“Eu quero a sorte de um amor tranquilo.” Cazuza
Silvia mal dormira. Algo lhe revirava o estômago enquanto a mente vagava, inquieta, por uma vida inteira de ausências.
“Como seria ser amada?”
Márcio gostava dela desde a juventude, ela sempre soubera. Mas o que ele era, afinal? Um operário sem importância — e, graças a ela, um capanga insignificante de Dante. Aquilo era pouco.
“E Cássio? Como seria ser admirada por alguém como ele? Será que, algum dia, poderia despertar nele algo além do uso, além da conveniência?”
Cássio dormia de costas para ela. O corpo largo, tranquilo, alheio. Silvia estendeu a mão, quase tocando os músculos firmes de sua lombar… mas conteve-se no último segundo.
“O que estou fazendo?” — repreendeu-se. “Eu não preciso disso.”
Levantou-se. O corpo parecia pesado, exausto, como se carregasse um peso que não sabia nomear. Seguiu até o banheiro.
Depois de fazer suas necessidades, parou diante do espelho. Encarou o próprio reflexo por tempo demais. A raiva veio quente, corrosiva, ao reconhecer ali uma mulher que lhe pareceu patética, vulnerável demais para o papel que precisava sustentar.
Então a dor veio.
Aguda, repentina, rasgando-lhe o ventre. Silvia se curvou sobre a bancada, os dedos se fechando na porcelana fria. Mordeu o lábio inferior para conter um gemido.
Sentiu algo quente escorrer entre as pernas. O pânico veio antes do pensamento. Levou a mão até lá, desesperada. Quando a ergueu, havia sangue em seus dedos.
As mãos começaram a tremer.
— Não… não, não… — sussurrou para si mesma, a voz falhando.
Ela não podia perder aquele bebê. Não agora. Não nunca. Ele era sua proteção contra Dante. Sua arma para manter Cássio preso a ela. Perdê-lo significava o colapso de todos os seus planos — e talvez da própria vida.
Vasculhou as gavetas com pressa, encontrando um absorvente. Limpou-se como pôde, os movimentos duros, mecânicos. Depois seguiu até o closet, andando na ponta dos pés, como se o silêncio pudesse conter o desastre. Escolheu um vestido simples, diferente dos que costumava usar, e um sapato sem salto.
Minutos depois, já ao volante do próprio carro — um dos presentes de Cássio — dirigia pelas ruas ainda vazias, tentando controlar a respiração, enquanto o corpo ameaçava ceder ao pânico.
Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que tudo podia ruir antes que ela conseguisse segurar.
Ao entrar no consultório particular e relatar o que havia acontecido, Silvia sentia o próprio corpo fora de compasso. As palavras saíam truncadas, como se cada sílaba precisasse atravessar uma garganta apertada pelo medo.
O médico a orientou a se deitar. Quando ela se acomodou na maca, o lençol frio tocou sua pele como um aviso. O teto branco parecia distante demais, alto demais. Silvia fixou o olhar ali, tentando não pensar, tentando não sentir — mas o corpo a traía.
O coração batia rápido, irregular, como se quisesse fugir do peito. As mãos estavam úmidas, os dedos crispados. Cada segundo se esticava em uma eternidade cruel. Ela sentia o ventre pulsar, pesado, ameaçador, como se carregasse ali uma bomba prestes a explodir.
Pensamentos se atropelavam. Dante. Cássio. O bebê. Seus planos. Sua sobrevivência. Tudo se misturava num turbilhão sufocante. A ideia de perder aquilo fazia seu estômago se revirar, a garganta arder, os olhos queimarem com lágrimas que ela se recusava a deixar cair.
Quando o médico iniciou o exame, Silvia prendeu a respiração sem perceber. O silêncio da sala se tornou ensurdecedor. Cada movimento dele parecia um julgamento. Cada pausa, uma sentença prestes a ser proferida.
Ela sentiu o corpo inteiro se contrair, preparada para o pior — para o vazio, para o fim, para o colapso.
Então, a voz do médico atravessou o ar e rompeu todo o desespero com uma única frase:
— Escuto os batimentos.
A frase levou alguns segundos para atravessá-la. Primeiro veio o silêncio absoluto dentro da cabeça, como se todo o ar tivesse sido sugado do ambiente. Depois, um tremor involuntário percorreu-lhe o corpo.
Silvia fechou os olhos com força. O alívio não foi suave — veio bruto, quase violento, arrancando dela um soluço que precisou engolir às pressas. O coração desacelerou aos poucos, mas o ventre ainda parecia latejar, lembrando-a de que nada estava realmente seguro.
Ela respirou fundo, sentindo as lágrimas se acumularem nos olhos, não por ternura, mas por exaustão. Estava a salvo… por enquanto.
— Houve um sangramento de ameaça — continuou o médico, com a voz profissional, neutra. — O bebê está vivo, mas você precisa ter muito cuidado a partir de agora.
Silvia assentiu em silêncio, os dedos apertando o lençol da maca.
— Repouso absoluto nos próximos dias — ele prosseguiu. — Nada de esforços físicos, nada de estresse. E relações sexuais… só com muita cautela. Evite qualquer contato mais enérgico.
A palavra enérgico ecoou em sua mente como uma lembrança — a forma como Cássio a usara na noite anterior.
— Se sentir qualquer dor, sangramento ou desconforto, volte imediatamente — completou o médico. — Isso não é algo a ser negligenciado.
Silvia abriu os olhos e encarou o teto mais uma vez. O medo ainda estava ali, mas agora vinha acompanhado de algo diferente: cálculo. Precisava agir rápido antes que algo irreversível realmente acontecesse.
...
Santiago a levou de volta ao mirante entre os pinheiros, conduzindo o quadriciclo com um cuidado ainda maior agora que Helena carregava um filho seu. O vento era suave, e o caminho parecia mais curto, como se o lugar também soubesse esperá-los.
Ao chegarem ao topo, ele retirou o capacete e a ajudou a descer, atento a cada movimento. Em seguida, envolveu-a por trás, os braços firmes e protetores, enquanto ambos observavam a paisagem que se abria lá embaixo.
— Como você está se sentindo? — perguntou em voz baixa.
— Eu nunca estive tão feliz — respondeu ela, sorrindo, enquanto acariciava os braços dele que a envolviam pela cintura.
Helena se virou, enlaçou o pescoço de Santiago e sustentou o olhar dele por um instante antes de falar:
— Quando eu resolvi dar um basta em tudo o que vivi antes, só imaginava uma vida mais tranquila… em paz. Nunca pensei que encontraria o amor da minha vida, nem que seria tão feliz assim. Obrigada por aparecer na minha vida, por reunir todos que eu amo, por ser esse homem incrível, lindo… gostoso.
— Gostoso, é? — ele riu, encostando a testa na dela. — Acho que você ainda não faz ideia do quanto eu esperei por isso. Se eu tivesse me declarado na faculdade, talvez… — interrompeu-se, escolhendo não atravessar as sombras do passado dela. — Mas agradeço todos os dias por ter a chance de fazer certo agora.
Ele segurou o rosto de Helena com as duas mãos e a beijou com ternura, como quem sela uma promessa silenciosa.
Quando se afastou, ainda sorrindo, disse:

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