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Quadros de um divórcio romance Capítulo 111

“O perigo não nasce do que se perde, mas do que alguém se convence de que ainda lhe pertence.”

Cássio tentava se manter concentrado no trabalho, esforçando-se para conter o impulso de ligar para Renato. A ausência do amigo, somada às palavras duras da noite anterior, corroía-o por dentro. Renato sempre fora seu confidente, seu apoio silencioso. Mesmo diante das mentiras, omissões e distorções que ele próprio criara, o amigo permanecera ao seu lado. E agora… agora ele sentia que até aquela amizade estava escorrendo pelos dedos.

Quando percebeu seu devaneio, já havia perdido completamente o fio de entendimento da planilha à sua frente.

Esfregou o rosto com força, levantou-se da cadeira e decidiu ir até a sala da equipe de criação. Porém, assim que atravessou a porta, o telefone vibrou no bolso. Ele pegou o aparelho na esperança de que fosse o amigo, mas o que viu foi o nome do pai iluminando a tela.

Durante a viagem, já tinha ignorado ligações demais da família. Resolveu atender.

— Alô.

— O que aconteceu com você? Estou tentando falar contigo há dias — a voz de Carlos soou impaciente.

— Eu estava viajando, pai. Resolvendo alguns assuntos da empresa.

— Mas não tinha tempo nem para atender uma ligação?

— Me desculpe, está bem? — ele respondeu, evitando outra discussão.

— Contanto que venha almoçar hoje. Sua mãe já preparou tudo.

— Pai, estou cheio de trabalho…

— Sem desculpas. Estamos te esperando.

O pai desligou sem dar-lhe chance de argumentar.

Vencido, Cássio pegou o elevador rumo à garagem, sem perceber que alguém o observava do corredor. Assim que as portas se fecharam, a pessoa caminhou até a porta do escritório dele, entrou com naturalidade e seguiu direto para o computador ainda ligado. Um sorriso despontou em seu rosto.

Cássio estacionou em frente à casa dos pais já cansado por antecipação. Cada visita parecia esgotá-lo mais que a anterior.

Respirou fundo e desceu do carro. Entrou sem fazer barulho e seguiu até a sala, onde encontrou a irmã sentada no sofá, de costas para ele, com o notebook aberto no colo. Na tela, uma foto de Helena e Santiago da noite anterior brilhava intensamente.

— O que você está vendo? — ele perguntou, a exasperado.

Viviane se assustou e fechou o notebook às pressas.

— Ah! Você chegou — disse, tentando disfarçar o nervosismo.

Desde cedo, o nome de Helena Duarte já era um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Não como “a ex-mulher de Cássio Amaral” — título que começava a desbotar — mas como algo novo, algo dela, algo que brilhava.

Aquilo deixava Viviane incrédula, ainda mais ao descobrir que Santiago, o homem de quem ela mesma havia tentado se aproximar e que a rejeitara sem hesitação, estava agora firmando compromisso com aquela mulher que ela considerava tão sem graça.

E como podia Helena, recém-divorciada de seu irmão, já estar com outro homem? E justo com aquele que Viviane desejava?

Quando ouviu a voz do irmão, sentiu-se como uma criança pega aprontando. Não queria irritá-lo — ainda dependia do retorno da mesada integral, o que afetava diretamente sua vida social, cada vez mais limitada.

Tudo isso só alimentava o rancor que sentia por Helena.

— Não tenta disfarçar — disse Cássio, a voz afiada. — Me dá isso.

Relutante, ela entregou o notebook e saiu da sala rapidamente, sem querer ser alvo da reação dele.

Cássio acompanhou a saída da irmã com o olhar estreito e só então abriu novamente a tela. Quando ela se reacendeu, a foto se expandiu diante dele com brutal nitidez.

Os dois apareceram sorrindo para câmera, os braços dele ao redor dela de um jeito que parecia natural.

O estômago de Cássio virou como se tivesse engolido algo corrosivo.

Ele prestou mais atenção e notou que se tratava da matéria digital de uma revista, e não era qualquer revista, e sim uma conceituada no ramo de arte. A leitura começou sem que ele percebesse. Cada linha parecia ser escrita para provocá-lo pessoalmente.

...

REVISTA CELEBRARTE

Uma nova artista surge sob as luzes da Galeria Villar - A estreia inesperada e arrebatadora que emocionou a Galeria Villar e apresentou ao mundo uma nova força da pintura contemporânea.

Por Mariana C. Rangel — Fotos: Júlia Menezes

Sim, nós vimos. E sim, eles são ainda mais lindos pessoalmente.

A revista CelebrArte acompanhará de perto o desenvolvimento da artista e adiantamos: este é apenas o começo de uma jornada promissora.

...

O estômago de Cássio se revolveu. O coração batia rápido, duro, irregular.

O texto parecia descrever que Helena encontrou seu verdadeiro lugar… longe dele. A matéria não o citava, mas ele estava em cada linha — como o fantasma do qual Helena havia finalmente se libertado. O texto evitava nomes, mas qualquer um que soubesse do passado deles poderia ler nas entrelinhas.

A foto do quadro retratando a imagem de Santiago bateu nele como um tapa. Não conseguia acreditar que ela tinha sido capaz de pintar algo para ele, pior, de pintar ele. A mente o levou para o único quadro que tinha dela, onde ela mesmo aparecia queimando como fogo. Mas ele nunca fora uma inspiração para os traços dela.

Ver a foto dos dois se beijando, pareceu ser o último prego velando seu caixão. A visão de Cássio escureceu nas bordas. Ele apertou o notebook com tanta força que ele chegou a estalar com a pressão.

Helena estava feliz. Estava crescendo. Estava sendo vista.

Helena estava sendo amada — por outro homem, e diante do mundo inteiro.

— Ele não é bom o bastante pra você… — murmurou para si mesmo, mas a frase soou frágil até aos seus próprios ouvidos. — Você é minha…

A palavra morreu antes de ganhar som.

Ele colocou o computador de lado, passou a mão pelos cabelos. Apoiou os cotovelos nos joelhos e pressionou o rosto nas mãos, os dedos trêmulos.

Raiva. Ciúme. Orgulho ferido. Medo. Todos os sentimentos batiam ao mesmo tempo, como se brigassem para ver qual o destruiria primeiro.

E no fundo — muito no fundo — um pânico silencioso emergiu: E se ela realmente estivesse livre demais para nunca mais olhar para trás?

Não. Ela não tinha essa escolha. Por cinco anos ela fizera exatamente tudo como ele queria, e ele ainda tinha esse poder sobre ela. Só precisava pensar para agir. Tudo voltaria a ser como era.

Ele voltou a olhar para o notebook, relutante em ler os comentários. Mas assim que estendeu a mão ouviu a porta da frente se abrindo.

Abaixou a tela com pressa ao ouvir o som dos saltos se aproximando. Adivinhou quem era antes mesmo de se virar. Silvia.

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