“Há sombras que só precisam de uma fresta para entrar.”
Santiago conduziu Helena por uma pequena trilha de terra até um trecho da fazenda que ela ainda não conhecia. O caminho serpenteava entre árvores altas e áreas abertas, e o vento frio da noite batia suave contra o corpo dela, misturado ao cheiro de mato úmido. Após alguns minutos, ele reduziu a velocidade e apontou à frente.
Ali, no alto de outro mirante, surgia um sobrado em formato de A, todo construído em madeira e vidro, integrado ao verde ao redor como se tivesse nascido dali. As luzes externas realçavam as linhas simples da arquitetura, refletindo nas superfícies envidraçadas e criando uma atmosfera acolhedora e silenciosa.
Helena tirou o capacete devagar, ainda absorvendo a cena, e aceitou a mão que Santiago estendia para ajudá-la a descer.
— Amor… que lugar mais lindo — exclamou, com a voz baixa, quase reverente.
Ele sorriu satisfeito, passando o braço pela cintura dela.
— Imaginei que você ia gostar — disse, orgulhoso. — É aqui que eu costumo ficar quando venho visitar a vovó. Vem, deixa eu te mostrar por dentro.
Santiago abriu a porta e acendeu as luzes. O interior revelou um espaço amplo e acolhedor. O pé-direito alto exibia vigas aparentes de madeira mel, que se encontravam no topo como costelas bem desenhadas, criando uma sensação de abrigo e amplitude ao mesmo tempo.
As luminárias pendentes adicionavam um brilho intimista sobre tudo.
No centro do espaço, uma escada de madeira com corrimãos metálicos pretos conduzia ao mezanino, leve e funcional, quase flutuando no ar. O andar superior funcionava como um quarto mais reservado, visível, mas discretamente separado do restante da casa, reforçando a ideia de intimidade sem isolamento.
A sala era dominada por um sofá claro e profundo, disposto de forma convidativa, como um convite silencioso ao descanso. Tapetes felpudos aqueciam o piso e abafavam os sons, criando uma atmosfera de conforto quase tátil. À frente, uma lareira embutida na parede de tom neutro prometia noites lentas, de calor constante e conversas baixas.
Integrada ao ambiente, a cozinha surgia ao fundo com elegância discreta. Bancadas escuras contrastavam com a madeira predominante, e banquetas altas, estofadas em tons terrosos, alinhavam-se como espectadores atentos ao cotidiano. Eletrodomésticos modernos dividiam espaço com plantas pendentes e pequenos detalhes decorativos, equilibrando rusticidade e contemporaneidade com naturalidade.
Nada ali parecia excessivo. Tudo tinha propósito. O chalé respirava calma — um lugar onde o tempo desacelerava assim que se cruzava a porta, convidando quem entrasse a ficar, a respirar mais fundo e a existir com menos pressa.
Helena caminhou alguns passos para dentro, girando lentamente, como se tivesse medo de quebrar o encanto.
— É… perfeito — disse por fim, emocionada. — Tem a sua cara. Simples, forte… e ao mesmo tempo cheio de paz.
Santiago a observava em silêncio, com aquele sorriso tranquilo de quem sabia exatamente onde queria estar — e com quem.
Santiago a conduziu até o deque dos fundos. A jacuzzi ocupava um canto discreto, cercada por madeira e pela sombra das árvores. Àquela hora da noite, a vista se escondia na escuridão, mas o ambiente estava longe de ser silencioso: o cricrilar dos grilos, o sussurro de insetos noturnos e o vento leve compunham uma trilha natural, quase hipnótica.
Ele se apoiou no parapeito ao lado dela.
— E então… o que achou?
Helena o envolveu em um abraço, encostando o corpo ao dele, ambos apoiados na madeira fria.
— É incrível — respondeu, sincera. — Obrigada por hoje, meu noivo.
Ela sorriu ao dizer a palavra, erguendo a mão para observar a aliança recém-colocada, como se ainda estivesse se acostumando àquela realidade.
Santiago segurou a mão dela, entrelaçando os dedos.
— Tudo por você — disse, com a voz firme e tranquila. — Vamos ter um filho e eu não quero que você tenha nenhuma dúvida do que eu sinto.
Ela o olhou com carinho, uma emoção suave brilhando nos olhos.
— Por que não me contou antes?
— Se tivesse contado, não teria sido surpresa — respondeu ele, brincalhão, mexendo com uma mecha do cabelo dela e deixando os dedos demorarem ali. — Que tal um banho? Está frio para ficarmos aqui fora agora… mas tem uma banheira lá dentro também.
Helena sorriu, encostando ao peito dele por um instante.
— Um chuveiro, por hoje, está perfeito.
Ele assentiu, beijando-lhe o topo da cabeça, e juntos voltaram para dentro do sobrado, deixando o som da noite do lado de fora.
...
Silvia passou a manhã de sábado supervisionando a remontagem do quarto do bebê no de hóspedes. Dava ordens, corrigia detalhes, mudava móveis de lugar — mas a mente estava focada em desvendar o motivo do ataque de pânico de Cássio.
Ele a avisara que recebera alta e seguira direto para a empresa. Depois de almoçar uma salada com salmão pedida por delivery, ela se permitiu esticar as pernas no sofá, observando a casa luxuosa que, oficialmente, passava a ser também dela.
A campainha soou.
Silvia bufou, ponderando se valia a pena atender. Quando o toque se repetiu — mais longo, mais impaciente —, ela cedeu. Caminhou até a porta já irritada.

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