogava muito bem.

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