“Quando alguém tenta apagar a luz de outro, deixa a sua própria sombra maior. E sombras não vencem.”
Na manhã seguinte, quinta-feira, a casa já estava acordada antes do dia realmente se acomodar. Santiago decidiu trabalhar dali com o notebook aberto sobre a mesa da copa. Como o ambiente era integrado, ele tinha o olhar livre para observar Helena e Pedro treinando na sala.
Pedro a conduzia com uma postura e cuidado.
— A primeira coisa que você precisa fazer é manter a calma, — disse Pedro, a voz firme, mas sem endurecer o ar do cômodo. — E adotar uma base estável. Afaste um pouco os pés. Isso te dá equilíbrio.
Helena ouvia com atenção. Roupas simples e funcionais: legging e top pretos, o cabelo preso em um coque alto.
Pedro segurou o braço dela, sem forçar. Apenas demonstração.
— O instinto faz a pessoa tentar puxar o braço pra trás, — explicou ele. — Mas isso só ajuda quem está segurando. Principalmente se for mais forte. Tenta.
Helena tentou recuar o braço, o impulso batendo no esperado: não se moveu. Ela permaneceu presa, mesmo sem resistência real do oponente ali.
Pedro apenas apontou:
— Está vendo? O ponto fraco do aperto está aqui — na junção onde polegar e os outros dedos se encontram. Se você gira o pulso nessa direção, a força do agressor diminui.
Helena então girou o braço, mão pra baixo e o cotovelo pra cima. O aperto cedeu um pouco.
— Isso! — animou-se Pedro. — Agora, além disso, você vai se aproximar e usar o peso do seu corpo para anular a minha força. Segure meu braço.
Eles inverteram os papéis e Pedro demonstrou a ela na prática.
— Entendeu? — perguntou ao final da demonstração.
Helena respirou, assentindo, e repetiu os ensinamentos dele.
— Você aprende rápido. Agora, em vez de usar apenas a força muscular do braço, use a força do seu quadril e pernas para girar todo o seu corpo para fora do agarramento. Esse movimento rotacional, feito com o corpo inteiro, é muito mais poderoso do que apenas o bíceps.
— Assim? — Perguntou Helena virando o braço, se aproximando dele ao mesmo tempo em que girava seu corpo.
Consequentemente a mão de Pedro se soltou do braço dela.
— Isso garota! — Pedro riu satisfeito. O entusiasmo vindo limpo no gesto.
— Base estável. Giro do pulso na direção do polegar. Aproximação pra anular a força. Usar o quadril e a perna no movimento. Corpo inteiro no giro. — Ela repetiu tentando gravar os passos na mente.
— Imagina agora que quem te segura é maior, mais forte… e quer te machucar, — acrescentou ele. — Se o aperto não soltar, usa a tua mão. Golpeia onde dói rápido: nariz, olho, boca do estômago… as bolas. Isso cria distração. Te dá espaço. Te dá tempo pra terminar a saída.
Helena repetiu os golpes com Pedro até o corpo aprender quase sozinho o idioma da fuga. Quando migraram para o boxe, a cena mudou de melodia: punhos encontrando impacto, Pedro recebendo cada golpe nos amparadores, a reverberação seca marcando progresso e exaustão.
Foi nesse instante, com o treino já quase no fim, que o celular dela vibrou sobre a mesa. Santiago, que até então acompanhava tudo em silêncio, pegou o aparelho. A expressão se ajustando num misto de curiosidade e alerta ao ver o nome que brilhava na tela.
— Helena. — Chamou ele mostrando o celular para ela.
Ela se aproximou com as luvas nos punhos, a impossibilidade física de atender gerando uma urgência miúda e quase cômica no gesto.
— Coloca no viva-voz pra mim? — pediu ela vendo o nome de Ricci na tela.
— Padrino?
A voz, amplificada pelo sistema do aparelho, soou masculina, italiana e cheia de afeto.
— Buongiorno, ragazza mia. Estou de volta.
Helena sorriu antes mesmo de se dar conta, a notícia escapando leve no alívio.
— Que bom!
— Sì. Falei com o Orsini. Ele já marcou o encontro.
— Sério? Que notícia maravilhosa, — respondeu ela, a voz já mais encorpada de esperança do que de cansaço.
