“Algumas sombras não retornam para nos assustar — retornam porque se recusam a aceitar que deixamos de pertencê-las.”
No bairro antigo, a casa parecia respirar aconchego. Helena e Santiago se moviam na cozinha com uma naturalidade que só quem já encontrou um ritmo próprio ao lado do outro consegue ter. Ele cortava legumes enquanto ela mexia a panela, os ombros encostando de vez em quando, os sorrisos suaves escapando sem necessidade de palavras.
Eles tinham decidido cozinhar juntos — um jeito de dar descanso aos talentos culinários de Marcelo.
No sofá, Pedro revisava as câmeras no notebook, a expressão concentrada demais para um sábado. O cenho franzido era um contraste gritante com o aroma acolhedor que vinha da cozinha.
— Por que essa cara feia, bombonzinho? — provocou Lívia, aproximando-se com uma taça de vinho.
Pedro ergueu apenas os olhos, sem mexer a cabeça.
— Não está cedo para você já estar bebendo?
— Eu preciso comemorar a ascensão da minha amiga artista, bobinho. — Ela se jogou ao lado dele no sofá, mas o riso morreu aos poucos quando percebeu o que ele assistia. — O que houve? — perguntou, agora com a voz distante da brincadeira.
Pedro demorou um segundo antes de responder, como se calibrasse o próprio instinto.
— Nada… ainda. — Seus olhos não saíam da tela. — Só estou achando estranho.
— Estranho como?
— Está tudo... quieto demais.
— E isso não é bom?
Ele respirou fundo, o suficiente para que ela entendesse:
— Ainda não sei.
No balcão, Marcelo conversava com Helena e Santiago, rindo de algo que ela havia dito, quando seu telefone tocou. O som cortou o ambiente como uma lâmina. Ele atendeu na hora, o corpo inteiro ficando alerta.
— Fala.
O silêncio que se seguiu parecia prolongado demais.
Helena parou de mexer a panela. Santiago largou a faca.
— Certo. Encaminhe para o meu e-mail.
Ele desligou. Seu olhar encontrou o de Santiago, e a preocupação era evidente.
— O que foi? — perguntou o amigo, já reconhecendo o peso daquela expressão.
— Um dos meus informantes — Marcelo respondeu, dirigindo-se depois a Pedro. — Me empresta o notebook, por favor.
Todos se reuniram ao redor enquanto ele navegava rapidamente pelos arquivos recebidos. A cada clique, a tensão parecia aumentar.
— A audiência de anulação do divórcio foi marcada para terça-feira. — Ele olhou para Lívia. — A intimação deve chegar na segunda.
O impacto da notícia percorreu o grupo como um choque elétrico.
— Aquele desgraçado! Como conseguiu isso tão rápido?! — disparou ela, indignada.
— Tenho as minhas suposições — respondeu Marcelo, a voz baixa. — Mas em uma coisa estávamos certos: ele pagou mesmo pela falsificação de um laudo médico. — Ele virou a tela para o grupo.
O silêncio foi quebrado apenas pela respiração trêmula de Helena.
Os olhos dela percorreram o documento, como se o cérebro se recusasse a aceitar o que os olhos viam.
Ao ler o nome do suposto médico, sua garganta se fechou.
— Eu nunca… nunca nem me consultei com esse homem — murmurou, a voz cheia de indignação.
O coração de Santiago simplesmente caiu. Ele colocou a mão nas costas dela, um gesto firme, ancorado, quase protetor demais.
— Não se preocupe — retomou Marcelo, tentando aliviar o peso. — A pessoa que me enviou isso mandou mais do que o laudo. Acho que essa parte é com você, Lívia. Só não sei se poderá ser usada legalmente.
— Provavelmente, eu nem vou precisar — respondeu ela, com um sorriso que era pura segurança. — Tem mais alguma coisa?
Marcelo respirou fundo, aliviando a gravidade do clima de propósito:
— Tem sim. — Apontou para Helena e Santiago. — Vocês dois, voltem a cozinhar. Tem gente com fome aqui.
Helena voltou ao fogão — não por apetite, mas por necessidade de normalidade. A comida borbulhava na panela, e ela mexiam como se aquele movimento fosse a única coisa que a mantinha centrada.
— Eu conheço o Marcelo há tempo demais — disse Santiago. — Se ele está calmo assim, é porque tem tudo sob controle.
— Obrigado pela parte que me toca — respondeu Marcelo ouvindo a frase.
