Os flashes registraram cada detalhe — o beijo, o toque suave, o brilho nos olhos dela — e, mais do que a imagem, captaram a ternura palpável que existia entre ambos. Quando se afastaram, ainda havia um fio invisível que os mantinha conectados, como se o ar entre eles carregasse algo próprio.
Santiago deslizou a mão até o bolso interno do paletó e retirou uma caixinha pequena, num gesto discreto que somente os amigos mais próximos perceberam.
O coração de Helena perdeu o ritmo por um instante.
— Você aceitou namorar comigo… agora não pode voltar atrás — disse ele baixinho, com humor e devoção misturados.
Ele abriu a caixinha, revelando um par de alianças de compromisso em prata.
Helena levou a mão à boca, o espanto suavizado por um sorriso incrédulo que iluminou o rosto inteiro.
Lívia observava tudo com os olhos marejados, a mão pressionada contra o peito como quem tenta segurar o próprio coração no lugar.
Com cuidado, Santiago retirou a aliança feminina e entregou a caixinha a Lívia.
Estendeu a mão para Helena.
Ela pousou a dela sobre a dele, os olhos presos nos dele, como se o mundo inteiro tivesse se tornado um borrão ao redor.
A aliança feminina era um poema em metal: dois aros — um liso, polido, abraçando o aro central cravejado com um brilhante solitário sustentado por seis garrinhas; e logo abaixo, um aro diamantado, criando um contraste que parecia simbolizar força e delicadeza coexistindo.
Ele a observou em silêncio, buscando sua aprovação.
Helena sorriu — tímida, emocionada — e assentiu com um aceno quase imperceptível.
Só então Santiago deslizou a joia pelo dedo anelar dela.
— Que esta seja apenas a primeira aliança que coloco em seu dedo.
Ao redor, as pessoas finalmente entenderam o que estava acontecendo e uma onda de murmúrios encantados tomou o salão.
A aliança masculina possuía beleza discreta: prata polida, bordas retas, design limpo e atemporal — refletindo compromisso e sobriedade, uma força tranquila que combinava perfeitamente com ele.
Helena pegou-a com cuidado, repetindo o gesto ao colocá-la no dedo dele. Quando suas mãos se encontraram novamente, as duas alianças juntas eram um símbolo vivo marcando o início de uma história a dois.
— Eu te amo — disse Santiago, sem hesitação, sem medo, sem reservas.
Helena sorriu com o corpo inteiro, irradiando luz.
— Eu também te amo.
Lívia foi a primeira a alcançá-los, abraçando Helena antes mesmo que Santiago tivesse chance.
— Eu estou tão feliz por você — choramingou, soluçando entre risos.
Pedro ergueu as sobrancelhas.
— Quem vê a advogada destemida não imagina que existe uma manteiga derretida dessas por trás.
Lívia deu um leve soco no braço dele.
Marcelo começou a aplaudir — e o aplauso se espalhou pelo salão como fogo em palha seca, até que todos estavam batendo palmas, celebrando o amor exposto ali com uma sinceridade rara.
Após receber o aperto de mãos firme de Pedro, o abraço caloroso de Marcelo e mais uma investida emocionada de Lívia, Santiago finalmente pôde abraçar Helena.
Foi um abraço longo, cheio, daqueles que encaixam dois mundos num só. Ele afundou o rosto no cabelo dela, respirando como se finalmente encontrasse o ar certo.
— Você nem imagina quanto tempo eu esperei por isso — murmurou ele.
Helena sorriu contra o peito dele.
— Nem eu.
A música ambiente voltou a preencher o salão; conversas renasceram, mas agora carregavam uma alegria suave. As pessoas se aproximavam para felicitar o casal, algumas admirando as alianças, outras comentando o simbolismo emocionante de tudo ter acontecido diante da primeira obra exposta de Helena.
A pintura atrás deles parecia vibrar — como se ela própria reconhecesse o novo capítulo.
Santiago segurou a mão dela com naturalidade, entrelaçando os dedos, e a conduziu um pouco para longe, para um corredor lateral onde a luz era mais baixa e o fluxo de pessoas menor.
— Está feliz? — ele perguntou, passando o polegar sobre o dorso da mão dela.
Helena ergueu os olhos, e o que ele viu ali não era apenas felicidade. Era paz.
— Tanto que não consigo mensurar — respondeu ela, com a calma de uma verdade absoluta.
Santiago sorriu, aproximou-se e, desta vez, tocou a testa dela com a própria, num gesto íntimo e carinhoso que quase tirou o chão dela.
— E eu vou passar a vida inteira cuidando para que seja assim sempre — sussurrou.
Helena fechou os olhos e deixou o mundo existir daquele jeito por alguns segundos: leve, seguro, amoroso.
Quando voltou a abri-los, o futuro parecia mais colorido do que qualquer tela que já pintara.
...
A noite terminou leve. Quase todas as obras haviam sido vendidas — um feito raríssimo para uma abertura — mas, como a exposição ainda ficaria dias em cartaz para que mais pessoas conhecessem os novos artistas, tudo só seria enviado depois. O quadro de Helena, claro, também permaneceria exposto até o fim.
Os convidados foram embora animados, sorrindo, comentando, elogiando.
A confusão anterior já parecia um pequeno borrão distante, engolido pela força da arte e pelo sucesso estrondoso do evento.
Enquanto Santiago ajustava os últimos detalhes com a curadora responsável, Helena aproveitava para comer mais alguns petiscos do coquetel — desta vez com a tranquilidade de quem sabia que a noite fora perfeita.
Lívia jogou-se em um sofá branco próximo, largando os sapatos no chão com um suspiro dramático.
— Meus pés estão me matando — declarou, massageando um deles.
— Bem fiz eu que vim de salto grosso — respondeu Helena, rindo, a boca cheia.
— Você não acha que está comendo demais, não? — provocou Lívia, arqueando a sobrancelha.
— Ah, pronto! Virou nutricionista agora? — Helena revirou os olhos. — Seu bombonzinho anda acabando comigo nos treinos. — Olhou diretamente para Pedro, que bufou rindo. — Preciso me alimentar bem para sobreviver ao ritmo dele.
— Esse apelido vai pegar — comentou Marcelo, mal contendo a risada.
Pedro ergueu as mãos, resignado.
— Deixa ela comer. Amanhã eu garanto que ela perde todas essas calorias.
Helena gemeu em antecipação trágica fazendo-os rirem.
Santiago finalmente se aproximou, aliviado por encerrar os detalhes técnicos.
— Podemos ir.
— Espera — disse Helena, virando-se para a mesa e enchendo as mãos de tarteletes e mini brusquetas. — Agora sim.
Todos riram.
Mas Santiago, por um instante, franziu o cenho — não por desaprovação, mas por uma curiosidade silenciosa, como se tivesse percebido algo nela que ainda não tinha nome.
Antes que pudesse falar, Lívia já puxava Helena pela mão rumo à saída, com Pedro e Marcelo logo atrás. Ele então os seguiu, sorrindo sozinho.


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