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Quadros de um divórcio romance Capítulo 110

“Nada assusta mais do que ver alguém que você acreditava conhecer se transformar diante dos seus olhos.”

O vento frio da noite bateu no rosto de Cássio assim que eles dobraram a esquina da galeria. Ele caminhava rápido, respirando como um touro prestes a investir, enquanto Silvia choramingava ao seu lado e Tânia resmungava atrás.

Renato fechou a porta do carro com mais força do que pretendia. A raiva dele não era igual à de Cássio — era um tipo de irritação cansada, saturada.

Ele olhou para o amigo por um momento longo demais, analisando-o.

Cássio mantinha o maxilar travado, os olhos vermelhos, ainda tomado por uma mistura de humilhação e fúria que beirava o irracional.

— Cássio… — Renato começou, controlando o tom para não acender mais o pavio — você precisa parar.

O outro se virou bruscamente.

— Parar o quê, exatamente?! — rosnou. — Viu o que ela fez? Ela me provocou. Aquilo ali foi um ataque, um teatrinho barato pra me humilhar!

Renato respirou fundo, passando a mão pelo rosto.

— Você já estava se humilhando antes dela abrir a boca.

Cássio deu um passo para frente, como se não tivesse ouvido direito.

— Como é que é?

— Você ouviu. — A voz de Renato saiu firme. — A forma como entrou naquele salão… a forma como olhou para ela… parecia um homem à beira de perder o controle. Todos perceberam. Todos.

Cássio fechou as mãos em punho.

— Eu só queria falar com ela. É pedir demais?!

— Sim — respondeu Renato sem hesitar. — Desse jeito, é pedir demais. Você não quer uma conversa. Você quer um passado que não existe mais.

Tânia tentou intervir:

— Renato, por que está falando assim com ele? Você viu o que aquela mulher...

— Tânia, por favor. — Ele levantou a mão sem olhar para ela. — Não torna isso pior.

Cássio respirou fundo, trêmulo.

— Eu só… eu só quero que ela me escute. Que ela não me trate como se eu fosse… descartável.

Renato o observou, e naquele instante percebeu algo que sempre evitou admitir:

Cássio não estava lutando por amor. Estava lutando por controle. E estava perdendo.

— Ela não te trata como descartável — disse Renato, mais calmo agora. — Você sim a tratava assim. Ela só… seguiu com a própria vida.

Essa frase atingiu Cássio como uma fisgada interna. Ele desviou o olhar, respirando forte.

— Você vai tomar o lado dela também?

Renato demorou alguns segundos antes de responder.

— Eu não estou tomando lado de ninguém — respondeu. — Só estou dizendo a verdade que você precisa ouvir. Porque ninguém mais tem coragem de dizer.

Cássio riu sem humor, um som amargo.

— Você acha que eu sou o vilão dessa história, não é?

Renato sustentou o olhar dele.

— Eu acho que você está se tornando um. E não precisa.

Silvia fungou alto ao lado, mas nem isso tirou a atenção dos dois homens.

— Você me viu lá dentro, Renato! — Cássio insistiu. — Ele falou como se ela fosse dele! Ele se acha melhor do que eu, mais digno…

— Não é sobre ele — Renato cortou. — Nunca foi. É sobre você não aceitar que ela seguiu em frente.

Cássio fechou os olhos como se tivesse sido atingido.

Renato continuou:

— Você perdeu a compostura. Perdeu a razão. E se não tomar cuidado… vai perder a si mesmo.

O silêncio que se formou era denso, cheio de tudo que Cássio não admitiria nem sob tortura.

Por fim, Renato concluiu:

— Chega, Cássio. Por você. Não por ela. Procure ajuda. Respira. Some por uns dias. Faz alguma coisa que não envolva perseguir a Helena. Porque do jeito que você está… isso não vai acabar bem.

Cássio abriu os olhos lentamente. E neles havia algo novo. Não era entendimento. Não era arrependimento. Era algo perigoso. Um vislumbre do homem que estava se quebrando de dentro para fora.

— Eu não vou desistir. — disse num sussurro rouco, definitivo.

