“Força não é gritar mais alto; é permanecer de pé quando o outro tenta te derrubar.”
O desprezo de Silvia crescia a cada gesto patético que Cássio fazia. Ver um homem como ele — orgulhoso, meticuloso, sempre acima de todos — se humilhar daquela forma por Helena era um espetáculo que ela odiava presenciar… e que detestava profundamente. Sentia-se humilhada. Traída.
Quando ele a convidara para a exposição, Silvia realmente acreditou que, enfim, ele havia deixado o passado para trás. Mas bastou ver Helena ali — ao lado de Santiago, na galeria dele — para tudo fazer sentido.
Cássio não viera por arte. Não viera por ela. Não viera pela exposição.
Viera por Helena.
E perceber isso foi como ver o próprio holofote se apagando diante dela, deixando-a na sombra enquanto outra mulher tomava o centro da cena que ela sempre acreditou lhe pertencer.
Quando Cássio pediu que o aguardassem onde estavam, Silvia foi obrigada a assistir de longe enquanto ele seguia até Helena, chamando a atenção de todos no salão. A frustração a corroía — queria ser um inseto para ouvir cada palavra, cada respiração, cada olhar. Mas pelas expressões deles pode supor que Cássio não estava em vantagem.
Ver Santiago — um dos homens mais desejados do círculo artístico, tão respeitado quanto inalcançável — posicionar-se como escudo diante de Helena, como se protegesse a coisa mais preciosa do mundo… aquilo incendiou algo escuro dentro dela. Uma raiva funda, ardida.
Se Márcio tivesse terminado o serviço, Silvia não estaria ali agora, sendo obrigada a testemunhar a ascensão da arrogância no rosto daquela mulher.
Cássio voltou alguns minutos depois, caminhando com uma densidade no peito que parecia arrastar por onde passava. Por um instante, Silvia sentiu medo da expressão dele — mas logo percebeu que aquela raiva incandescente era toda para Helena. A constatação trouxe um prazer venenoso.
— Talvez seja melhor irmos embora, — sugeriu Renato, aproximando-se quando percebeu o humor do amigo.
— Por que faríamos isso? — respondeu Cássio com uma naturalidade forçada, como se a cena anterior jamais tivesse acontecido. — Viemos a uma exposição. Vamos ver se alguma coisa aqui presta.
Ele estendeu o braço. Silvia o segurou com firmeza, recuperando uma pequena parcela da sua segurança. Olhou para Helena com um sorriso torto — debochado, satisfeito. Talvez ir àquela exposição não tivesse sido tão ruim assim.
Depois de apreciarem algumas obras, Cássio e Renato se envolveram em conversa com outros empresários. Silvia aproveitou para puxar Tânia consigo e observar a galeria com mais liberdade — ou, mais precisamente, com mais liberdade para vigiar Helena sem parecer óbvia.
Então que a viu. Helena e Lívia caminhando juntas até o pátio lateral. Silvia se posicionou discretamente, de modo a ter visão da porta de vidro. Como quem observa presa em campo aberto.
Santiago permanecera no salão, conversando com um pequeno grupo. Já o “armário de ébano” que parecia acompanhar Livia, não tirava os olhos de Cássio, vigilante como um cão de guarda treinado. Aquilo a irritava ainda mais. “Quem era ele?”
Quando Lívia retornou ao salão, deixando Helena completamente sozinha na área externa, Silvia sentiu a oportunidade se abrir diante dela como uma porta silenciosa.
Tânia estava distraída com uma escultura de vidro âmbar, admirando o reflexo distorcido da luz.
Era o momento perfeito.
Silvia respirou fundo, ajeitou o vestido e, com passos calculados, saiu do salão. Indo direto em direção a Helena.
...
— Ora, ora… se não é o patinho feio. Cansou de brincar de dona de casa e resolveu ter vida social?
Helena se virou devagar. O olhar de desprezo que lançou foi tão preciso que fez Silvia endurecer por dentro.
— Esse papel nunca me coube — respondeu ela, rindo leve. — Mas você… não está cansada de se pendurar em um homem que claramente só te usa?
O maxilar de Silvia se contraiu. A provocação acertara em cheio.
