“Às vezes, o milagre não é recomeçar do zero, mas finalmente se sentir em casa dentro da própria vida.”
Rogério permaneceu sentado por mais alguns segundos, imóvel, como se estivesse reorganizando cada informação dentro da própria cabeça. Então, levantou-se.
— Santiago… — chamou, com a voz grave.
O galerista entendeu de imediato. Houve uma troca silenciosa entre eles: precisamos conversar a sós.
Caminharam até a varanda dos fundos.
Rogério apoiou as mãos no corrimão de madeira e ficou alguns instantes olhando para o jardim, respirando fundo antes de falar.
— Eu sei que minha filha é adulta — começou, sem rodeios. — Sei que ela toma suas próprias decisões. Mas isso que vocês nos contaram… — ele balançou a cabeça, tenso — ultrapassa qualquer coisa que um pai consegue digerir facilmente.
Santiago permaneceu ao lado dele, postura reta, expressão respeitosa. Não tentou interromper.
— Eu passei anos acreditando que o maior problema do casamento dela era infelicidade — continuou Rogério. — Mas nunca… nunca imaginei que ela estava correndo riscos reais.
A voz falhou só um pouco, mas o suficiente para revelar o homem por trás do empresário.
Santiago então falou, calmo:
— Senhor Duarte… eu entendo a sua revolta. E compartilho dela. Se eu pudesse voltar no tempo, teria feito qualquer coisa para impedir que Helena sofresse o que sofreu. Mas não posso. Tudo o que posso fazer é garantir que daqui para frente ela não passe mais por nada assim.
Rogério o encarou pela primeira vez desde que chegaram ali.
Os olhos estavam severos, mas havia ali também algo novo: uma avaliação profunda do homem que agora fazia parte da vida da filha.
— Helena confia em você — disse Rogério. — Isso já me diz muito. Mas confiar não basta. Ela amou um homem que se mostrou um covarde. Isso significa que nem sempre o coração enxerga bem.
Santiago assentiu. Não se defendeu. Não se justificou. Apenas ouviu — e isso, por si só, dizia muito sobre ele.
— Eu não sou perfeito — respondeu, com sinceridade rara. — Não prometo que nunca vou errar. Mas prometo que vou passar a vida inteira tentando acertar com ela. Que nunca vou virar as costas para suas dores. Que vou ser o tipo de homem que ela merece ter ao lado.
Rogério estreitou o olhar, atento à firmeza do tom.
— Promete proteger minha filha? — perguntou, agora sem rodeios, sem retórica, sem floreios.
Um pai falando com o homem que poderia — ou não — ser parte de sua família.
Santiago respirou fundo.
— Com a minha vida — respondeu, num tom tão firme que nem o vento ousou interromper.
O silêncio que se seguiu parecia sólido.
Por fim, Rogério perguntou:
— Você a ama?
Santiago não desviou o olhar.
— Amo. — A palavra saiu inteira, absoluta.
Rogério fechou os olhos por um instante, absorvendo tudo.
E então, com um suspiro longo, colocou a mão no ombro de Santiago — forte, pesada, paternal.
— Então cuide dela — disse, afinal. — Porque se você falhar…
Santiago sorriu de canto, aceitando a ameaça subentendida com elegância masculina.
— Não vou.
Rogério deu um único aceno.
— Ótimo. — Depois, acrescentou, com voz mais suave: — E… seja bem-vindo à família.
A porta atrás deles abriu lentamente, revelando Helena, que vinha chamá-los para o café. Mas quando ela viu os dois homens lado a lado, uma sensação calorosa e inesperada se instalou em seu peito.
Os dois mais importantes de sua vida — finalmente em sintonia.
...
Quando Rogério voltou para dentro da casa, fechando a porta da varanda atrás de si, sentiu um peso estranho no peito — não apenas preocupação, mas algo mais antigo, mais visceral: a frustração de não ter protegido a própria filha.
O mundo sempre o viu como um homem forte. Empresário sólido, postura firme, voz que raramente falhava.
Mas agora, parado na cozinha da filha, olhando para Helena sorrindo com Consuelo, ele se deu conta de algo que o partiu ao meio: Ele não fazia ideia do quanto ela havia sofrido. E ainda assim, ela estava de pé. Luminosa. Viva. Renascida.
Isso o enchia de orgulho. E o destruía ao mesmo tempo.
Rogério observou Santiago à distância. O rapaz conversava com Pedro e Marcelo, atento, respeitoso — um tipo de cuidado silencioso que os homens reconhecem facilmente.
Ele percebeu no jeito de Santiago um detalhe que sempre considerou essencial: aquele homem não competia com o mundo. Ele competia apenas consigo mesmo para ser digno dela. E isso… isso acalmou um ponto dentro de Rogério que ele nem sabia que estava gritando.