Lívia, enciumada, não perdeu a oportunidade:
— Humpf! Ela não precisa ficar preocupada mesmo… afinal, tem uma melhor amiga advogada que é simplesmente um espetáculo.
Helena tentou rir, mas a expressão saiu sem força. Sua mão tremia levemente — tanto que o som da colher raspando o fundo soava irregular. Ela tentou disfarçar inspirando fundo, mas o ar parecia não entrar. Era como se algo invisível lhe apertasse o peito, comprimindo tudo: o estômago, a garganta, o pensamento.
A palavra “anulação” ecoava dentro dela como um martelo lento.
Ela sentiu o calor do fogão no rosto, mas por dentro… por dentro era só frio.
“Como ele ainda consegue me alcançar?”, pensou, com a náusea subindo devagar.
Não era medo do julgamento. Não era medo do tribunal. Era raiva da sombra que ele sempre lançava sobre ela — e da possibilidade, mesmo que remota, dessa sombra voltar a envolvê-la.
Por um momento, o reflexo da chama no azulejo à frente dela pareceu estremecer.
E foi nesse segundo que um pensamento familiar, voltou sem ser convidado: “Eu nunca vou estar livre de verdade.”
Santiago percebeu o instante exato em que ela endureceu. Percebeu porque o corpo dela sempre falava com ele antes mesmo que a voz falasse.
Ele largou a tábua de corte e se aproximou, posicionando-se atrás dela. Pousou a mão suavemente em seu quadril, depois subiu devagar, como quem tenta reconstruir uma estrutura que alguém acabou de abalar.
Ele encostou o peito nas costas dela, a respiração dele firme, compassada, tentando aproximar o corpo dela do ritmo dele.
— Helena… — murmurou, e só isso já a fez fechar os olhos.
Ela apertou a colher com tanta força que os dedos ficaram brancos. A voz saiu baixa, curta, quase um sussurro da parte dela que ainda tinha vergonha de admitir certas feridas:
— Eu só queria que tudo isso já tivesse acabado.
Santiago fechou os olhos por trás dela. As palavras machucaram mais do que ele gostaria de admitir.
O desejo visceral de protegê-la subiu como um solavanco, profundo, antigo, quase ancestral. Ele queria pegá-la pelos ombros, dizer que ninguém jamais chegaria perto dela de novo. Queria prometer um futuro inteiro, mas não podia. E isso o frustrava de um jeito silencioso, castigador.
Ele deslizou o dedo pelo antebraço dela devagar, quase reverente, tirou a colher de sua mão e desligou o fogo.
— Olha pra mim — pediu, suave, mas firme.
Ela hesitou, respirou fundo, e enfim se virou. Os olhos dela estavam úmidos, mas não havia lágrimas. Havia luta.
E isso doeu ainda mais nele — ver que ela nem chorava mais pelo que deveria chorar.
— Você não está sozinha nessa — disse Santiago, segurando o rosto dela com as duas mãos. — E eu não estou dizendo isso como algo bonito ou romântico. Estou dizendo como fato. Como realidade. Não importa o que ele tente fazer… ele não tem mais poder sobre você.
Helena piscou devagar, forçando as lágrimas a recuarem.
Santiago encostou a testa na dela, respirando junto, sincronizando.
— Você já começou a viver outra vida. Uma vida que tem a sua cara. A sua luz. O seu ritmo. Ele está tentando puxar você para um lugar onde você não vive mais. Mas ele já perdeu. Ele só não percebeu ainda.
Ela sentiu o peito afrouxar um pouco — um alívio mínimo, mas real. O coração encontrou espaço para bater.
Santiago apertou sua cintura com uma das mãos, ancorando-a no presente, na casa aconchegante, no cheiro de comida, nas vozes de amigos ao fundo.
— Eu não posso impedir que ele tente — disse, a voz baixa, carregada de frustração honesta. — Mas posso garantir que cada tentativa dele vai encontrar você mais forte. Com pessoas ao seu lado. Comigo ao seu lado.
Helena baixou o olhar, como se absorvesse aquela verdade aos poucos.
Ele levantou seu queixo com dois dedos.
— E posso te prometer outra coisa… — seus olhos tinham fogo — …ele nunca mais vai te ver quebrar.
O ar pareceu finalmente entrar nos pulmões dela. E pela primeira vez, desde que a notícia chegara, Helena respirou inteira.
...
Lívia, Marcelo e Pedro estavam à mesa, discutindo em voz baixa — estratégia, possibilidades, riscos. Até que Helena e Santiago anunciaram que a comida estava pronta.



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