— Ele não está me usando — disse, pousando teatralmente a mão sobre o próprio ventre. — Vamos ter um filho. Coisa que você nunca conseguiu dar a ele.
Helena inclinou o rosto, pensativa, como se analisasse uma obra mal-acabada.
— Sabe… se tivéssemos tido um filho, seria um vínculo eterno entre nós. E, numa situação como esta, a mais prejudicada seria a criança. Nesse ponto, tive sorte: sem filhos, posso deixar o passado onde ele pertence. — O olhar dela caiu sobre a mão de Silvia no ventre. — E, honestamente… tenho pena desse bebê que você carrega.
— Você diz isso por inveja — devolveu Silvia, a voz subindo meio tom. — Por eu carregar o filho dele. Por ter a atenção e o amor que você nunca teve.
— Inveja? — Helena arqueou uma sobrancelha. — Então peça ao seu “amor” que pare de me perseguir. Já está ficando patético. Se ele te ama tanto assim, coloque-o no devido lugar… e o mantenha longe de mim.
— Sua…
— Aliás — interrompeu Helena, suave — preciso te agradecer. Se não fosse por você, talvez eu ainda estivesse presa naquele inferno.
A raiva de Silvia se adensou como tinta escura. Pela visão periférica, percebeu Cássio atravessando o salão em direção às duas. O impulso veio antes do raciocínio: aproximou-se de Helena e, no instante em que ele cruzava o portal, Silvia jogou o corpo para trás, batendo as costas na fonte e soltando um grito tão calculado quanto falso. Várias cabeças se voltaram.
Como esperado, Cássio correu até ela.
— Silvia, você está bem?!
Ela cobriu o ventre, a voz trêmula, os olhos umedecidos de lágrimas:
— Helena… por que você fez isso?
Lívia surgiu com duas taças de espumante nas mãos, o olhar afiado.
— O que está acontecendo aqui?
— Alguém está confundindo a exposição com teatro de quinta — respondeu Helena, serena, o sorriso carregado de deboche.
Livia entendeu imediatamente. Silvia certamente havia encenado toda a situação de novo.
— Ela me empurrou! — gritou Silvia, alto o suficiente para alcançar meia dúzia de grupos.
Cássio a ajudou a levantar, segurando-a pelos ombros como se a protegesse de um perigo real.
— Ninguém vai encostar em você, Silvia.
Depois virou-se para Helena, o olhar carregado de indignação:
— Por que você a agrediu de novo?
— Eu? Tem certeza? — Helena sorriu, quase divertida.
— Silvia não tem nada a ver com isso — insistiu Cássio. — Por que descontar sua raiva nela?
Lívia bufou.
— Ah, claro, porque você não sabe quem é realmente essa…
Mas Helena ergueu a mão, interrompendo-a.
— Não, Lívia. Deixe que ele descubra sozinho quem essa mulher é. Ele merece isso.
O olhar dela voltou a congelar. Não houve grito, não houve tremor. Só firmeza.
— Você só está fazendo isso por ciúmes — disse Cássio.
Santiago se aproximou e passou o braço pelos ombros de Helena. Ela riu — um riso leve, quase doce — antes de olhar para Cássio novamente.
— Até quando você pretende se enganar? Vira a página, Cássio. Eu já até mudei de livro.
Fotógrafos correram para o pátio, atraídos pelo tumulto. Eles já previam, com tudo que havia saído na mídia, que algo aconteceria tendo o antigo casal no mesmo ambiente.
Silvia retomou o teatro:
— Eu só quero paz… você não precisava me machucar… se acontecer alguma coisa com o bebê…
Tânia chegou naquele instante, extravagante e cheia de opiniões.
— Meu Deus, Cássio! Vocês precisam chamar a polícia! Agora! — disse, apontando para Helena. — Essa mulher precisa de ajuda psiquiátrica!
Pedro deu um passo, mas Helena levantou discretamente a mão.
Não precisava. Ainda não.
Ela então encarou Silvia — lágrimas falsas escorrendo, a mão sobre o ventre — e sorriu. Um sorriso lento. Tranquilo. Devastador.