Renato sentiu um arrepio subir pela coluna.

— Então — respondeu, firme — vai se perder sozinho.

E entrou no carro, fechando a porta com a certeza amarga de que aquela conversa não tinha sido o fim de nada.

...

A viagem de volta foi sufocante.

Dentro do carro, o silêncio tinha peso.

Não o silêncio confortável entre duas pessoas, mas aquele denso, quase viscoso, que nasce quando cada um está preso na própria mente.

Cássio remoía a raiva dentro de si, encarando a estrada com os olhos apertados, o maxilar marcado por tensão bruta. Enquanto Silvia ainda se preocupava com o vídeo de sua encenação.

Chegaram em casa do mesmo jeito que saíram da galeria: mudos, distantes, cada um vivendo um pesadelo particular. Ele jogou as chaves sobre o aparador e subiu as escadas sem olhar para ela. Silvia ficou parada na sala, abraçando o próprio corpo, sem coragem de chamá-lo.

Dormiram no mesmo quarto. Mas pareciam não dividir o mesmo ar.

Ele apagou como quem desmaia.

Ela ficou acordada por mais de uma hora, imaginando as consequências da noite anterior, e sobretudo… o risco de vazar o vídeo que a mostrasse de verdade.

Quando enfim adormeceu, foi de exaustão emocional.

Silvia acordou cedo. Talvez para tentar consertar algo.

Ajeitou o café da manhã retirando as quitandas encomendadas das embalagens. Mas quando Cássio desceu, não pareceu sequer reparar.

Ele estava de camisa social, o rosto tenso, a barba malfeita que o deixava ainda mais rústico e irritadiço.

— Você vai trabalhar hoje? — perguntou ela, tentando soar casual.

— Preciso — respondeu seco, pegando apenas um copo de suco.

Ele bebeu em dois goles, largou o copo sobre a bancada sem olhar para ela, pegou a pasta e seguiu para a porta.

— Cássio… — ela chamou, hesitante.

Ele parou, mas não se virou totalmente.

— Depois conversamos — disse apenas, e saiu.

Silvia ficou olhando a porta fechar, sentindo uma pontada estranha no peito.

Não era culpa. Era medo.

...

A sede do Studio Cassiani, normalmente ruidosa e viva, parecia mais fria naquele sábado. Talvez fosse só a percepção dele, distorcida pela fissura crescendo dentro de si.

Ao entrar, esperava encontrar Renato — como sempre.

Mas o escritório estava vazio. A luz apagada. Os papéis organizados demais.

Aquilo incomodou. Renato nunca faltava em sábado de pós-viagem. Era quase uma regra tácita entre os dois.

— Onde ele está? — murmurou, caminhando até sua mesa.

“Renato estava… evitando ele? Por quê?”

“Você sabe por quê”, uma voz interna respondeu, ácida. Mas Cássio ignorou.

Sentou-se, respirou fundo, abriu o computador e começou a analisar o que havia sido feito durante sua ausência.

Saber que os protótipos da coleção Inércia estavam quase concluídos trouxe um lampejo de alívio. Sim. Renato era excelente no que fazia — até no que não precisava fazer.

Quando abriu o e-mail, viu o nome do advogado: Riviera. E seu corpo inteiro enrijeceu.

Clicou. A mensagem era curta e objetiva:

“Mexi meus pauzinhos.

A audiência de anulação do divórcio foi marcada para terça.

Segue em anexo documento com mais informações.”

Cássio não piscou. Não respirou. Por um segundo inteiro, ficou imóvel — como se a frase tivesse paralisado sua alma. E então uma nova força acendeu dentro dele. Uma força errada. Torta e escura.

Uma espécie de combustível perigoso que sorrateiramente se misturou ao seu sangue. Ele se recostou na cadeira, sentindo o estômago vibrar.

— Ah, ótimo. Agora você também vai fazer cara de santo ofendido? — disparou ela. — Porque, me desculpe, mas eu não achei que foi pra tanto. Aquela mulher...

— Tânia. — Ele a interrompeu, a voz baixa porém firme. — Não começa.