Helena riu de algo que a mãe disse. Uma risada verdadeira, leve, solta — diferente das tantas risadas educadas que ela dava no passado, obrigadas, quase pedindo desculpas por existir.
Ele sentiu a garganta apertar.
“Quando foi que perdi essas nuances?
Quando foi que deixei de ver minha menina sufocando?
Como pude acreditar por tanto tempo que ela estava bem?”
A culpa veio como um sopro quente, mas não permaneceu. Porque Helena agora estava cercada — por amigos leais, por segurança real, por amor verdadeiro.
E porque Santiago, apesar de ainda jovem, exalava uma maturidade que impressionava Rogério.
Não era um homem tentando ser mais do que era. Era um homem inteiro, transparente. E um homem inteiro era exatamente o que Helena precisava.
Rogério passou a mão devagar pela barba grisalha, contemplativo.
Ele a ama. E ela… finalmente encontrou alguém que a enxerga.
O pensamento trouxe algo inesperado: paz. Uma paz que ele não sentia desde muito antes do divórcio da filha.
Consuelo chamou seu nome e ele a olhou — o amor da sua vida, a mulher que sempre percebeu o que ele escondia. Ela sorriu de canto, como se lesse seus pensamentos.
Rogério respirou fundo, como se endireitasse uma peça interna que estava fora do lugar há anos.
Sim. Ele confiaria em Santiago. E, mais importante… ele confiaria na força da filha.
Ela estava exatamente onde deveria estar.
...
O clima já havia suavizado um pouco. Enquanto Marcelo servia o café, Consuelo conversava baixo com a filha, acariciando-lhe a mão. Só então percebeu o anel.
— Helena… — a voz saiu num sussurro que misturava surpresa e emoção. — O que é isso?
Helena olhou para o próprio dedo, já sabendo do que se tratava, e um sorriso tímido se abriu antes mesmo que ela respondesse.
— Ah… isso. — murmurou, baixinho. — Ontem à noite… Santiago e eu… assumimos um compromisso.
Os olhos de Consuelo se encheram de lágrimas imediatas, como se o coração tivesse se comprimido e florescido ao mesmo tempo.
— Minha filha… — ela levou a mão à boca, emocionada.
Rogério, ajeitou os óculos.
— Posso ver? — perguntou, com a voz grave, mas suave.
Helena estendeu a mão na direção dele. Rogério segurou os dedos da filha com cuidado, como se temesse quebrar algo precioso, e examinou a delicadeza do metal.
— Ele escolheu bem… — murmurou, concordando com a cabeça. — É discreto, elegante… mas forte. Combina com você.
Helena sentiu o peito aquecer.
— Você está feliz? — perguntou Rogério, levantando o olhar para ela com aquela sinceridade que só pais muito bons conseguem ter.
— Muito! — Respondeu Helena, com a verdade fluindo inteira na voz.
Consuelo sorriu largo, enxugando as lágrimas que insistiam em cair.
Santiago, se aproximou com humildade.
— Senhores Duarte… é um compromisso de namoro, mas quero que saibam que só não é de noivado ainda porque não quero pular nenhuma etapa com a filha de vocês.
A frase fez Helena rir baixinho, e Consuelo soltou um suspiro sonhador que fez Rogério revirar os olhos — mas sorrir logo em seguida.
— Bom… — disse o pai, tentando disfarçar a emoção enquanto levantava a sobrancelha para Santiago. — Se vai fazer parte da família, então trate de fazer direito.
Santiago assentiu com firmeza.
— Pode deixar comigo, senhor Duarte.
Consuelo puxou a filha de volta para seus braços, abraçando-a como quem agradece ao mundo inteiro.
— Você merece tudo meu amor. Absolutamente tudo.
Helena fechou os olhos perdida no abraço, interrompido pela campainha que tocou pela segunda vez naquela manhã. Antes que alguém chegasse à porta, ela simplesmente se abriu com um empurrão decidido.
— Pelo amor de Deus, HELENA! — a voz de Lívia cortou o ar como um foguete entrando na atmosfera. — Você não tem noção! As matérias sobre vocês estão…
Ela entrou gesticulando, o celular na mão, os passos ecoando como se tivesse sido enviada por dramaturgia divina.
— …ABSURDAS! Você viu? Você VIU? Tem revista chamando vocês de “o casal da arte”! E outra dizendo que...
Ela finalmente olhou para frente. E congelou. Piscou uma vez. Duas. Três.
— ...tia Lelo? Tio Rogério?
Helena já ria antes mesmo de falar.
— Bom dia, Lívia.
— Eu não sabia que vocês estavam aqui — disse Livia feliz, já os abraçando.
Consuelo riu, surpresa com a própria reação.
— Minha querida. Você, como sempre, é uma força da natureza.



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