— Só tem um detalhe… ele ficou empolgado demais. Marcou pra hoje à tarde.
Ela respirou fundo, mas a convicção nasceu rápida:
— Por mim, tudo bem.
— Molto bene. Irei te acompanhar.
— Certo padrino. Grazie.
O rosto de Helena se iluminou de empolgação. Era bom ver as coisas dando certo.
...
A tarde, o céu de São Paulo estava coberto por nuvens densas que pareciam segurar o ar antes de uma tempestade. Era apropriado. A vida de Helena também estava prestes a mudar de clima.
Pedro estacionou o carro diante do edifício novo onde a Orsini Design havia montado sua sede no Brasil. O prédio destoava de tudo ao redor: linhas retas, vidro fumê, concreto aparado, silêncio caro. Não era apenas um escritório. Era um aviso. "Aqui mudamos mercados."
Helena engoliu seco, mas manteve a postura. Ricci e Santiago caminhavam ao lado dela como escudos elegantes. O padrinho cumprimentando discretamente funcionários que pareciam conhecê-lo e respeitá-lo.
A recepcionista anunciou:
— O senhor Orsini está aguardando.
A sala de reunião ficava no último andar. O elevador abriu revelando um corredor silencioso, cujas paredes exibiam fotos de obras assinadas por ele: mansões, galerias, residências de artistas, hotéis premiados.
Tudo impecável, tudo imponente. Impossível de ignorar.
— Mas deixemos os mortos enterrarem seus próprios mortos. Estou mais interessado em você… e no que você pode criar longe dele.
Ele entrelaçou as mãos, polido, estratégico.
— Quero comprar a coleção Prisma. Com o seu nome. Com a sua assinatura. Com a sua história. — Fez uma pequena pausa, observando a reação dela como quem observa uma reação química. — E mais do que isso… quero te oferecer um cargo.
Helena piscou, tonta
— Um… cargo?
— Diretora criativa da Orsini Design no Brasil. — anunciou ele como quem oferece um prêmio raro. — Terá uma equipe própria. Total liberdade artística. E preferência absoluta para lançar cada coleção sua sob o meu selo. O mundo saberá quem você é.
Era demais. Era imenso. Era algo que ela nunca sequer ousou querer.
Mas Orsini não tinha terminado. Ele inclinou-se para frente, desta vez, muito sério.
— Mas eu preciso ser franco. — disse. — Isso vai provocar reações. Pessoas como o senhor Amaral… não lidam bem com perda de território.
Helena sentiu Santiago tensionar ao lado dela.
— Está me dizendo que haverá retaliação? — perguntou ela.
— Provavelmente sim. — respondeu Orsini, calculado. — E devo avisar: quando eu lanço um designer, o mercado inteiro olha. E quando alguém tenta impedir… o mercado olha ainda mais. Isso pode expor a verdade. Expor ele.
O significado pairou pesado. Cássio não apenas seria ultrapassado, ele seria exposto. O mundo inteiro veria onde estava o talento — e onde estava a farsa.
Foi Ricci quem colocou a mão no ombro dela.
— Questo è il tuo momento, bambina.
— Quanto ao cargo... ahn... — ela tentou encontrar palavras que não o ofendessem. — O que acontece é que meu sonho é voltar a me dedicar a pintura.
— Você ainda poderá fazer isso. — disse Orsini colaborativo. — Que tal assim, 3 dias por semana e você pode fazer seu próprio horário. Você ainda terá tempo suficiente para pintar.
Helena levantou o rosto. Não havia medo. Havia decisão.
— Se é assim, então eu aceito. — disse, firme. — Tanto a venda quanto o cargo.
Por um momento, Orsini simplesmente a observou. E então inclinou a cabeça, satisfeito.
— Então… — ele estendeu a mão para um aperto final — …vamos mostrar ao mundo quem é Helena Duarte.
Quando ele apertou sua mão, Helena teve a sensação de que estava assinando um destino novo. Um destino grande. Um destino dela.
E, sem perceber, estava também declarando guerra a Cássio Amaral. Uma guerra que Orsini, pelo brilho no olhar, parecia muito disposto a travar ao lado dela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio