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Quadros de um divórcio romance Capítulo 104

Sentindo um desconforto raro chamado culpa, Cássio escreveu uma mensagem a Renato:

“Você anda sensível demais. Não precisa levar tudo tão a sério. Que tal você e a Tânia nos acompanharem na exposição hoje à noite?”

A mensagem foi enviada, mas a espera pela resposta caiu no vazio.

Passou a mão na cabeça, mas o gesto não o acalmou. Retornara, mas sentia-se sem bússola interna. Passou os olhos pelo escritório como quem procura um ponto de partida. Estava, de fato, na cidade outra vez — mas crescia nele a sensação estranha de que aquela vida, agora, tinha outra moldura. E ele já não cabia nela.

Puxou o ar para os pulmões com esforço silencioso e tomou uma decisão prática: iria até a delegacia antes que a polícia batesse outra vez à sua porta. Se antecipar ao confronto parecia mais sensato do que aguardar por ele.

O motorista parou diante do prédio da Polícia Civil. A fachada era impessoal, cinza e funcional, sem o dramatismo ou luxo. Cássio desceu acompanhado de Riviera, que logo o apresentou à recepção. Em poucos minutos, ambos foram guiados até uma sala simples, mobiliada apenas com o essencial: uma mesa, cadeiras e o silêncio.

Pouco depois, um delegado surgiu com uma pasta nas mãos, seguido por um detetive envolvido no caso. Sem pressa, mas com precisão, ocupou a cadeira diante deles. O detetive permaneceu de pé, próximo à porta.

O delegado abriu a pasta, e lançou os olhos sobre Cássio, analisando a figura supostamente organizada a sua frente: o terno impecável, o curativo traindo contraste e, no conjunto, o arquétipo do empresário engomado que visita delegacias já acompanhado de advogado como quem carrega guarda-chuva antes da chuva anunciar:

— Senhor Cássio?

— Sim, sou eu.

— Delegado Augusto Faria. — disse ele estendendo a mão para um aperto formal.

A mão firme. O olhar mais firme ainda.

— Fui informado de que minha presença era necessária, — continuou Cássio, ajustando o tom para cordialidade investigativa. — Pode me dizer do que se trata?

— Você não tem ideia?

— Não, senhor.

O delegado apenas inclinou a cabeça, mínimo gesto, máximo incômodo:

— Então por que trouxe um advogado?

Riviera respondeu por ele, rápido como uma legenda estratégica colocada sob um quadro que tenta se defender sozinho:

— Delegado, uma pessoa comum não vem à delegacia com advogado. Mas Cássio não é qualquer um. É um empresário conhecido, lida com grandes negócios. Para um homem na posição dele, isso é… natural.

Natural. A palavra dita como verniz, não como verdade.

O delegado assentiu, pouco convencido, mas profissional o suficiente para seguir:

— Vamos ao fato: onde estava na noite de segunda?

— Em uma viagem de trabalho.

— Que hora foi seu voo?

— Embarquei por volta das 19 horas. Mas do que se trata tudo isso?

O delegado parou, estudando minuciosamente o homem à sua frente.

Então, revelou a gravidade da história:

— Sua ex-esposa sofreu uma tentativa de sequestro, com agressão.

Cássio repetiu a palavra com reação maior do que planejamento:

— Agressão? — rápido demais. Tenso demais. Fora do previsto.

Ele não havia batido em Helena. Mas então se lembrou da pancada da cabeça dela no carro. A correção veio tardia como um retoque mal escondido:

— Quero dizer… sequestro? Isso é horrível.

Mas o delegado já farejava a tinta invisível que muitos não viam no quadro. Augusto estreitou o olhar:

— Se você estava no avião… como testemunhas e a própria vítima afirmaram que era você?

Cássio sorriu, mas o sorriso não conseguiu alcançar os olhos. A impaciência já crescia no rosto antes da resposta final:

— Delegado, peço que não leve Helena tão a sério. Ela anda instável. Cercada por pessoas ruins que a influenciam contra mim.

Augusto corrigiu a fala com o silêncio de quem atravessa versões:

— Ela parecia bastante lúcida, segundo meus detetives. E você a chamou de esposa, não de ex… sem contar o vídeo circulando do parque onde parece que você a assedia.

As sobrancelhas do delegado subiram, mas o interesse real não estava nelas. Estava no que vinha depois:

— Não me parece que você aceitou bem o fim do casamento.

O rosto de Cássio esquentou, uma reação física demais. A raiva subindo viva na pele, a humilhação soando maior que o fato:

— Como já disse, Helena está instável. Ela será tratada quando voltar pra casa. Tudo se resolverá.

— Você nega envolvimento no sequestro?

— Sim. Veementemente.

O delegado não mordia o teatro. Mordia reações. As perguntas práticas vieram curtas como golpes diretos em um ponto fraco narrativo:

— E esse machucado no supercílio?

— Bebi demais no bar do hotel… caí indo pro quarto.

— Seu carro? Onde está?

— Segundo meus funcionários o veículo foi roubado. Vou aproveitar minha vinda até aqui para registrar um B.O. do ocorrido.

— E quando o veículo foi levado.

— Pelo que me falaram, na segunda.