— Claro, Silvia. — A voz dela era suave demais. — Chame a polícia.
Santiago respirou fundo e retomou o papel de anfitrião:
— Vamos, pessoal. O espetáculo acabou. Temos obras incríveis para apreciar e artistas maravilhosos para prestigiar.
...
Quando o público retornou ao salão, Santiago tomou as mãos de Helena entre as suas.
— Você está bem?
— Claro. — Ela sorriu, suave. — Nem um arranhão.
Lívia pigarreou, cortando o momento como um estalo seco.
— Desculpem interromper, mas vou precisar da gravação da câmera de segurança.
Foi só então que Santiago compreendeu, de forma completa, o que havia acontecido. A acusação, a encenação, a armadilha. O rosto dele endureceu por um segundo — indignação contida.
Foram juntos até a sala de segurança do prédio. Santiago dispensou o funcionário e se sentou diante do monitor que controlava todas as câmeras. Buscou a gravação do pátio externo e retrocedeu alguns minutos.
A imagem surgiu com clareza: Silvia se jogando para trás, teatral, enquanto Helena permanecia parada, braços cruzados, o corpo imóvel como uma sentença. A mentira estava ali, à mostra.
— Mulherzinha inescrupulosa — murmurou Lívia, indignada. — Preciso que salve isso em um pendrive para mim.
— Claro. — Santiago já revirava gavetas em busca de um. — Isso vai ajudar em algo concreto?
— Esse vídeo sozinho, não. Mas nossa coleção está ficando… considerável. — Lívia sorriu, afiada, como quem vira mais peças de um quebra-cabeça se encaixarem.
Helena observava a tela em silêncio, a expressão neutra demais. Pedro, ao lado dela, percebeu o desalinho interno escondido sob aquela calmaria e pousou uma mão sobre seu ombro, firme e gentil.
— Você se manteve firme, Helena. — disse ele, orgulhoso. — Não deveria se culpar.
Ela deu um sorriso curto, quase um suspiro disfarçado.
— Eu só lamento não ter enxergado tanta coisa antes.
O pendrive foi ejetado, o monitor apagou, e por um instante todos ficaram ali, reunidos em silêncio, como se respirassem ao mesmo tempo. Do lado de fora, o burburinho da galeria voltava a crescer, lembrando-os de que a noite ainda seguia — brilhante, artística, viva.
Helena olhou para Santiago:
— Me desculpe por...
— Nem se atreva a se culpar por isso. — Ele a cortou balançando a cabeça e a puxando para um abraço apertado. — Você foi incrível. Isso só me faz te admirar ainda mais.
Ela sorriu agradecida por tê-lo ao lado dela.
Quando deixaram a sala de segurança, o corredor parecia mais silencioso do que antes, como se a galeria respirasse fundo com eles.
Ao atravessarem o arco de entrada para o salão principal, o burburinho suave retomou. Algumas pessoas lançaram olhares curiosos. Mas havia também olhares diferentes… olhares respeitosos, até admirados, como se a postura de Helena tivesse contado uma história que não precisava de palavras.
Santiago caminhava ao lado dela, a mão pairando às costas. Pedro seguia um pouco atrás, atento como sempre, mas com uma expressão mais leve, quase orgulhosa.
De volta ao centro da exposição, a música ambiente parecia mais nítida, mais harmoniosa. Tudo ao redor parecia retomar o propósito original da noite: celebrar arte.
Helena parou diante de uma das pinturas. Não era um ato proposital, apenas instintivo. E enquanto observava a obra — cores diluídas, pinceladas longas, movimento contido — algo dentro dela se aquietou. Devagar, seus ombros relaxaram. O peito, antes comprimido, expandiu numa respiração longa e sólida.
O salão não a ameaçava. O passado não a dominava.
Santiago inclinou-se levemente, beijando suavemente sua têmpora.
Ela o olhou, e o sorriso que nasceu não tinha nada de forçado.
E quando se afastaram da pintura para receber o próximo grupo de convidados que vinha cumprimentá-los, ficou claro que o caos que tentaram criar não tinha conseguido destruir nada — pelo contrário. Tinha revelado exatamente quem, ali dentro, permanecia de pé.

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