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Quadros de um divórcio romance Capítulo 156

“Quando a composição é verdadeira, nenhum elemento sobra.”

No restante do dia, Renato e Cássio se dedicaram a esboçar a disposição dos móveis no estande. O trabalho fluía com leveza. Para Cássio, havia um alívio silencioso em dividir decisões outra vez — a amizade com Renato parecia, enfim, ter se recomposto, suavizando a solidão que vinha se acumulando havia dias.

Como a coleção era essencialmente minimalista, as peças dialogavam entre si com facilidade. Não havia espaço — nem necessidade — para excessos. A proposta pedia respiro, linhas claras, poucos elementos além do indispensável.

Quando chegaram ao desenho final, os dois ficaram alguns segundos em silêncio, observando o resultado.

— Ficou muito bom — disse Renato, confiante.

Cássio assentiu, mas o olhar permanecia tenso.

— Precisa ser mais do que bom. Precisa ser excelente — respondeu. — Eles estão divulgando até em comerciais de TV. O alcance é mundial. Temos que compensar isso de alguma forma.

Renato apoiou as mãos na mesa.

— Você não precisa se medir pela concorrência — disse com firmeza. — Precisamos apenas fazer o nosso melhor.

Cássio concordou com a cabeça. Ainda assim, por dentro, a comparação insistia em permanecer, como um ruído baixo que ele não conseguia desligar.

...

Na fazenda, a noite seguia viva e acolhedora. As luzes penduradas lançavam um brilho morno sobre as conversas, e as mulheres falavam todas ao mesmo tempo, embaladas pela novidade que parecia renovar o ar do lugar. O assunto, invariavelmente, era o casamento e o bebê.

Olívia, radiante, já gesticulava como quem desenha planos no ar.

— Vou preparar um quarto só para ele aqui na fazenda — anunciou, orgulhosa. —Esse pequeno vai ter o próprio cantinho na casa da bisa. E o berço da família vai voltar a ser usado — disse, quase solene. — Ficou guardado tempo demais. Já estava na hora de embalar outra geração.

Helena observava tudo em silêncio, sentada ao lado de Santiago, com a mão dele firme sobre a sua. Havia algo profundamente reconfortante em vê-los falar daquele futuro como se ele já estivesse ali, palpável, seguro.

— Aiii… — suspirou Lívia, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão. — Dá até vontade de ter um bebê também.

Olívia não perdeu a deixa. Inclinou-se para a frente, com um sorriso travesso.

— Se quiser usar o celeiro de novo, fique à vontade — disse, lançando um olhar nada inocente para Pedro.

— Não! — Lívia se apressou em cortar o assunto. — Naquele dia não aconteceu nada. — Virou-se para Pedro, buscando apoio. — Não foi?

Pedro limitou-se a virar o rosto, como se a conversa não fosse com ele.

— Pedro! — ela chiou, escandalizada.

A gargalhada foi geral.

— Eu também não vejo a hora de pegar meu netinho no colo — disse Maitê, ainda rindo —, mas antes disso temos um casamento para planejar. — Ela pousou a mão sobre a de Consuelo, animada. — Prioridades.

— Você tem razão — concordou a mãe de Helena. — Primeiro precisamos decidir o lugar.

Ela voltou o olhar para ela.

— O que acha, minha filha? Prefere algo ao ar livre ou um salão?

Helena observou a varanda iluminada, as luzes penduradas, o gramado que se estendia até onde a vista alcançava. Aquele cenário carregava calma, memória e futuro. Então se virou para Santiago.

— E se fizermos aqui mesmo, na fazenda?

O sorriso dele foi imediato, inteiro.

— Seria maravilhoso — respondeu, sem hesitar. — Onde você escolher, eu estarei ao seu lado.

Ele beijou o rosto dela com carinho, arrancando suspiros quase uníssonos entre as mulheres.

Consuelo não perdeu a chance e se voltou para Maitê, visivelmente emocionada.

— Você educou meu genro muito bem.

A sogra de Helena sorriu, tocada pelo elogio, mas antes que respondesse, Olívia se adiantou, como quem reivindica um território afetivo.

Entre risadas, Helena e Santiago se posicionaram diante da mesa, entre duas colunas de madeira. Tecidos brancos pendiam como cortinas leves, presos aos pilares por arranjos florais que se repetiam na decoração da mesa. Sobre a toalha igualmente branca, um bolo de dois andares se destacava pela simplicidade elegante.

Uma luminária de cordas descia do teto, lançando uma luz suave que envolvia o espaço e tornava tudo ainda mais acolhedor.

Mesmo sem ter planejado um noivado formal, o vestido rendado branco de Helena, combinado às botas, parecia feito sob medida para aquele momento.

Lívia não perdeu tempo, registrando tudo com entusiasmo enquanto o casal cortava o bolo junto — as mãos sobrepostas na espátula, trocando olhares cúmplices e sorrisos que diziam mais do que qualquer palavra. O carinho entre eles era quase palpável.

Depois veio o brinde. Taças erguidas, os braços entrelaçados: champagne para Santiago, suco para Helena. Beberam juntos, sob os flashes animados da amiga.

Eles comeram até se darem por satisfeitos com os quitutes preparados por Olívia e Maitê. A mesa ainda estava farta, mas o ritmo da noite já tinha mudado. Os homens conversavam animados, copos na mão, risadas um pouco mais soltas do que o habitual — sinais claros de que o álcool começava a surtir efeito.

A noite avançava quando Helena bocejou, sem conseguir disfarçar.

— Você está com sono — murmurou Santiago, inclinando-se até ela. — Que tal fugirmos agora?

Helena lançou um olhar ao redor, observando a quantidade de gente espalhada pela varanda.

— Será que vai caber todo mundo aqui? — perguntou, preocupada.

Ele sorriu, tranquilo.

— Vai sim. A casa tem muitos quartos, e a vovó já deixou tudo organizado. Além disso… — fez uma pausa, cúmplice — nós não vamos ficar aqui de qualquer forma.

— Como assim, não vamos? — ela franziu o cenho, confusa.

Santiago esperou o momento exato em que todos estavam distraídos, então passou um braço firme por trás das pernas dela e a ergueu no colo de uma vez só. Helena levou a mão à boca, segurando um grito, enquanto ele fazia um gesto silencioso pedindo discrição.

Sem pressa, mas decidido, desceu os degraus da varanda e contornou a lateral da casa. Ali, à meia-luz, um dos triciclos já os aguardava.

O motor foi ligado e, quando o som começou a se afastar pelo caminho de terra, finalmente alguém percebeu. Risadas, palmas e assobios ecoaram pelo quintal enquanto eles fugiam.

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