Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 103

Depois de conversarem por mais um bom tempo, Orsini marcou uma reunião interna para segunda de manhã para apresentar Helena a equipe. Ela deixou a pasta com o projeto da coleção Prisma com ele, e junto com Santiago e Ricci, após se despedirem cordialmente do anfitrião, deixaram o prédio envidraçado.

Pedro já os aguardava ao lado do carro, imóvel como uma sentinela. Despediram-se de Ricci, que seguiu para um compromisso próprio, e Helena acompanhou Santiago até a galeria. Ele ainda precisava revisar detalhes finais antes da exposição, marcada para o dia seguinte.

Quando desceu do carro, a rua vibrou contra ela: buzinas, passos apressados, vozes misturadas. Mas o que realmente interrompeu seus pensamentos foi o passado recente. Flashes do quase atropelamento subiram gelados pela espinha. Não conseguiu deter a pergunta que vinha atormentando sua mente: “Quem a queria morta?”

Santiago notou o olhar dela e segurou sua mão. O toque a resgatou do devaneio como um ponto final gentil. Atrás deles, Pedro vinha em silêncio sério, ocupando espaço como um armário.

Dentro do prédio da galeria, os olhares surgiram inevitáveis. Santiago sozinho já era presença magnética; de mãos dadas com uma mulher tão visivelmente notável — e acompanhado por aquela figura alta e austera logo atrás — formavam um trio impossível de ignorar. E ninguém ali se esforçou para fingir indiferença.

Helena sentiu a velha impulsão da timidez tentar emergir, mas Santiago apertou os dedos dela discretamente em cumplicidade, como quem diz: Está tudo bem!

Subiram o elevador — e a reação se repetiu assim que as portas se abriram, um déjà-vu social de espanto e curiosidade. A recepcionista alternava os olhos entre eles, com espanto e curiosidade estampados no rosto.

Helena sorriu ao cumprimentá-la:

— Olá!

— Oi!

Santiago observando a reação exagerada de todos não pode deixar de se perguntar: “Era tão estranho assim vê-lo com alguém?”

Querendo dissipar um pouco da atenção, perguntou a ela:

— Está tudo bem por aqui?

A funcionária piscou, recuperando-se:

— Sim, claro. A palestra “A arte como cura” foi um sucesso. As cadeiras já foram retiradas, o salão está liberado e a equipe de decoração já está trabalhando nos preparativos da exposição.

— Vai dar tempo? — Santiago quis confirmar.

— Acredito que sim, senhor.

Ele se virou para Helena:

— Melhor eu ir até o salão conferir. Vem comigo?

Ela assentiu.

Embora a entrada principal fosse pela rua lateral, seguiram por dentro, descendo novamente pelo elevador e atravessando salas e corredores até o grande salão. O espaço era amplo, silencioso, neutro como uma tela em branco esperando assinatura: mármore sob os pés, paredes alvas, iluminação projetada para fazer qualquer obra parecer destinada a estar ali.

Uma porta lateral dava acesso a um pequeno pátio com muito verde e uma fonte de concreto ornamentada por uma figura feminina vertendo água de uma jarra antiga. A equipe se movimentava — organizando, medindo, alinhando, compondo a narrativa visual do dia seguinte.

Santiago foi imediatamente interceptado por uma mulher de prancheta nas mãos, fios grisalhos denunciando experiência e pressa:

— Ainda bem que você chegou! Há muito a ser feito e preciso tirar algumas dúvidas primeiro…

Só no meio da frase, percebeu Helena e Pedro ao redor dele.

Helena, por sua vez, já tinha se soltado da mão dele e se aproximava:

— Está tudo bem. Me diga: com o que posso ajudar?

A gentileza imediata a desconcertou.

Santiago ofereceu o contexto:

— Helena é pintora. Pode ajudar na disposição das obras.

— Perfeito! — disse a mulher, já chamando um funcionário. Helena foi conduzida para o centro da organização, e o alívio na postura da equipe era perceptível: mais gente, mais olhar, mais calma.

O tempo passou rápido ali. Até Pedro acabou ajudando — sempre atento a Helena, como se vigiasse o quadro mais raro já exposto.

Embora muitos a reconhecessem das manchetes, não houve desrespeito. Ao contrário: o empenho dela, a humildade no trato, a naturalidade com que se colocara para colaborar e o simbolismo incontornável de ter chegado de mãos dadas com o chefe, transformaram a curiosidade em respeito — e o respeito, em uma discreta admiração coletiva.

Quando deixaram o salão, restava quase nada a ser feito. A luz do dia já se rendia ao entardecer.

Na casa de Helena, Marcelo estava alheio a tudo. Cozinhava cantando, vestido num avental verde estampado de margaridas, enquanto Mabe o observava com a cabeça inclinada, julgando sua desafinação.

A pastora latiu avisando a chegada dos três, quebrando o canto.

— Continua, por favor, — disse Santiago rindo.

— Não, por favor, — cortou Pedro. — Como cantor ele dá um ótimo detetive.

— E cozinheiro, — completou Helena, já se deixando cair no sofá afastado pro canto, seguida de Mabe abanando o rabo.

O salto alto, usado por etiqueta ao compromisso com Orsini, e depois de tanto tempo em pé na galeria, cobrara seu preço. Tirou-os num impulso vingativo e cansado, lançando o par para longe com um resmungo de alívio dolorido.

Santiago sentou-se ao lado dela sem cerimônia:

— Deixa eu ver, — murmurou, já puxando as pernas dela para o colo, o gesto veio naturalmente íntimo.

Os olhos dele desceram imediatamente para os pés delicados. Não havia cortes, nem inchaços, nem sinais de violência além daquela causada pelo excesso de permanência em pé.

A pele do calcanhar estava num tom de vermelho quente, como se o corpo tivesse decidido protestar ali mesmo na superfície.

— Você venceu o treino com Pedro, uma reunião com Orsini e a montagem de uma exposição… tudo no mesmo dia. — disse ele, a voz baixa, brincando com reverência leve enquanto massageava os pés dela. — Mas foram os saltos que quase te derrubaram.

Capítulo 103 - Retorno a tela 1

Capítulo 103 - Retorno a tela 2

Capítulo 103 - Retorno a tela 3

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio