“O perigo não nasce do que se perde, mas do que alguém se convence de que ainda lhe pertence.”
Cássio tentava se manter concentrado no trabalho, esforçando-se para conter o impulso de ligar para Renato. A ausência do amigo, somada às palavras duras da noite anterior, corroía-o por dentro. Renato sempre fora seu confidente, seu apoio silencioso. Mesmo diante das mentiras, omissões e distorções que ele próprio criara, o amigo permanecera ao seu lado. E agora… agora ele sentia que até aquela amizade estava escorrendo pelos dedos.
Quando percebeu seu devaneio, já havia perdido completamente o fio de entendimento da planilha à sua frente.
Esfregou o rosto com força, levantou-se da cadeira e decidiu ir até a sala da equipe de criação. Porém, assim que atravessou a porta, o telefone vibrou no bolso. Ele pegou o aparelho na esperança de que fosse o amigo, mas o que viu foi o nome do pai iluminando a tela.
Durante a viagem, já tinha ignorado ligações demais da família. Resolveu atender.
— Alô.
— O que aconteceu com você? Estou tentando falar contigo há dias — a voz de Carlos soou impaciente.
— Eu estava viajando, pai. Resolvendo alguns assuntos da empresa.
— Mas não tinha tempo nem para atender uma ligação?
— Me desculpe, está bem? — ele respondeu, evitando outra discussão.
— Contanto que venha almoçar hoje. Sua mãe já preparou tudo.
— Pai, estou cheio de trabalho…
— Sem desculpas. Estamos te esperando.
O pai desligou sem dar-lhe chance de argumentar.
Vencido, Cássio pegou o elevador rumo à garagem, sem perceber que alguém o observava do corredor. Assim que as portas se fecharam, a pessoa caminhou até a porta do escritório dele, entrou com naturalidade e seguiu direto para o computador ainda ligado. Um sorriso despontou em seu rosto.
…
Cássio estacionou em frente à casa dos pais já cansado por antecipação. Cada visita parecia esgotá-lo mais que a anterior.
Respirou fundo e desceu do carro. Entrou sem fazer barulho e seguiu até a sala, onde encontrou a irmã sentada no sofá, de costas para ele, com o notebook aberto no colo. Na tela, uma foto de Helena e Santiago da noite anterior brilhava intensamente.
— O que você está vendo? — ele perguntou, a exasperado.
Viviane se assustou e fechou o notebook às pressas.
— Ah! Você chegou — disse, tentando disfarçar o nervosismo.
Desde cedo, o nome de Helena Duarte já era um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Não como “a ex-mulher de Cássio Amaral” — título que começava a desbotar — mas como algo novo, algo dela, algo que brilhava.
Aquilo deixava Viviane incrédula, ainda mais ao descobrir que Santiago, o homem de quem ela mesma havia tentado se aproximar e que a rejeitara sem hesitação, estava agora firmando compromisso com aquela mulher que ela considerava tão sem graça.
E como podia Helena, recém-divorciada de seu irmão, já estar com outro homem? E justo com aquele que Viviane desejava?
Quando ouviu a voz do irmão, sentiu-se como uma criança pega aprontando. Não queria irritá-lo — ainda dependia do retorno da mesada integral, o que afetava diretamente sua vida social, cada vez mais limitada.
Tudo isso só alimentava o rancor que sentia por Helena.
— Não tenta disfarçar — disse Cássio, a voz afiada. — Me dá isso.
Relutante, ela entregou o notebook e saiu da sala rapidamente, sem querer ser alvo da reação dele.
Cássio acompanhou a saída da irmã com o olhar estreito e só então abriu novamente a tela. Quando ela se reacendeu, a foto se expandiu diante dele com brutal nitidez.
Os dois apareceram sorrindo para câmera, os braços dele ao redor dela de um jeito que parecia natural.
O estômago de Cássio virou como se tivesse engolido algo corrosivo.
Ele prestou mais atenção e notou que se tratava da matéria digital de uma revista, e não era qualquer revista, e sim uma conceituada no ramo de arte. A leitura começou sem que ele percebesse. Cada linha parecia ser escrita para provocá-lo pessoalmente.
...
REVISTA CELEBRARTE
Uma nova artista surge sob as luzes da Galeria Villar - A estreia inesperada e arrebatadora que emocionou a Galeria Villar e apresentou ao mundo uma nova força da pintura contemporânea.
Por Mariana C. Rangel — Fotos: Júlia Menezes
Sim, nós vimos. E sim, eles são ainda mais lindos pessoalmente.
A revista CelebrArte acompanhará de perto o desenvolvimento da artista e adiantamos: este é apenas o começo de uma jornada promissora.
...
O estômago de Cássio se revolveu. O coração batia rápido, duro, irregular.
O texto parecia descrever que Helena encontrou seu verdadeiro lugar… longe dele. A matéria não o citava, mas ele estava em cada linha — como o fantasma do qual Helena havia finalmente se libertado. O texto evitava nomes, mas qualquer um que soubesse do passado deles poderia ler nas entrelinhas.
A foto do quadro retratando a imagem de Santiago bateu nele como um tapa. Não conseguia acreditar que ela tinha sido capaz de pintar algo para ele, pior, de pintar ele. A mente o levou para o único quadro que tinha dela, onde ela mesmo aparecia queimando como fogo. Mas ele nunca fora uma inspiração para os traços dela.
Ver a foto dos dois se beijando, pareceu ser o último prego velando seu caixão. A visão de Cássio escureceu nas bordas. Ele apertou o notebook com tanta força que ele chegou a estalar com a pressão.
Helena estava feliz. Estava crescendo. Estava sendo vista.
Helena estava sendo amada — por outro homem, e diante do mundo inteiro.
— Ele não é bom o bastante pra você… — murmurou para si mesmo, mas a frase soou frágil até aos seus próprios ouvidos. — Você é minha…
A palavra morreu antes de ganhar som.
Ele colocou o computador de lado, passou a mão pelos cabelos. Apoiou os cotovelos nos joelhos e pressionou o rosto nas mãos, os dedos trêmulos.
Raiva. Ciúme. Orgulho ferido. Medo. Todos os sentimentos batiam ao mesmo tempo, como se brigassem para ver qual o destruiria primeiro.
E no fundo — muito no fundo — um pânico silencioso emergiu: E se ela realmente estivesse livre demais para nunca mais olhar para trás?
Não. Ela não tinha essa escolha. Por cinco anos ela fizera exatamente tudo como ele queria, e ele ainda tinha esse poder sobre ela. Só precisava pensar para agir. Tudo voltaria a ser como era.
Ele voltou a olhar para o notebook, relutante em ler os comentários. Mas assim que estendeu a mão ouviu a porta da frente se abrindo.
Abaixou a tela com pressa ao ouvir o som dos saltos se aproximando. Adivinhou quem era antes mesmo de se virar. Silvia.

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