“Quando a composição é verdadeira, nenhum elemento sobra.”
No restante do dia, Renato e Cássio se dedicaram a esboçar a disposição dos móveis no estande. O trabalho fluía com leveza. Para Cássio, havia um alívio silencioso em dividir decisões outra vez — a amizade com Renato parecia, enfim, ter se recomposto, suavizando a solidão que vinha se acumulando havia dias.
Como a coleção era essencialmente minimalista, as peças dialogavam entre si com facilidade. Não havia espaço — nem necessidade — para excessos. A proposta pedia respiro, linhas claras, poucos elementos além do indispensável.
Quando chegaram ao desenho final, os dois ficaram alguns segundos em silêncio, observando o resultado.
— Ficou muito bom — disse Renato, confiante.
Cássio assentiu, mas o olhar permanecia tenso.
— Precisa ser mais do que bom. Precisa ser excelente — respondeu. — Eles estão divulgando até em comerciais de TV. O alcance é mundial. Temos que compensar isso de alguma forma.
Renato apoiou as mãos na mesa.
— Você não precisa se medir pela concorrência — disse com firmeza. — Precisamos apenas fazer o nosso melhor.
Cássio concordou com a cabeça. Ainda assim, por dentro, a comparação insistia em permanecer, como um ruído baixo que ele não conseguia desligar.
...
Na fazenda, a noite seguia viva e acolhedora. As luzes penduradas lançavam um brilho morno sobre as conversas, e as mulheres falavam todas ao mesmo tempo, embaladas pela novidade que parecia renovar o ar do lugar. O assunto, invariavelmente, era o casamento e o bebê.
Olívia, radiante, já gesticulava como quem desenha planos no ar.
— Vou preparar um quarto só para ele aqui na fazenda — anunciou, orgulhosa. —Esse pequeno vai ter o próprio cantinho na casa da bisa. E o berço da família vai voltar a ser usado — disse, quase solene. — Ficou guardado tempo demais. Já estava na hora de embalar outra geração.
Helena observava tudo em silêncio, sentada ao lado de Santiago, com a mão dele firme sobre a sua. Havia algo profundamente reconfortante em vê-los falar daquele futuro como se ele já estivesse ali, palpável, seguro.
— Aiii… — suspirou Lívia, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão. — Dá até vontade de ter um bebê também.
Olívia não perdeu a deixa. Inclinou-se para a frente, com um sorriso travesso.
— Se quiser usar o celeiro de novo, fique à vontade — disse, lançando um olhar nada inocente para Pedro.
— Não! — Lívia se apressou em cortar o assunto. — Naquele dia não aconteceu nada. — Virou-se para Pedro, buscando apoio. — Não foi?
Pedro limitou-se a virar o rosto, como se a conversa não fosse com ele.
— Pedro! — ela chiou, escandalizada.
A gargalhada foi geral.
— Eu também não vejo a hora de pegar meu netinho no colo — disse Maitê, ainda rindo —, mas antes disso temos um casamento para planejar. — Ela pousou a mão sobre a de Consuelo, animada. — Prioridades.
— Você tem razão — concordou a mãe de Helena. — Primeiro precisamos decidir o lugar.
Ela voltou o olhar para ela.
— O que acha, minha filha? Prefere algo ao ar livre ou um salão?
Helena observou a varanda iluminada, as luzes penduradas, o gramado que se estendia até onde a vista alcançava. Aquele cenário carregava calma, memória e futuro. Então se virou para Santiago.
— E se fizermos aqui mesmo, na fazenda?
O sorriso dele foi imediato, inteiro.
— Seria maravilhoso — respondeu, sem hesitar. — Onde você escolher, eu estarei ao seu lado.
Ele beijou o rosto dela com carinho, arrancando suspiros quase uníssonos entre as mulheres.
Consuelo não perdeu a chance e se voltou para Maitê, visivelmente emocionada.
— Você educou meu genro muito bem.
A sogra de Helena sorriu, tocada pelo elogio, mas antes que respondesse, Olívia se adiantou, como quem reivindica um território afetivo.

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