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Quadros de um divórcio romance Capítulo 105

Os carros avançaram lentamente pela rua lateral da galeria, onde já havia um movimento contínuo de convidados descendo de veículos e fotógrafos independentes tentando capturar algum rosto conhecido. Luzes amareladas banhavam a fachada, que naquela noite parecia respirar um prestígio próprio.

Assim que o carro estacionou, um assessor da galeria abriu a porta para Helena. Santiago desceu logo atrás dela, oferecendo o braço com naturalidade. Pedro, Livia e Marcelo saíram do carro de trás.

A entrada principal estava ladeada por arranjos florais minimalistas e luminárias tubulares que projetavam sombras geométricas nas paredes externas. Dentro, o salão principal se abria como um organismo vivo — amplo, branco, elegante, com teto alto e iluminação cuidadosamente calculada para favorecer texturas, cores e volumes.

Logo no início do corredor, obras de pintores emergentes dividiam espaço com peças de artesãos de cerâmica, algumas dispostas em pedestais de concreto aparado, outras protegidas sob cúpulas de vidro. A paleta geral da exposição parecia conversar entre si: tons terrosos, azuis profundos, laranjas queimados, brancos quentes — como se a curadoria tivesse buscado costurar, de forma invisível, um fio emocional único para obras tão distintas.

Helena caminhava absorvendo tudo. Era como se seus olhos analisassem por instinto: luz, composição, profundidade. Um reflexo que não se desligava mais.

Conforme avançavam, convidados começavam a desviar a atenção para eles. Primeiro para Santiago, que era o anfitrião. Depois para Helena, que despertava curiosidade genuína: sua elegância discreta, a postura tranquila, a forma como parecia pertencer àquele ambiente mesmo sem ter marcado presença nos círculos sociais anteriores. E claro, por todas as manchetes recentes que ela estreara.

A ex-mulher de Cassio Amaral, agora caminhando intimamente ao lado de Santiago Villar. Quem não ficaria curioso?

Lívia, logo atrás, tentava não olhar abertamente para Pedro, falhando miseravelmente.

— Você deveria ser mais cavalheiro e me dar o braço também! — Sibilou ela.

Ele levantou uma sobrancelha parecendo pensar no assunto, mas por fim estendeu o braço em forma de gancho, sorrindo de canto quando ela o segurou.

Helena lançou um olhar apreciativo e cumplice para a amiga.

Já Marcelo seguia em ritmo social perfeito, acenando para conhecidos e cumprimentando artistas com familiaridade.

Um funcionário aproximou-se do grupo:

— Sejam bem-vindos. A exposição está dividida em três alas: pintura, cerâmica e instalações contemporâneas. A curadora pediu que avisássemos que a primeira parte será aberta oficialmente em alguns minutos.

Santiago agradeceu, e o funcionário se afastou.

Helena percebeu que alguns olhares a reconheciam, mas dessa vez não havia malícia neles — apenas curiosidade, respeito e uma admiração cautelosa. Era diferente. Era… novo.

Santiago a apresentou aos artistas expositores, e ela conversou com cada um deles com entusiasmo genuíno, como quem respira um novo ar. Absorvendo conhecimento, energia, frescor — aquela ousadia própria de quem está apenas começando e já carrega propostas extraordinárias. Para ela, era uma verdadeira injeção de inspiração.

Conheceu também pessoas influentes da área: outros galeristas, mecenas, curadores. Transitava entre eles com tanta naturalidade que parecia dividir com Santiago o papel de anfitriã.

E havia o modo como ele a conduzia: o toque leve na base das costas, o sussurro íntimo junto ao ouvido, o olhar doce e o sorriso — aquele sorriso que parecia ser reservado apenas para ela. A reciprocidade entre os dois era tão evidente que já não havia dúvidas: eram um casal. E um dos mais encantadores que os presentes ali já tinham visto.

A abertura oficial da exposição começava a atrair mais convidados para o salão principal. Um burburinho elegante se espalhava entre os corredores, aquele tipo de entusiasmo suave que antecede discursos e brindes. Luzes refletiam em porcelanas, sombras percorriam esculturas de barro queimado, e todo o ambiente parecia respirar arte.

Até que o salão pareceu mudar de temperatura. Foi como se alguém lançasse uma gota de tinta preta em água cristalina: não explode, não grita, mas contamina tudo em silêncio.

Alguns convidados reconheceram o rosto e instintivamente desviaram o olhar por desconforto.

Santiago foi o primeiro do grupo a notar a presença dele. A postura do galerista mudou por milímetros, quase imperceptível para quem não o conhecia. Pedro, a poucos passos atrás, também viu — e seus ombros se armaram como uma muralha.

Só Helena demorou um segundo a mais para entender o motivo da súbita mudança no ar. Ela estava olhando uma cerâmica quando sentiu, antes de ver, um arrepio fino percorrer a nuca. Quando virou, encontrou os olhos dele. E o salão inteiro pareceu perder definição por um instante.

Cássio.

— Como ele ousa aparecer aqui? — Livia perguntou furiosa.

