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Quadros de um divórcio romance Capítulo 107

“Às vezes, tudo que precisamos é que alguém nos enxergue como realmente somos.”

Os convidados começaram a se reunir naturalmente no centro do salão quando as luzes diminuíram apenas um grau — o suficiente para indicar que algo estava prestes a acontecer. O murmúrio elegante se tornou silêncio respeitoso, e um leve foco de luz se abriu sobre um pequeno espaço elevado na instalação principal. Não chegava a ser um palco, era apenas um platô redondo no mesmo tom do piso, com pouco mais de um metro de largura e uns trinta centímetros de altura, com um microfone.

Santiago avançou até lá, discreto e seguro, cumprimentando alguns artistas pelo caminho. Quando subiu, ele procurou Helena entre os presentes — não por necessidade, mas por instinto. E quando a encontrou, parada próxima a uma escultura de porcelana, o olhar dele ganhou um brilho quente, como se aquele fosse o único rosto que importasse.

Ele pegou o microfone, respirou com calma e começou:

— Boa noite, a todos.

O timbre dele era firme, agradável, convidativo — o tipo de voz que não exige silêncio, mas o inspira.

— É uma honra receber cada um de vocês nesta noite que, para mim, celebra mais do que arte. Celebra coragem. Coragem de quem escolhe trabalhar com o que ama apesar das dificuldades de ser um iniciante nesse mercado.

Alguns convidados sorriram, outros assentiram. Helena manteve os olhos fixos nele.

— A arte não existe para enfeitar paredes — continuou ele. — Ela existe para expressar quem somos. Para provocar, para desafiar, para acolher. E esta exposição… — ele fez um gesto amplo, elegante — …é resultado de dedicação, de sonhos, e de mãos talentosas capazes de transformar sentimentos em beleza.

Uma pequena pausa.

E então, deliberadamente, o olhar dele voltou a Helena.

— E alguns artistas — disse ele, num tom íntimo mascarado pela formalidade — nos lembram que a arte mais poderosa é aquela que nasce do que vivemos. Do que superamos.

Helena sentiu o coração dar um salto suave — discreto, mas real.

Lívia sorriu de canto.

Pedro cruzou os braços, satisfeito com a mensagem cifrada.

— Obrigado por estarem aqui. Obrigado por prestigiarem esses talentos extraordinários. E obrigado por fazerem desta noite uma celebração do que nos torna… humanos. À arte!

As taças ergueram-se num brinde coletivo. O aplauso ecoou pela galeria, cheio de entusiasmo.

— Gostaria de pedir que fiquem até o final — anunciou Santiago, projetando a voz com naturalidade — pois há uma obra que desejo muito apresentar a vocês.

Ele estendeu a mão em direção à peça coberta por um tecido branco no centro do salão. Um murmúrio curioso percorreu o público.

— Aproveitem agora a apresentação dos nossos artistas — completou, sorrindo.

Santiago, ao descer do palco, não disfarçou o caminho direto até Helena.

— O discurso foi lindo — ela disse, com um sorriso que iluminava o rosto.

— Tenho uma inspiração constante — respondeu ele, brincando, o olhar pousando nela com evidente ternura.

Ela inclinou a cabeça, cúmplice.

— E que obra misteriosa é essa? — perguntou, dando voz à curiosidade de todos ao redor.

Em volta, comentários surgiram em sussurros: talvez fosse um pintor lendário, talvez uma peça inédita, com certeza algo grandioso — afinal, estava coberta, protegida e em posição de destaque. O formato sugeria um quadro, mas ninguém conseguia determinar mais do que isso.

Santiago deu um passo mais próximo. Seus olhos brilharam com a satisfação de quem guarda um segredo valioso.

— Deixa de ser curiosa — disse ele, tocando de leve a ponta do nariz dela num gesto íntimo e absolutamente natural entre os dois.

Após a apresentação dos artistas, Helena e Santiago voltaram a caminhar entre as obras. Eles não estavam abraçados, não se tocavam de forma marcante… e ainda assim havia algo inegável entre eles. Algo que todos sentiam.

Alguns cochichos surgiram:

— Eles ficam bem juntos, não?

— Formam um belo casal.

Uma fotógrafa se aproximou, pedindo uma foto rápida — e quando Helena e Santiago posaram lado a lado, com sorrisos suaves e alinhados, a imagem ganhou imediatamente o brilho de uma capa de revista.

O clique percorreu o salão como anúncio de algo novo. E o público, antes apenas curioso, passou a observá-los com uma mistura de encanto e respeito. Como se aquela noite tivesse escolhido mostrar a eles uma história que estava apenas começando a ser escrita.

...

