“Quando a própria companhia dói, qualquer presença parece salvação. E assim, em vez de escolher, aceita. Em vez de amar, prende. Porque quem não aprendeu a se cuidar confunde amor com sobrevivência.”
Percebendo que a atenção de Silvia permanecia presa a Cássio, o semblante aparentemente preocupado, Esther tratou de retomar o controle da conversa.
— Vamos esquecer essa mulher e focar no que realmente importa, querida — disse, num tom doce, porém firme. — Acho que três semanas são tempo suficiente para prepararmos tudo. Mais do que isso, sua barriga já pode começar a aparecer.
Silvia assentiu, voltando-se para a mesa, embora ainda lançasse olhares ocasionais na direção de Cássio, como se buscasse decifrá-lo.
Viviane, por sua vez, parecia incapaz de disfarçar o incômodo. Os lábios comprimidos denunciavam a irritação ainda viva. Pegou o celular e começou a navegar pelas redes sociais sem muito foco.
Movida pela curiosidade — e por algo mais ácido — digitou o nome de Helena na busca.
O perfil surgiu imediatamente na tela.
Viviane franziu o cenho.
E, à medida que rolava a página, seu desconforto se transformou em algo diferente.
— Mas que… — murmurou, sentindo o estômago afundar.
Sem perceber, apertou o celular com força demais.
Esther percebeu imediatamente o desconforto da filha.
— O que foi, Viviane?
— Aquela infeliz está noiva — respondeu, com veneno escorrendo pela voz. — E o pior… está bombando na internet.
A frase foi suficiente para atrair a atenção de Cássio. Ele se levantou do sofá e caminhou até a mesa, o semblante fechado.
Viviane já havia se erguido também, posicionando-se entre a mãe e Silvia, enquanto estendia o celular na direção delas, inconformada.
— Olha isso.
A tela exibia o perfil de Helena. Números que pareciam irreais. Curtidas, comentários, compartilhamentos em avalanche.
Viviane engoliu em seco. Autointitulava-se influenciadora havia anos — postava dicas de maquiagem, rotinas de cuidados, flashes de um glamour cuidadosamente encenado — e, ainda assim, lutava por migalhas de engajamento.
Ver Helena ali, com mais de sete milhões de seguidores, sem esforço aparente, sem pedir atenção, sem implorar por validação, despertava nela algo que ia muito além da inveja.
Era fúria.
Uma fúria silenciosa, humilhada.
E, enquanto Viviane fervilhava, Silvia observava a tela em silêncio, sentindo uma pontada incômoda no peito.
Cássio tomou o aparelho da mão de Viviane num impulso brusco.
— Ei! — ela se assustou com a reação.
Ele não lhe deu atenção. Estava concentrado demais na tela. Rolou o feed enquanto o peito se apertava a cada nova imagem.
A primeira postagem: um carrossel. Helena e Santiago brindando, as mãos dadas, sorrisos fáceis. A seguinte, os dois se beijando com ternura. Depois, as duas famílias reunidas, eles no centro, ao ar livre. Em outra, o casal de costas num quadriciclo, Helena agarrada a ele, a noite aberta à frente.
Legenda: Noivado - Nosso para sempre começou!
Cássio deslizou o dedo novamente. O vídeo do comercial da Orsini estava ali, também. Mais abaixo, outro carrossel: os dois em casa, num mirante, cercados por gente comum, vivendo uma felicidade que parecia… real.
Viviane se aproximou do irmão, tentando retomar o celular. Ao se esquivar, Cássio girou o corpo — e o polegar tocou a tela sem querer.
— Ei… você curtiu a postagem — disse ela, alarmada, ao ver o coração vermelho surgir sob a foto.
Cássio encarou a tela por um segundo longo demais. Não entendia muito daqueles aplicativos, mas entendeu o suficiente para saber que tinha feito besteira.
Silvia se levantou e tocou o braço dele com leveza, um gesto quase cuidadoso demais para o que fervilhava dentro dela.
— Amor…
Ele não reagiu. Continuava encarando a tela, o olhar vazio, distante, como se estivesse preso àquelas imagens.
— Filho — chamou Esther, agora com a voz mais firme, exigindo presença.
Foi só então que Cássio ergueu o olhar, como quem retorna de um lugar distante. No mesmo instante, Viviane se apressou em recuperar o celular de sua mão, puxando-o de volta com impaciência.

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