Helena respirou fundo, tentando retomar o eixo, quando outra presença indesejada se materializou ao lado de Cássio como uma sombra tardia. Silvia. Vestida de forma chamativa demais para a ocasião. Um contraste gritante com a sobriedade da galeria. Ela segurou o braço de Cássio como quem reivindica território com uma expressão fria e calculada.

Junto deles, Tânia e Renato.

Marcelo se afastou aparentemente procurando um contato no celular.

...

A galeria era bonita. Cara. Cheia de gente que fingia entender arte enquanto equilibrava taças de espumante. Mas nada daquilo importava. Não quando ela estava ali dentro.

Por sorte, Renato aceitou acompanha-lo. Cássio não queria estar ali com Silvia, mas era melhor do que aparecer sozinho. Ainda mais sob os olhares julgadores das pessoas.

Não poderia deixar que o vissem como um homem abandonado, sofrido, diminuído pela falta daquela mulher.

Ele a viu antes que Helena o visse.

E aquilo foi um erro — um erro físico, biológico quase.

Porque quando a imagem dela se formou no campo de visão dele, algo travou dentro de seu peito. Ela estava linda, elegante, luminosa. E ao lado dela, como uma sombra que não deveria existir. Santiago.

A mão dele na região lombar dela, conduzindo-a por entre as obras. Uma intimidade pequena, mas agressiva. Um gesto que dizia muito mais do que o toque em si.

O estômago de Cássio se fechou. Por alguns segundos, ele não respirou. “Santiago.” — O nome rodou na mente como ácido quente.

O mecenas que estava sendo exibido pela imprensa como o novo guardião da carreira dela. O homem que parecia colecionar mais do que quadros. Que parecia colecionar ela.

Quando Helena riu — um riso leve, solto, tão diferente do riso tenso que ela tinha nos últimos anos com ele — Cássio sentiu a pele esquentar.

“Que direito ele tinha de fazê-la rir daquele jeito?”

A raiva queimou primeiro. Mas logo veio o desespero. Feio. Cru. Inconfessável.

Porque ali, naquela galeria iluminada, Helena parecia… feliz. E isso era profundamente intolerável.

“Ela está realmente com ele.”

A frase repetia como martelo. Como humilhação.

E então, quando ela virou um pouco o rosto para observar uma cerâmica, ele percebeu outro detalhe que o desestruturou: Ela parecia confortável.

Confortável naquele corpo, naquela roupa, naquele lugar. Confortável sem ele.

Aquilo fez algo nele quebrar um pouco mais.

— Eu só quero entender… — começou ele alternando o olhar entre ela e Santiago.

— Eu não devo mais explicações a você, — ela cortou, limpa e direta como uma pincelada precisa. — O que você quer, Cássio?

Ele não respondeu de imediato. Porque a resposta verdadeira não cabia ali. Não cabia diante de Santiago. Nem diante de uma galeria inteira testemunhando silenciosamente o que ele sempre tentou esconder: que havia perdido o controle.

E que a mulher diante dele não era mais a sombra que ele moldou — mas uma tela nova, com outros olhos, outras linhas, outra assinatura.

Foi Santiago quem encerrou o momento:

— A conversa acabou.

Cássio virou o rosto lentamente na direção dele — e viu nos olhos do galerista não desafio, mas certeza. Uma diferença que irritava mais do que ameaça.

Ele não estava acostumado a ser interrompido. Nem contradito. Nem diminuído.

Pedro se aproximou atrás dela. Outro homem. Outra sombra masculina fazendo guarda.

“Quantos homens ela precisa pra se proteger de mim?”, ele pensou.

Cássio entendeu que não havia espaço para insistir. Aquela galeria, iluminada, cheia de testemunhas, era o pior lugar possível para perder o verniz social.

Antes de ir, deixou escapar:

— Isso ainda não terminou.

Helena o encarou sem piscar.

— Você tem razão, — disse. — Ainda não terminou. Mas agora… não é você quem decide o final.

Santiago se aproximou. Calmo demais. Tranquilo demais. Superior demais. E ele teve que brigar contra o instinto de recuar.

— Você pode arrumar os álibis que quiser, mas a verdade sempre aparece. — Santiago falou baixo apenas para que ele ouvisse. — Eu vou garantir que apareça, assim como vou garantir que você nunca mais faça mal a ela. — Santiago sorriu em provocação. — Ela é minha agora, e eu cuido do que é meu.

Cássio sentiu o sangue subir ao rosto. Um calor agressivo, quase febril.

“Esse homem acha mesmo que ela é dele.”

“Ele acha que ganhou.”

Por dentro, algo explodiu. Uma ira tão grande que atravessou seu corpo como fogo rápido. Mas por fora — ah, por fora — Cássio apenas flexionou os dedos. Nada mais. Era tudo que podia fazer sem perder a pose.

Com o fogo ardendo em seus olhos, ele encarou Santiago, desviou o olhar para Helena, se virou e voltou aos seus amigos.

Naquela noite, dentro daquela galeria, ele não era o protagonista. E não havia mais o que ele pudesse fazer a não ser recuar.

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