Apesar do tumulto inicial, a exposição retomou seu ritmo natural, como se a arte — sábia e paciente — tivesse força suficiente para reorganizar o ambiente. Helena se deixou conduzir pelo salão novamente, e pouco a pouco sua atenção voltou para as peças, para os materiais, para as histórias que cada artista carregava nas mãos.

Ela se apaixonou especialmente por uma escultura em vidro: um bloco grande em verde transparente, com delicados desenhos de ar aprisionados em seu interior, formando o que pareciam ser ramos pendentes, eternizados na transparência. Uma luz discreta na base iluminava o vidro por dentro, ampliando sua beleza. Helena decidiu comprá-la. A obra ficaria exposta até o fim da exposição, mas já lhe pertencia.

Ela conversou longamente com cada artista. Via neles a centelha que um dia quase sufocaram dentro dela. Não ter se dedicado à carreira assim que se formou, ter se perdido em um casamento que a apagou… fez com que a vulnerabilidade daqueles jovens criadores a tocasse profundamente.

Eles também estavam começando. Eles também carregavam medos. E eles também insistiam nos próprios sonhos.

Sentiu-se igual a eles. E digna de seu recomeço.

Lembrou-se da exposição que Santiago a convidara a fazer. Das poucas telas concluídas recentemente. E conversar com artistas tão corajosos acendeu nela ainda mais a própria coragem.

Uma jornalista de artes — da mesma revista da fotógrafa que havia pedido uma foto minutos antes — aproximou-se sorrindo, com um pequeno gravador em mãos.

— Santiago, poderia me conceder algumas palavras para a matéria sobre a exposição?

Ele assentiu educadamente. Helena começou a se afastar para deixá-los à vontade, mas Santiago segurou seu braço com suavidade, pedindo silenciosamente que ficasse.

O gesto aqueceu o peito dela. Ao contrário de Cássio, ele não tentava escondê-la. Ele a mostrava. Com orgulho. Com admiração. Com amor.

A jornalista iniciou as perguntas sobre os artistas, as obras, a curadoria. E Santiago respondia com brilho nos olhos, com paixão quase palpável — era evidente o quanto ele amava trabalhar com arte e, principalmente, descobrir talentos e apresentá-los ao mundo.

Helena o observava com verdadeira admiração; a energia dele era contagiante, inspiradora.

Então a jornalista decidiu ousar:

— E quanto à senhorita Helena? — perguntou, olhando para ela com gentileza. — É uma possível artista a ser revelada?

Santiago olhou para Helena por um momento que pareceu mais longo do que realmente foi. O carinho no olhar dele era quase devoto, impossível de disfarçar.

— Se eu tiver sorte, sim — respondeu ele. — Helena é uma pintora extraordinária, e tenho absoluta certeza de que sua sensibilidade e sua força vão surpreender e encantar o mundo.

Fez uma breve pausa. O sorriso dele suavizou.

— Mas, para mim, ela é muito mais do que isso. É minha companhia pra vida.

O rubor subiu ao rosto de Helena, mas não de vergonha. De reconhecimento. De verdade. Porque era exatamente o que ela sentia também.

A jornalista, animada com a resposta, arriscou:

— Podemos esperar uma cerimônia em breve então?

Santiago sorriu, respeitoso, sem virar o momento em espetáculo:

— No tempo dela. Contanto que eu faça parte de sua vida, não tenho pressa.

Helena respirou fundo, tocada por aquela segurança tranquila.

— E para você, Helena — continuou a jornalista — como foi prestigiar tantos novos talentos esta noite?

Helena procurou a palavra. Encontrou uma.

— Inspirador.

Depois completou:

— Os artistas são realmente incríveis, e isso só comprova o olhar especial que o Santiago tem para encontrar talentos e, ainda mais, sua generosidade ao lançá-los ao mundo. Sinto-me muito orgulhosa e abençoada por apreciar tudo isso de tão perto.

— E quanto à sua exposição? — insistiu a jornalista.

— Foi um convite que aceitei — disse Helena, um pouco tímida. — Estou trabalhando para que aconteça. Santiago acreditou em mim antes mesmo de eu acreditar. Pintar sempre foi meu sonho… só estava adormecido.

Sua voz suavizou ao final, emocionada.

O pequeno grupo ao redor ouviu em silêncio, comovido.

A jornalista percebeu.

E perguntou com cuidado:

— Por que agora?

Helena olhou para Santiago, reconhecendo ali a resposta.

— Porque tudo tem seu tempo. — disse. — E ter pessoas que te incentivam e te apoiam… é crucial.

A jornalista sorriu, satisfeita. Depois voltou-se ao anfitrião.

— E que peça misteriosa é essa que ainda está coberta?

Santiago consultou o relógio, animado.

Capítulo 107 - A primeira obra exposta 1

Capítulo 107 - A primeira obra exposta 2

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