Helena saiu pelas portas do hospital, o sol refletia em sua pele como se quisesse lembrá-la de que o mundo ainda existia — e que havia vida além da dor.
O céu estava de um azul quase insolente, e o vento que soprava leve parecia acariciar-lhe o rosto como um consolo silencioso.
Fechou os olhos e respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu o ar preencher-lhe os pulmões completamente, sem as amarras de uma vida que já não era sua.
Seria aquele o primeiro sopro da liberdade?
O celular vibrou em sua mão. A tela acendeu com uma notificação. Silvia.
“Está vendo? Mesmo com você ferida, ele preferiu a mim. Ele sempre vai preferir a mim!”
Helena encarou a mensagem por alguns segundos. Nenhuma lágrima, nenhum tremor. Apenas um riso breve escapou, leve e quase doce — o riso de quem finalmente entendeu.
Bloqueou a tela sem hesitar, guardou o telefone na bolsa e ergueu a mão para chamar um táxi.
O caminho até em casa pareceu mais longo do que nunca, e ao mesmo tempo, curto demais.
Quando atravessou a porta, o ar parecia diferente, denso, estranho. Aquele lugar que antes lhe era tão comum agora lhe parecia um cenário abandonado, uma pintura antiga coberta de promessas quebradas. Cada canto guardava uma lembrança, cada móvel parecia observar seu retorno com pesar.
“Cinco dias”, pensou. Cinco dias para encerrar esse ciclo, para apagar qualquer vestígio de um amor que havia se tornado uma prisão.
Começou a andar pela casa em silêncio, recolhendo as fotos que decoravam as prateleiras e as paredes. Cada imagem era uma mentira congelada no tempo — ela, sempre sorrindo, vibrante, e ele, com o olhar distante, como se suportasse estar ali apenas por conveniência.
Por que nunca havia notado isso antes?
Com uma camisola de seda branca que deslizava suavemente sobre o corpo e os cabelos castanhos soltos, ainda úmidos do banho, serviu-se de uma taça de vinho tinto, sentou-se em frente à lareira e começou a jogar as fotos, uma a uma, nas chamas.
As imagens se contorciam, escureciam e viravam cinzas — e a cada fotografia que se desfazia, algo dentro dela se libertava também.
Era como assistir à própria alma queimando para renascer mais leve, mais lúcida.
O som da porta abrindo rompeu o silêncio. Cássio entrou sem anunciar-se, com o mesmo ar de autoridade e tédio que o acompanhava há anos.
Ele a olhou por um instante, sentada no chão, o brilho do fogo refletindo nos olhos dela.
— O que é isso agora, Helena? Outro dos seus dramas? — perguntou, com uma pontada de desconfiança e impaciência.
Helena não respondeu. Apenas o fitou, serena, inatingível. A frieza no olhar dela o perturbou.
Ela estava linda, absurdamente linda — mas havia algo diferente. A doçura havia desaparecido, e no lugar dela restava uma força calma, que o deixava desconfortável.
— Olha... eu sei que tenho te negligenciado — começou, a voz tentando parecer conciliadora. — Mas a empresa tem exigido muito de mim. A Silvia tem me ajudado bastante, mas você não precisa confundir as coisas.
Ele coçou a nuca, incerto, como quem procura palavras que não acredita.
Ergueu a taça diante das chamas. Um novo reflexo surgiu no vinho: o dela, diferente, sereno e forte.
Sorriu de leve. O silêncio, antes insuportável, agora era sua mais doce companhia.
Permaneceu por longos minutos olhando o fogo, até que o crepitar das últimas brasas começou a se misturar ao som distante do relógio da sala. O tic-tac soava alto demais.
O vinho em sua taça já havia acabado, mas ela ainda sentia o calor do fogo refletindo em sua pele.
Levantou-se, caminhou lentamente até o corredor lateral, aquele que terminava num pequeno depósito de limpeza no qual a muito tempo não entrava.
Abriu a porta — o cheiro de mofo e desuso tomou-lhe o ar. Acendeu a luz e ali estavam: pincéis antigos, tubos de tinta endurecida, telas encostadas uma sobre as outras, cobertas por um manto fino de poeira. Refletindo o que havia feito com ela mesma.
Passou os dedos sobre elas, tirando a camada cinzenta, como quem desperta algo que dormia. Puxou uma das telas, limpou-a com o antebraço e a apoiou em um cavalete velho. Então misturou as cores e começou a pintar.
As horas passaram sem que ela percebesse. Lá fora, o vento frio da madrugada soprava pelas frestas da janela, mas dentro daquele pequeno cômodo o ar pulsava quente, vivo.
A cada pincelada, Helena sentia um peso se desprender dos ombros. Pintava não com as mãos, mas com o que restava de sua alma — e no centro da tela, surgia a imagem de uma mulher envolta em chamas suaves, mas não de destruição, de renascimento.
Quando o primeiro raio de sol atravessou a janela, ela deixou o pincel escorregar de seus dedos e observou a pintura em silêncio.
Estava pronta.

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