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Quadros de um divórcio romance Capítulo 159

“Quando o amor é casa, o mundo desacelera.”

Helena despertou lentamente, com a luz da manhã filtrando-se pela vidraça e pousando sobre sua pele com um toque morno. Do lado de fora, o canto dos pássaros se entrelaçava ao silêncio do chalé, criando uma melodia preguiçosa. Ao abrir os olhos, percebeu-se sozinha na cama baixa do mezanino, envolta por uma calma rara.

O banho de banheira que Santiago insistira em preparar na noite anterior — e tudo o que haviam compartilhado dentro dele — permanecia em seu corpo como um eco tranquilo.

Ela se ergueu devagar e deixou o olhar repousar sobre a banheira ainda cheia, posicionada próxima à vidraça. O ar ainda carregava consigo o aroma delicado dos sais de banho.

Vestiu uma camiseta de Santiago e desceu os degraus estreitos de madeira quase sem fazer ruído, guiada pelos sons suaves vindos da cozinha logo abaixo. Ao encontrá-lo, apenas de bermuda de frente para a bancada, aproximou-se em silêncio e o envolveu por trás.

— Te achei — murmurou, num sorriso que ele não via, mas sentia. — O que você está fazendo?

— Estou apenas preparando um café preto — disse ele, virando-se para ela e envolvendo-a em um abraço. — Estão todos nos esperando para o café na sede. Dormiu bem?

— Melhor do que nunca.

Helena se ergueu na ponta dos pés e roçou os lábios nos dele num beijo breve, macio, ainda impregnado de manhã. Santiago a observou por um instante antes de tocar-lhe o rosto, deslizando os dedos com cuidado pela pele descansada. O verde dos olhos dela parecia se fundir ao das árvores que preenchiam as grandes vidraças do chalé, como se a paisagem tivesse aprendido aquele tom com ela.

Os cabelos dela estavam com cachos desalinhados e volumosos dando a ela um ar selvagem tentador.

Ele a puxou mais para si e enterrou o rosto em seu pescoço, respirando fundo o cheiro de sua pele.

— Eu poderia ficar assim para sempre — disse ele, a voz baixa, quase preguiçosa.

A resposta veio antes dela: o ronco suave de sua barriga quebrou o silêncio confortável entre os dois.

— Mas parece que vou ter que te alimentar primeiro — completou Santiago, com um sorriso que já nascia em riso.

Riram juntos, daquele jeito simples e íntimo de quem divide manhãs sem pressa.

Pouco depois, Helena vestiu um longo vestido de algodão, de alças finas. O tecido leve deslizava sobre o corpo com naturalidade, perfeito para o calor suave do dia que começava.

Santiago a aguardava sentado nos degraus, vestindo um short de sarja azul, camiseta branca e chinelos, com a tranquilidade de quem pertence àquele lugar.

A sede da fazenda já estava desperta quando chegaram. A mesa comprida ocupava o centro da varanda, coberta por uma toalha clara. Sobre ela se espalhavam xícaras de porcelana, pães ainda mornos, roscas, bolos, frutas cortadas e pequenos potes de geleia que refletiam a luz da manhã. O aroma de café recém-passado se misturava ao da madeira antiga e ao ar fresco que circulava livremente.

Consuelo foi a primeira a se aproximar, envolvendo os noivos num abraço apertado. Helena percorreu o ambiente com o olhar, acenando para os demais que já comiam, todos sorridentes. As vozes se sobrepunham em risos baixos, conversas entrecortadas, comentários soltos — uma harmonia espontânea que só existe quando ninguém tem pressa. Helena se deixou conduzir por aquele movimento com um sorriso tranquilo, sentindo-se parte de algo simples e inteiro.

Estavam todos ali, exceto Lívia e Pedro.

— Onde será que estão aqueles dois? — perguntou ela em tom baixo, enquanto Santiago puxava uma cadeira para ela e se sentava ao seu lado.

Ele também olhou em volta, notando a ausência do segurança e da advogada.

— Talvez no celeiro? — respondeu, zombeteiro, arrancando dela uma gargalhada contida.

Santiago lhe serviu um copo de suco, que Helena aceitou de bom grado, junto com uma generosa fatia de rosca caseira.

— Dormiram bem? — perguntou Olivia, avó de Santiago.

— Muito — respondeu Helena, levando o copo aos lábios. — Acho que fazia tempo que eu não dormia tão bem assim.

— Então a fazenda está cumprindo seu papel — comentou Olavo, o tio de Santiago, responsável por cuidar das terras da família. — Aqui a gente dorme melhor… e come melhor ainda.

— Preciso concordar com você — disse Rogério, pai de Helena. — Viajamos muito nos últimos anos, e nada como um lugar afastado de tudo para encontrar um pouco de calma.

— Vocês estão morando fora agora, não é? — perguntou Maitê, mãe de Santiago.

— Sim, mas… — começou Consuelo, lançando à filha um olhar carregado de expectativa, como quem guarda uma revelação. — Já estamos acertando tudo para voltarmos de vez.

Helena arqueou as sobrancelhas, num misto de espanto, curiosidade e alegria.

— Sério? Vocês vão mesmo voltar?

— Sim — confirmou Consuelo, pousando a mão sobre a de Aurora, sentada ao seu lado. — A Aurora conseguiu uma casa antiga perto de vocês. Não fica no mesmo bairro, mas ainda é perto o bastante para irmos caminhando pelo parque até a sua casa.

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