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Quadros de um divórcio romance Capítulo 12

Helena saiu pelas portas do hospital, o sol refletia em sua pele como se quisesse lembrá-la de que o mundo ainda existia — e que havia vida além da dor.

O céu estava de um azul quase insolente, e o vento que soprava leve parecia acariciar-lhe o rosto como um consolo silencioso.

Fechou os olhos e respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu o ar preencher-lhe os pulmões completamente, sem as amarras de uma vida que já não era sua.

Seria aquele o primeiro sopro da liberdade?

O celular vibrou em sua mão. A tela acendeu com uma notificação. Silvia.

“Está vendo? Mesmo com você ferida, ele preferiu a mim. Ele sempre vai preferir a mim!”

Helena encarou a mensagem por alguns segundos. Nenhuma lágrima, nenhum tremor. Apenas um riso breve escapou, leve e quase doce — o riso de quem finalmente entendeu.

Bloqueou a tela sem hesitar, guardou o telefone na bolsa e ergueu a mão para chamar um táxi.

O caminho até em casa pareceu mais longo do que nunca, e ao mesmo tempo, curto demais.

Quando atravessou a porta, o ar parecia diferente, denso, estranho. Aquele lugar que antes lhe era tão comum agora lhe parecia um cenário abandonado, uma pintura antiga coberta de promessas quebradas. Cada canto guardava uma lembrança, cada móvel parecia observar seu retorno com pesar.

“Cinco dias”, pensou. Cinco dias para encerrar esse ciclo, para apagar qualquer vestígio de um amor que havia se tornado uma prisão.

Começou a andar pela casa em silêncio, recolhendo as fotos que decoravam as prateleiras e as paredes. Cada imagem era uma mentira congelada no tempo — ela, sempre sorrindo, vibrante, e ele, com o olhar distante, como se suportasse estar ali apenas por conveniência.

Por que nunca havia notado isso antes?

Com uma camisola de seda branca que deslizava suavemente sobre o corpo e os cabelos castanhos soltos, ainda úmidos do banho, serviu-se de uma taça de vinho tinto, sentou-se em frente à lareira e começou a jogar as fotos, uma a uma, nas chamas.

As imagens se contorciam, escureciam e viravam cinzas — e a cada fotografia que se desfazia, algo dentro dela se libertava também.

Era como assistir à própria alma queimando para renascer mais leve, mais lúcida.

O som da porta abrindo rompeu o silêncio. Cássio entrou sem anunciar-se, com o mesmo ar de autoridade e tédio que o acompanhava há anos.

Ele a olhou por um instante, sentada no chão, o brilho do fogo refletindo nos olhos dela.

— O que é isso agora, Helena? Outro dos seus dramas? — perguntou, com uma pontada de desconfiança e impaciência.

Helena não respondeu. Apenas o fitou, serena, inatingível. A frieza no olhar dela o perturbou.

Ela estava linda, absurdamente linda — mas havia algo diferente. A doçura havia desaparecido, e no lugar dela restava uma força calma, que o deixava desconfortável.

— Olha... eu sei que tenho te negligenciado — começou, a voz tentando parecer conciliadora. — Mas a empresa tem exigido muito de mim. A Silvia tem me ajudado bastante, mas você não precisa confundir as coisas.

Ele coçou a nuca, incerto, como quem procura palavras que não acredita.

Capítulo 12 - Entre o fogo e a tinta 1

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