“Quando o amor é casa, o mundo desacelera.”
Helena despertou lentamente, com a luz da manhã filtrando-se pela vidraça e pousando sobre sua pele com um toque morno. Do lado de fora, o canto dos pássaros se entrelaçava ao silêncio do chalé, criando uma melodia preguiçosa. Ao abrir os olhos, percebeu-se sozinha na cama baixa do mezanino, envolta por uma calma rara.
O banho de banheira que Santiago insistira em preparar na noite anterior — e tudo o que haviam compartilhado dentro dele — permanecia em seu corpo como um eco tranquilo.
Ela se ergueu devagar e deixou o olhar repousar sobre a banheira ainda cheia, posicionada próxima à vidraça. O ar ainda carregava consigo o aroma delicado dos sais de banho.
Vestiu uma camiseta de Santiago e desceu os degraus estreitos de madeira quase sem fazer ruído, guiada pelos sons suaves vindos da cozinha logo abaixo. Ao encontrá-lo, apenas de bermuda de frente para a bancada, aproximou-se em silêncio e o envolveu por trás.
— Te achei — murmurou, num sorriso que ele não via, mas sentia. — O que você está fazendo?
— Estou apenas preparando um café preto — disse ele, virando-se para ela e envolvendo-a em um abraço. — Estão todos nos esperando para o café na sede. Dormiu bem?
— Melhor do que nunca.
Helena se ergueu na ponta dos pés e roçou os lábios nos dele num beijo breve, macio, ainda impregnado de manhã. Santiago a observou por um instante antes de tocar-lhe o rosto, deslizando os dedos com cuidado pela pele descansada. O verde dos olhos dela parecia se fundir ao das árvores que preenchiam as grandes vidraças do chalé, como se a paisagem tivesse aprendido aquele tom com ela.
Os cabelos dela estavam com cachos desalinhados e volumosos dando a ela um ar selvagem tentador.
Ele a puxou mais para si e enterrou o rosto em seu pescoço, respirando fundo o cheiro de sua pele.
— Eu poderia ficar assim para sempre — disse ele, a voz baixa, quase preguiçosa.
A resposta veio antes dela: o ronco suave de sua barriga quebrou o silêncio confortável entre os dois.
— Mas parece que vou ter que te alimentar primeiro — completou Santiago, com um sorriso que já nascia em riso.
Riram juntos, daquele jeito simples e íntimo de quem divide manhãs sem pressa.
Pouco depois, Helena vestiu um longo vestido de algodão, de alças finas. O tecido leve deslizava sobre o corpo com naturalidade, perfeito para o calor suave do dia que começava.
Santiago a aguardava sentado nos degraus, vestindo um short de sarja azul, camiseta branca e chinelos, com a tranquilidade de quem pertence àquele lugar.
A sede da fazenda já estava desperta quando chegaram. A mesa comprida ocupava o centro da varanda, coberta por uma toalha clara. Sobre ela se espalhavam xícaras de porcelana, pães ainda mornos, roscas, bolos, frutas cortadas e pequenos potes de geleia que refletiam a luz da manhã. O aroma de café recém-passado se misturava ao da madeira antiga e ao ar fresco que circulava livremente.
Consuelo foi a primeira a se aproximar, envolvendo os noivos num abraço apertado. Helena percorreu o ambiente com o olhar, acenando para os demais que já comiam, todos sorridentes. As vozes se sobrepunham em risos baixos, conversas entrecortadas, comentários soltos — uma harmonia espontânea que só existe quando ninguém tem pressa. Helena se deixou conduzir por aquele movimento com um sorriso tranquilo, sentindo-se parte de algo simples e inteiro.
Estavam todos ali, exceto Lívia e Pedro.
— Onde será que estão aqueles dois? — perguntou ela em tom baixo, enquanto Santiago puxava uma cadeira para ela e se sentava ao seu lado.
Ele também olhou em volta, notando a ausência do segurança e da advogada.
— Talvez no celeiro? — respondeu, zombeteiro, arrancando dela uma gargalhada contida.
Santiago lhe serviu um copo de suco, que Helena aceitou de bom grado, junto com uma generosa fatia de rosca caseira.
— Dormiram bem? — perguntou Olivia, avó de Santiago.
— Muito — respondeu Helena, levando o copo aos lábios. — Acho que fazia tempo que eu não dormia tão bem assim.
— Então a fazenda está cumprindo seu papel — comentou Olavo, o tio de Santiago, responsável por cuidar das terras da família. — Aqui a gente dorme melhor… e come melhor ainda.
— Preciso concordar com você — disse Rogério, pai de Helena. — Viajamos muito nos últimos anos, e nada como um lugar afastado de tudo para encontrar um pouco de calma.
— Vocês estão morando fora agora, não é? — perguntou Maitê, mãe de Santiago.
— Sim, mas… — começou Consuelo, lançando à filha um olhar carregado de expectativa, como quem guarda uma revelação. — Já estamos acertando tudo para voltarmos de vez.
Helena arqueou as sobrancelhas, num misto de espanto, curiosidade e alegria.
— Sério? Vocês vão mesmo voltar?
— Sim — confirmou Consuelo, pousando a mão sobre a de Aurora, sentada ao seu lado. — A Aurora conseguiu uma casa antiga perto de vocês. Não fica no mesmo bairro, mas ainda é perto o bastante para irmos caminhando pelo parque até a sua casa.
— Onde você estava, doutora? — perguntou Helena, com um brilho atrevido no olhar.
— Dormi demais — respondeu Lívia, forçando um sorriso que não convencia totalmente. — Com a bebida de ontem e a calmaria desse lugar, acho que apaguei.
— Hmm… foi só isso mesmo? — insistiu Helena, inclinando-se na direção da amiga, provocadora.
— Claro que foi. Para de bobeira — rebateu Lívia, apressada demais, no exato momento em que Pedro surgiu, com um ar discretamente vitorioso.
— Bom dia! — cumprimentou-o Helena, lançando à advogada um sorriso cúmplice, daqueles que dizem sem palavras: “você não me engana.”
O tempo foi passando, a mesa do café aos poucos se esvaziando, mas a conversa seguia viva, como se todos ali se conhecessem há anos e reunir-se daquela forma fosse algo absolutamente natural.
Com a hora do almoço se aproximando, as mulheres se levantaram para ajudar Olivia a preparar a comida. Helena também fez menção de se erguer, mas foi contida pela avó de Santiago.
— Nada disso, mocinha. Deixe isso com a gente.
— Está tudo bem — insistiu Helena, com um sorriso gentil. — Eu posso ajudar.
— Na verdade — interferiu Aurora, dando leves tapinhas em sua mão — você deveria ir dar uma volta com o meu neto. Afinal, tudo isso é pela união de vocês.
Helena riu, rendida.
— Se é assim, obrigada.
— Sou eu quem agradeço — completou Aurora, com os olhos marejados de orgulho. — Faz muito tempo que não vejo meu menino tão feliz.
Santiago surgiu ao lado dela e envolveu sua cintura com naturalidade.
— A vovó tem razão — murmurou, inclinado junto ao seu ouvido. — Vamos fugir um pouquinho.
Helena sorriu, deixando-se conduzir. Enquanto se afastavam da sede, o riso e as vozes ficavam para trás, dissolvidos pelo som do vento entre as árvores.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio