"Aquilo que é seu encontrará um caminho para chegar até você" Chico Xavier
Só quando chegou à empresa no meio da tarde e percebeu que Cássio não só não estava lá, como também não havia aparecido de manhã, foi que Silvia decidiu ligar para ele.
Depois de diversos toques, quando ela já pensava que ele não atenderia, a voz dele veio quebrada do outro lado.
— Oi, — ele disse simplesmente.
— Oi. Onde você está? — perguntou ela, tentando parecer casual.
— Precisei viajar para resolver algumas coisas.
A voz dele parecia estranha, difícil... como se houvesse dor ao falar. “Será que Dante o havia ferido?”
— E está tudo bem? — Ela sondou.
Cássio pareceu se recompor o suficiente para que a provocação surgisse na voz, ainda assim sem a força de sempre.
— Por que não estaria? E você? Onde esteve desde ontem? Não voltou para casa ontem e o Renato me disse que você sumiu da empresa hoje cedo. O que aconteceu?
Silvia já tinha a desculpa pronta, construída às pressas, porém sem exageros.
— Fui pro apartamento. O síndico me ligou dizendo que tinha um vazamento complicado. Cheguei tarde, acabei ficando por lá e passei a manhã acompanhando o reparo antes que a água virasse caos maior.
O silêncio que se formou do outro lado tinha textura de desconfiança, e justamente por isso Silvia correu à frente de qualquer outra pergunta:
— Quando você volta?
— Provavelmente em 3 dias. Preciso que você ajude o Renato enquanto eu estiver fora.
_ Claro, meu amor. Não se preocupe. _ disse com o costumeiro tom doce retornando a voz.
Quando desligaram, a sensação de não saber o que exatamente estava acontecendo era irritante para ela. O pior era não saber nem por onde começar a procurar para descobrir. Abordar Cássio abertamente jamais seria uma opção.
O impulso de conferir a realidade que realmente importava a empurrou. Pegou o aparelho novamente e ligou para Márcio.
Helena realmente continuava viva.
Márcio falava rápido demais, a voz tropeçando na própria euforia. Ele estava em pânico. Estava convencido de que o plano seria perfeito e que o fogo consumiria quaisquer vestígios seus. Mas estava errado. Não usara luvas para cortar a mangueira e isso agora certamente viraria uma evidência contra ele.
Ele passou boa parte da noite vigiando à distância, preso na espera sufocante de uma explosão que não veio e de chamas que nunca acenderam. O que rompeu a escuridão da noite foi outro tipo de luz, em outra cadência: azul e vermelha, pulsando no ritmo nervoso dos giroflex. Acompanhada do som das sirenes cada vez mais perto, trazendo consigo a compreensão imediata de sua falha.
A polícia estava lá e era nítido que seu plano não só havia fracassado como, ironicamente, seria empurrado para o centro do quadro como culpado de uma cena que ele nunca desejou protagonizar.
— Você precisa cair fora, — disse Silvia, direta, sem tom dramático. A frieza dela naquela frase não era falta de empatia. Era cálculo.
— Você não vem comigo? — perguntou ele, quase sufocando esperança no meio do pânico.
— Não. Você sabe que eu não posso agora.
Previsível, o orgulho dele ensaiava indignação. Antes que a ferida ganhasse voz, Silvia o desmontou com uma promessa prática e vazia:
— Vou te mandar dinheiro. Bastante. Você desaparece por um tempo. Quando tudo acalmar eu me junto a você.
A voz dele mudou. Não porque acreditasse na tranquilidade da proposta.
Mas porque acreditava nela.
Silvia escutou o silêncio satisfeito do outro lado. Ele jamais desconfiava da verdade que ela não dizia. Mas na mente dela não havia nenhuma intenção de cumprir tal promessa. Ele já não era mais útil, pelo contrário, se tornaria um problema no momento em que a polícia o identificasse como suspeito. E quando isso acontecesse, a teia que eles compartilharam se rasgaria, expondo todo o esquema. Ela precisava que as provas apontassem na outra direção, longe o suficiente… dela.
...
Os dois dias seguintes transcorreram com tranquilidade no bairro antigo, oferecendo um intervalo depois de tanta ruptura.
Helena dividia seu tempo entre pintar e treinar com Pedro. O cavalete e o aparador com os materiais de pintura já haviam sido levados para o quarto que antes estava vazio, e o restante dos móveis da sala foram afastados para um canto, abrindo o centro do cômodo para outra função.
