Sentindo um desconforto raro chamado culpa, Cássio escreveu uma mensagem a Renato:
“Você anda sensível demais. Não precisa levar tudo tão a sério. Que tal você e a Tânia nos acompanharem na exposição hoje à noite?”
A mensagem foi enviada, mas a espera pela resposta caiu no vazio.
Passou a mão na cabeça, mas o gesto não o acalmou. Retornara, mas sentia-se sem bússola interna. Passou os olhos pelo escritório como quem procura um ponto de partida. Estava, de fato, na cidade outra vez — mas crescia nele a sensação estranha de que aquela vida, agora, tinha outra moldura. E ele já não cabia nela.
Puxou o ar para os pulmões com esforço silencioso e tomou uma decisão prática: iria até a delegacia antes que a polícia batesse outra vez à sua porta. Se antecipar ao confronto parecia mais sensato do que aguardar por ele.
O motorista parou diante do prédio da Polícia Civil. A fachada era impessoal, cinza e funcional, sem o dramatismo ou luxo. Cássio desceu acompanhado de Riviera, que logo o apresentou à recepção. Em poucos minutos, ambos foram guiados até uma sala simples, mobiliada apenas com o essencial: uma mesa, cadeiras e o silêncio.
Pouco depois, um delegado surgiu com uma pasta nas mãos, seguido por um detetive envolvido no caso. Sem pressa, mas com precisão, ocupou a cadeira diante deles. O detetive permaneceu de pé, próximo à porta.
O delegado abriu a pasta, e lançou os olhos sobre Cássio, analisando a figura supostamente organizada a sua frente: o terno impecável, o curativo traindo contraste e, no conjunto, o arquétipo do empresário engomado que visita delegacias já acompanhado de advogado como quem carrega guarda-chuva antes da chuva anunciar:
— Senhor Cássio?
— Sim, sou eu.
— Delegado Augusto Faria. — disse ele estendendo a mão para um aperto formal.
A mão firme. O olhar mais firme ainda.
— Fui informado de que minha presença era necessária, — continuou Cássio, ajustando o tom para cordialidade investigativa. — Pode me dizer do que se trata?
— Você não tem ideia?
— Não, senhor.
O delegado apenas inclinou a cabeça, mínimo gesto, máximo incômodo:
— Então por que trouxe um advogado?
Riviera respondeu por ele, rápido como uma legenda estratégica colocada sob um quadro que tenta se defender sozinho:
— Delegado, uma pessoa comum não vem à delegacia com advogado. Mas Cássio não é qualquer um. É um empresário conhecido, lida com grandes negócios. Para um homem na posição dele, isso é… natural.
Natural. A palavra dita como verniz, não como verdade.
O delegado assentiu, pouco convencido, mas profissional o suficiente para seguir:
— Vamos ao fato: onde estava na noite de segunda?
— Em uma viagem de trabalho.
— Que hora foi seu voo?
— Embarquei por volta das 19 horas. Mas do que se trata tudo isso?
O delegado parou, estudando minuciosamente o homem à sua frente.
Então, revelou a gravidade da história:
— Sua ex-esposa sofreu uma tentativa de sequestro, com agressão.
Cássio repetiu a palavra com reação maior do que planejamento:
— Agressão? — rápido demais. Tenso demais. Fora do previsto.
Ele não havia batido em Helena. Mas então se lembrou da pancada da cabeça dela no carro. A correção veio tardia como um retoque mal escondido:
— Quero dizer… sequestro? Isso é horrível.
Mas o delegado já farejava a tinta invisível que muitos não viam no quadro. Augusto estreitou o olhar:
— Se você estava no avião… como testemunhas e a própria vítima afirmaram que era você?
Cássio sorriu, mas o sorriso não conseguiu alcançar os olhos. A impaciência já crescia no rosto antes da resposta final:
— Delegado, peço que não leve Helena tão a sério. Ela anda instável. Cercada por pessoas ruins que a influenciam contra mim.
Augusto corrigiu a fala com o silêncio de quem atravessa versões:
— Ela parecia bastante lúcida, segundo meus detetives. E você a chamou de esposa, não de ex… sem contar o vídeo circulando do parque onde parece que você a assedia.
As sobrancelhas do delegado subiram, mas o interesse real não estava nelas. Estava no que vinha depois:
— Não me parece que você aceitou bem o fim do casamento.
O rosto de Cássio esquentou, uma reação física demais. A raiva subindo viva na pele, a humilhação soando maior que o fato:
— Como já disse, Helena está instável. Ela será tratada quando voltar pra casa. Tudo se resolverá.
— Você nega envolvimento no sequestro?
— Sim. Veementemente.
O delegado não mordia o teatro. Mordia reações. As perguntas práticas vieram curtas como golpes diretos em um ponto fraco narrativo:
— E esse machucado no supercílio?
— Bebi demais no bar do hotel… caí indo pro quarto.
— Seu carro? Onde está?
— Segundo meus funcionários o veículo foi roubado. Vou aproveitar minha vinda até aqui para registrar um B.O. do ocorrido.
— E quando o veículo foi levado.
— Pelo que me falaram, na segunda.
Augusto quase sorriu. Quase. Mas sombras não merecem sorriso fácil. Repetiu, sério demais para aliviar o momento:
— Seu carro sumiu exatamente no dia do crime. Os envolvidos o viram. Você tem um machucado no mesmo lugar em que disseram que o criminoso se feriu. Quando meus homens foram até a sua empresa, foram avisados que o senhor viajou sem avisar também no mesmo dia, e que esse não era um costume seu. É o mínimo… curioso.
Foi Riviera quem novamente pousou legenda e proteção:
— Meu cliente já respondeu. Os registros do voo corroboram tudo.
“Corroboram a versão, não a verdade” pensou Augusto.
E então o delegado disse a frase que fez com que Cássio não conseguisse mais controlar suas reações.
— Claro, claro... Acontece que não é a primeira vez que Helena sofre um atentado…
O novo dado acertou Cássio num ponto emocional que não era esperado.
— Como assim? — agora sim surpreso de verdade.
— Algum tempo atrás, ela quase foi atropelada propositalmente. E na mesma noite da tentativa de sequestro alguém cortou intencionalmente a mangueira de gás da casa dela.
— Como assim? Alguém tentou atropelá-la? Por que? E quanto ao gás... isso não faz sentido algum. — Analisou ele preocupado demais. Destoando de sua reação sobre o sequestro.
A incredulidade e a indignação pareciam vir limpas, sem ensaio, destoando de todas as outras reações controladas do depoimento.
Augusto inclinou a cabeça, lento, cirúrgico no suspense:
— Ainda não sabemos quem foi.
Fez uma pausa milimétrica, intimidante, e completou:
— Mas… começamos a desconfiar.
Não havia acusação explícita. Não ainda.
Mas a frase ficou no ar como um esboço ameaçador, esperando cor, confirmação… reação.
A partir dali, uma enxurrada de perguntas nasceu na cabeça de Cássio.



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