Augusto quase sorriu. Quase. Mas sombras não merecem sorriso fácil. Repetiu, sério demais para aliviar o momento:

— Seu carro sumiu exatamente no dia do crime. Os envolvidos o viram. Você tem um machucado no mesmo lugar em que disseram que o criminoso se feriu. Quando meus homens foram até a sua empresa, foram avisados que o senhor viajou sem avisar também no mesmo dia, e que esse não era um costume seu. É o mínimo… curioso.

Foi Riviera quem novamente pousou legenda e proteção:

— Meu cliente já respondeu. Os registros do voo corroboram tudo.

“Corroboram a versão, não a verdade” pensou Augusto.

E então o delegado disse a frase que fez com que Cássio não conseguisse mais controlar suas reações.

— Claro, claro... Acontece que não é a primeira vez que Helena sofre um atentado…

O novo dado acertou Cássio num ponto emocional que não era esperado.

— Como assim? — agora sim surpreso de verdade.

— Algum tempo atrás, ela quase foi atropelada propositalmente. E na mesma noite da tentativa de sequestro alguém cortou intencionalmente a mangueira de gás da casa dela.

— Como assim? Alguém tentou atropelá-la? Por que? E quanto ao gás... isso não faz sentido algum. — Analisou ele preocupado demais. Destoando de sua reação sobre o sequestro.

A incredulidade e a indignação pareciam vir limpas, sem ensaio, destoando de todas as outras reações controladas do depoimento.

Augusto inclinou a cabeça, lento, cirúrgico no suspense:

— Ainda não sabemos quem foi.

Fez uma pausa milimétrica, intimidante, e completou:

— Mas… começamos a desconfiar.

Não havia acusação explícita. Não ainda.

Mas a frase ficou no ar como um esboço ameaçador, esperando cor, confirmação… reação.

A partir dali, uma enxurrada de perguntas nasceu na cabeça de Cássio.

— Seda não amassa querida.

— Hmmm! Entendi... escolheu seda hoje para poder amassar outra coisa, não é? Talvez meu segurança barra treinador de 1,90m?

— Má! Muito má! — Resmungou Lívia apontando o dedo para ela.

Os risos se espalharam pelo corredor. Santiago que se aproximava, ouviu parte da conversa e abriu a porta devagar.

— Posso interromper o clube da Luluzinha um pouco? — perguntou ele rindo.

Lívia ameaçou afundar o rosto no travesseiro de vergonha antes de se lembrar que isso arruinaria sua maquiagem. Preferiu atirar o objeto na amiga:

— É tudo culpa sua!

— Ei! — gritou Helena desviando do objeto.

Santiago riu ainda mais, cumprimentando Helena com um selinho.

— Você está linda. — Elogiou apreciando a beleza dela. — Vou tomar um banho rápido para irmos.

Antes de passar pela porta do banheiro, virou-se para Lívia com o humor afiado.

— Você também está linda. Tenho certeza que o segurança barra treinador dela vai gostar muito. — Ele se virou apressado fechando a porta atrás de si.

— Até você? — ralhou Livia.

As duas foram para sala para dar privacidade para que Santiago se vestisse quando saísse do banho. Pedro observava a rua pela janela, terno preto e camisa branca, como um quadro humano de contraste impecável.

Lívia só o vira vestido de forma tão elegante de longe no evento da coleção Prisma. Mas ali, tão perto ele parecia ainda mais bonito.

Quando ele se virou notando a presença da duas. Livia perdeu a voz. “Como podia um terno vestir tão bem um homem assim?”

Helena se aproximou e cochichou no ouvido da amiga.

— Fecha a boca antes que babe. — riu baixinho.

Livia recuperou a compostura e olhou feio para a amiga que se aproximava de Pedro.

— Nossa, você está tão bonito e elegante. Você não acha Lívia?

A amiga trucidou Helena com o olhar. Pedro notou e segurou para não rir.

— Obrigado! As senhoritas é que estão deslumbrantes. — disse Pedro em resposta fazendo Livia ficar vermelha e Helena rir ainda mais.

Marcelo logo se juntou a eles, também muito charmoso de terno.

— Como estou? — Perguntou ele dando uma voltinha.

— Um espetáculo! — Elogiou Helena.

— Se minhas ex mulheres me tratassem assim... — ele brincou. — Ah, coloquei um homem meu para vigiar do sobrado enquanto estamos fora. Confiável.

Ele queria passar segurança para Helena. Desde o incidente da invasão e do vazamento de gás ele ainda se sentia culpado.

Helena percebeu. Aproximou-se e disse com firmeza serena:

— Está tudo bem. Ninguém no seu lugar teria notado a ameaça naquele dia.

Antes que a conversa continuasse, Santiago apareceu na sala. Helena não sabia qual versão dele a agradava mais: com roupas do campo, os moletons casuais que usava em casa ou todo elegante como estava.

Parou diante dele, terminou de ajeitar sua gravata:

— Você está simplesmente maravilhoso. — Seu tom era claramente apreciativo.

— Preciso estar a sua altura. — Rebateu envergonhado.

Entre risos, eles deixaram a casa e partiram para a galeria. Só não sabiam ainda com quem teriam o desprazer de esbarrar naquela noite.

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