O piso de madeira fora coberto por espuma densa, um tatame improvisado, simples, mas eficiente.
Ali, Pedro alternava entre ensinar golpes de jiu-jitsu e sequências de muay thai, sempre com o mesmo propósito: mostrar como Helena poderia escapar de um agarrão, de uma imobilização, de mãos mais fortes do que ela. Também incluíra o básico do boxe, focado no fortalecimento dos braços e dos ombros. Nada ali era vaidade. Era necessidade. E justamente por isso, cada movimento parecia ter mais peso do que aparentava.
Se o que ele dizia de pegar leve com ela era aquilo, Helena não queria descobrir tão cedo como seria quando o “leve” dele acabasse.
No segundo dia, após 90 minutos de prática contínua, Helena simplesmente se deixou cair no tatame. As costas tocaram a espuma com um baque macio, o corpo desistindo primeiro do que a mente. O suor dava brilho à pele, enquanto a respiração tentava voltar ao lugar. O que mais pesava ali não era a exaustão física. Era o contraste: o alívio mental vindo em ondas, consequência direta da descarga hormonal que o treino lhe impunha como recompensa involuntária.
As corridas, que antes eram fuga e distração, não eram mais uma opção. E o treino acabou se mostrando um substituto ainda melhor.
Marcelo também se revelou peça improvável naquele núcleo, insistindo em preparar as refeições. E quando disse, quase como quem confessa uma fraqueza humana, que cozinhar era uma das poucas coisas que realmente lhe davam prazer, Helena parou de discordar. Não porque perdeu o argumento, mas porque entendeu que aquele gesto era o descanso dele, talvez tanto quanto pintar era para ela. Afinal, cada um tinha seu próprio jeito de sobreviver ao que não podia ser dito.
A relação de Helena com Santiago também evoluía, estavam cada vez mais próximos. A cumplicidade entre eles crescia nos pequenos gestos.
No fim do segundo dia, os dois estavam deitados na rede do quintal dos fundos, as mãos entrelaçadas, enquanto conversavam com o balanço lento do tecido.
— Tá muito cansada? — perguntou ele, lembrando dos treinos, enquanto acariciava o ombro dela.
— Um pouco, — respondeu Helena, — mas o meu cansaço mesmo… é outro.
Ele entendeu sem precisar perguntar duas vezes. Não tocou no nome do assunto. Apenas deixou a frase vir como promessa:
— Isso vai acabar.
Helena expirou, não totalmente convencida, mas confortada pelo espaço que a voz dele oferecia para repousar perguntas difíceis:
— Eu só não entendo por que ele insiste nisso. Por que não aceita que acabou e segue com a vida dele?
— Términos nunca são fáceis, — disse Santiago, a frase nascendo cuidadosa, quase reflexiva. Como se viesse de uma lembrança própria.
Ela levantou o olhar para ele, curiosidade misturada a impulso humano:
— Você sabe tanto de mim… mas e você? Nunca me contou dos seus relacionamentos anteriores.
Ele respirou fundo, o corpo ajustando-se na rede antes da voz sair. Não havia drama no gesto, apenas um homem organizando memórias difíceis antes de dividi-las:
— Na verdade… não tem muito o que contar. Tive só uma namorada, Amanda Rocha. Ela é uma ceramista. Ficamos juntos por dois anos e acabamos noivando. Mas um mês antes do casamento, eu descobri a traição.
Helena franziu a testa, não pela história, mas pelo peso que a fala dele carregava:
— Sinto muito.
— Não sinta, — ele respondeu, um leve sacudir de cabeça, quase desconfortável em receber pena por algo que ele próprio não tinha interpretado como inocência. — A culpa foi minha desde o começo.
A surpresa dela veio limpa, sincera, sem moldura:
— Como assim a culpa foi sua se ela te traiu?
O movimento da mão dele no ombro dela parou por um segundo, um gesto mínimo, quase anestésico, e respondeu:
— Eu não a amava. Quer dizer... eu gostava da companhia, da amizade… mas amar, amar mesmo… eu nunca fui capaz.
O silêncio que veio não era julgamento. Era digestão.
— Por quê? — perguntou Helena mais baixo.
Ele apoiou o outro braço atrás da cabeça e olhou o céu, como se ali estivesse o rascunho de uma verdade que o dava coragem para narrar:


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio