“Nada assusta mais do que ver alguém que você acreditava conhecer se transformar diante dos seus olhos.”
O vento frio da noite bateu no rosto de Cássio assim que eles dobraram a esquina da galeria. Ele caminhava rápido, respirando como um touro prestes a investir, enquanto Silvia choramingava ao seu lado e Tânia resmungava atrás.
Renato fechou a porta do carro com mais força do que pretendia. A raiva dele não era igual à de Cássio — era um tipo de irritação cansada, saturada.
Ele olhou para o amigo por um momento longo demais, analisando-o.
Cássio mantinha o maxilar travado, os olhos vermelhos, ainda tomado por uma mistura de humilhação e fúria que beirava o irracional.
— Cássio… — Renato começou, controlando o tom para não acender mais o pavio — você precisa parar.
O outro se virou bruscamente.
— Parar o quê, exatamente?! — rosnou. — Viu o que ela fez? Ela me provocou. Aquilo ali foi um ataque, um teatrinho barato pra me humilhar!
Renato respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— Você já estava se humilhando antes dela abrir a boca.
Cássio deu um passo para frente, como se não tivesse ouvido direito.
— Como é que é?
— Você ouviu. — A voz de Renato saiu firme. — A forma como entrou naquele salão… a forma como olhou para ela… parecia um homem à beira de perder o controle. Todos perceberam. Todos.
Cássio fechou as mãos em punho.
— Eu só queria falar com ela. É pedir demais?!
— Sim — respondeu Renato sem hesitar. — Desse jeito, é pedir demais. Você não quer uma conversa. Você quer um passado que não existe mais.
Tânia tentou intervir:
— Renato, por que está falando assim com ele? Você viu o que aquela mulher...
— Tânia, por favor. — Ele levantou a mão sem olhar para ela. — Não torna isso pior.
Cássio respirou fundo, trêmulo.
— Eu só… eu só quero que ela me escute. Que ela não me trate como se eu fosse… descartável.
Renato o observou, e naquele instante percebeu algo que sempre evitou admitir:
Cássio não estava lutando por amor. Estava lutando por controle. E estava perdendo.
— Ela não te trata como descartável — disse Renato, mais calmo agora. — Você sim a tratava assim. Ela só… seguiu com a própria vida.
Essa frase atingiu Cássio como uma fisgada interna. Ele desviou o olhar, respirando forte.
— Você vai tomar o lado dela também?
Renato demorou alguns segundos antes de responder.
— Eu não estou tomando lado de ninguém — respondeu. — Só estou dizendo a verdade que você precisa ouvir. Porque ninguém mais tem coragem de dizer.
Cássio riu sem humor, um som amargo.
— Você acha que eu sou o vilão dessa história, não é?
Renato sustentou o olhar dele.
— Eu acho que você está se tornando um. E não precisa.
Silvia fungou alto ao lado, mas nem isso tirou a atenção dos dois homens.
— Você me viu lá dentro, Renato! — Cássio insistiu. — Ele falou como se ela fosse dele! Ele se acha melhor do que eu, mais digno…
— Não é sobre ele — Renato cortou. — Nunca foi. É sobre você não aceitar que ela seguiu em frente.
Cássio fechou os olhos como se tivesse sido atingido.
Renato continuou:
— Você perdeu a compostura. Perdeu a razão. E se não tomar cuidado… vai perder a si mesmo.
O silêncio que se formou era denso, cheio de tudo que Cássio não admitiria nem sob tortura.
Por fim, Renato concluiu:
— Chega, Cássio. Por você. Não por ela. Procure ajuda. Respira. Some por uns dias. Faz alguma coisa que não envolva perseguir a Helena. Porque do jeito que você está… isso não vai acabar bem.
Cássio abriu os olhos lentamente. E neles havia algo novo. Não era entendimento. Não era arrependimento. Era algo perigoso. Um vislumbre do homem que estava se quebrando de dentro para fora.
— Eu não vou desistir. — disse num sussurro rouco, definitivo.
Renato sentiu um arrepio subir pela coluna.
— Então — respondeu, firme — vai se perder sozinho.
E entrou no carro, fechando a porta com a certeza amarga de que aquela conversa não tinha sido o fim de nada.
...
A viagem de volta foi sufocante.
Dentro do carro, o silêncio tinha peso.
Não o silêncio confortável entre duas pessoas, mas aquele denso, quase viscoso, que nasce quando cada um está preso na própria mente.
Cássio remoía a raiva dentro de si, encarando a estrada com os olhos apertados, o maxilar marcado por tensão bruta. Enquanto Silvia ainda se preocupava com o vídeo de sua encenação.
Chegaram em casa do mesmo jeito que saíram da galeria: mudos, distantes, cada um vivendo um pesadelo particular. Ele jogou as chaves sobre o aparador e subiu as escadas sem olhar para ela. Silvia ficou parada na sala, abraçando o próprio corpo, sem coragem de chamá-lo.
Dormiram no mesmo quarto. Mas pareciam não dividir o mesmo ar.
Ele apagou como quem desmaia.
Ela ficou acordada por mais de uma hora, imaginando as consequências da noite anterior, e sobretudo… o risco de vazar o vídeo que a mostrasse de verdade.
Quando enfim adormeceu, foi de exaustão emocional.
Silvia acordou cedo. Talvez para tentar consertar algo.
Ajeitou o café da manhã retirando as quitandas encomendadas das embalagens. Mas quando Cássio desceu, não pareceu sequer reparar.
Ele estava de camisa social, o rosto tenso, a barba malfeita que o deixava ainda mais rústico e irritadiço.
— Você vai trabalhar hoje? — perguntou ela, tentando soar casual.
— Preciso — respondeu seco, pegando apenas um copo de suco.
Ele bebeu em dois goles, largou o copo sobre a bancada sem olhar para ela, pegou a pasta e seguiu para a porta.
— Cássio… — ela chamou, hesitante.
Ele parou, mas não se virou totalmente.
— Depois conversamos — disse apenas, e saiu.
Silvia ficou olhando a porta fechar, sentindo uma pontada estranha no peito.
Não era culpa. Era medo.
...
A sede do Studio Cassiani, normalmente ruidosa e viva, parecia mais fria naquele sábado. Talvez fosse só a percepção dele, distorcida pela fissura crescendo dentro de si.
Ao entrar, esperava encontrar Renato — como sempre.
Mas o escritório estava vazio. A luz apagada. Os papéis organizados demais.
Aquilo incomodou. Renato nunca faltava em sábado de pós-viagem. Era quase uma regra tácita entre os dois.
— Onde ele está? — murmurou, caminhando até sua mesa.
“Renato estava… evitando ele? Por quê?”
“Você sabe por quê”, uma voz interna respondeu, ácida. Mas Cássio ignorou.
Sentou-se, respirou fundo, abriu o computador e começou a analisar o que havia sido feito durante sua ausência.
Saber que os protótipos da coleção Inércia estavam quase concluídos trouxe um lampejo de alívio. Sim. Renato era excelente no que fazia — até no que não precisava fazer.
Quando abriu o e-mail, viu o nome do advogado: Riviera. E seu corpo inteiro enrijeceu.
Clicou. A mensagem era curta e objetiva:
“Mexi meus pauzinhos.
A audiência de anulação do divórcio foi marcada para terça.
Segue em anexo documento com mais informações.”
Cássio não piscou. Não respirou. Por um segundo inteiro, ficou imóvel — como se a frase tivesse paralisado sua alma. E então uma nova força acendeu dentro dele. Uma força errada. Torta e escura.
Uma espécie de combustível perigoso que sorrateiramente se misturou ao seu sangue. Ele se recostou na cadeira, sentindo o estômago vibrar.


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