Ela cruzou os braços com força.

— Não vou mesmo começar. Vou terminar: a Helena provocou. Ela sempre provocou. Não sei por que todo mundo a trata como vítima agora! A Silvia está grávida, Ren. Grá-vi-da. E você viu o que aconteceu!

Renato fechou os olhos por um segundo, como quem tenta manter o controle.

— Eu vi, sim — respondeu ele. — Vi um teatro barato.

— Como você pode ter tanta certeza?! — ela rebateu, indignada. — A Helena nunca foi santa, você sabe!

Renato ergueu o olhar, cansado.

— E Cássio é o quê? O patrono da moralidade?

Tânia travou a mandíbula.

— Ele está sofrendo, Renato. Eu vejo isso. Não entendo o porquê, mas ele ainda a ama. E você deveria ser o primeiro a entender isso!

— Amor? — Renato soltou uma risada incrédula. — O que ele sente não é amor, Tânia! É posse. É obsessão. É… doença! Você mesmo acabou de falar, a Silvia esta grávida. Ele traiu a Helena com ela e essa gravidez é a prova disso.

Ela deu um passo para trás, como se tivesse levado um tapa.

— Você não devia falar assim dele.

— Deveria sim — respondeu Renato, agora sem rodeios. — Porque ontem eu vi um homem que eu não reconheço mais. Um homem capaz de qualquer coisa para não aceitar que perdeu o controle. E você… — ele a olhou profundamente — você está alimentando isso.

Os olhos dela se arregalaram.

— Eu? Eu só estava tentando apoiar minha amiga!

Renato balançou a cabeça.

— Sua amiga? Pelo amor de Deus, o que você sabe sobre ela? Se a sua amiga é tão inocente assim, por que ela não chamou a polícia ontem?

Ele deu tempo para que ela pudesse responder, mas a resposta não veio.

— Me diz outra coisa... o que a Helena te fez para você a odiar tanto?

Silvia abriu a boca, mas nada saiu. Por mais que puxasse pela memória, nada veio a sua mente a não ser diversas cenas dela mesma e Viviane a provocando e humilhando.

— Está vendo! — Ele disse cansado. — Nós compramos tudo que Cássio falou sobre ela como verdade. Tomamos as dores que ele nem tinha e pior, nos tornamos tão frios a ponto de feri-la também sem ao menos termos motivos.

Renato respirou fundo, tentando manter a calma.

— Ela era a autora das coleções, ela ficava em casa desenhando enquanto ele roubava toda a glória do trabalho dela. E se não bastasse, a pintou como uma mulher inútil, uma simples dona de casa, uma interesseira.

Tânia não queria aceitar ter sido tão cruel com uma pessoa que não merecia, mesmo que as palavras do marido a faziam concluir o contrário.

— O que está acontecendo, segundo você? — ela devolveu com ironia. — Ilumina minha ignorância, por favor.

Renato se aproximou, com a voz mais baixa, porém mais firme do que antes.

— Cássio está à beira de fazer algo muito grave. E eu não vou ficar perto dele quando isso acontecer. Não vou ajudar. Não vou acobertar. Não vou fingir que está tudo bem porque ele é meu “amigo”.

Tânia ficou muda. Por alguns segundos, o silêncio entre eles foi tão denso que parecia uma parede.

— Você vai abandoná-lo? — perguntou ela, incrédula.

— Eu vou me proteger dele. — respondeu Renato.

Os olhos de Tânia tremeram. Ela queria atirar outra frase, outro argumento, mas pela primeira vez… hesitou.

— Você está com medo dele? — murmurou.

Renato demorou a responder. Mas respondeu:

— Estou. E você deveria estar também.

A expressão dela finalmente vacilou — um pequeno colapso de insegurança em meio ao orgulho.

Ele continuou, mais suave agora:

— Eu… eu não posso mais ser cúmplice disso.

E então ele saiu da cozinha, deixando Tânia parada, abraçando o próprio corpo, sentindo pela primeira vez um frio real:

Não o da casa, mas o da verdade chegando, implacável.

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