"Algumas batalhas não se vencem derrubando o inimigo, mas derrubando o medo que ele deixou em nós."
Helena retornou à sala em um conjunto verde de bermuda e top, amarrando o cabelo em um rabo de cavalo firme. Pedro observou o movimento em silêncio, avaliando o estado emocional dela. Ele sabia que ela estava frágil, mas sabia também que era nesses momentos que ela mais se superava.
— Vamos começar devagar — disse ele, posicionando as pernas. — Hoje eu quero trabalhar defesa contra imobilização. É útil… principalmente pra você.
Ela entendeu o subtexto, mas apenas assentiu. Os olhos estavam mais focados do que antes. A respiração mais firme.
— Certo. O que eu faço primeiro?
Pedro respirou fundo.
— Primeiro… você confia em mim? — perguntou ele, sério.
Helena ergueu o olhar para o dele e respondeu sem hesitar:
— Com a vida.
Algo nos olhos dele suavizou — mas só por um segundo.
— Então vamos lá.
Ele se aproximou devagar, mostrando que nada ali seria surpresa. Segurou o braço dela com firmeza controlada, sem machucar, e disse:
— Vou te imobilizar como um agressor faria. Você deixa o corpo entender o movimento. Depois, eu te ensino a sair. Tudo bem?
— Tudo bem.
Num segundo, o gesto foi rápido, técnico: Pedro girou o braço dela para trás, prendeu o punho com o dele e a puxou contra o peito, imobilizando.
Foi como um relâmpago no corpo dela. Uma memória ruim piscou. Um arrepio percorreu a espinha inteira.
Pedro sentiu.
— Respira, Helena. — A voz dele era grave, firme, mas calorosa. — Tô aqui. E você tá no controle. Só respira.
Ela obedeceu. Inspirou fundo. Soltou devagar. O corpo relaxou o suficiente para pensar. Para aprender.
— Viu? — disse Pedro, ajustando minimamente a pressão para não doer. — Não é força. É alavanca. Presta atenção no meu quadril e no seu. É por aqui que você vai quebrar a posição.
Ele soltou devagar e deu um passo atrás.
— Agora eu vou repetir… e você vai sair.
Ela assentiu.
Dessa vez, quando ele imobilizou, ela sentiu o susto inicial… mas imediatamente encontrou o chão sob os pés.
Pedro falou perto do ouvido, guiando sem invadir:
— Pivota o quadril. Gira o pé. Baixa o centro de gravidade. Isso… agora desencaixa o braço pela própria linha do movimento…
Helena fez exatamente como ele instruiu: girou, torceu, puxou o próprio braço num ponto de brecha.
— ISSO! — Pedro gritou quando ela escapou. — De primeira! Muito bom, Helena!
Ela arfou, surpresa com a própria rapidez.
— Você consegue mais — disse ele, os olhos brilhando de incentivo. — Agora, vamos inverter. Quando sair da imobilização, quero que me coloque no chão.
— No chão?! — ela arregalou os olhos.
— Sim. — Ele sorriu de canto. — Hora de aprender a derrubar alguém mais forte que você.
Ela respirou fundo.
— Tá. Vamos.
Ele a prendeu novamente, seguro, técnico.
— Pronta?
— Pronta.
O corpo dela se moveu antes do medo. Pé girando. Quadril pivotando. Braço deslizando pela linha de fuga.
E quando ela emergiu da imobilização, Pedro disse:
— Agora! Avança o pé na minha base! Gira o ombro! Usa meu peso contra mim!
Numa explosão de movimento, Helena empurrou o ombro dele para frente enquanto deslocava uma das pernas dele para trás. O corpo de Pedro perdeu o eixo — e ele caiu no tatame com um impacto seco, mas controlado.
Silêncio.
Helena congelou, ofegante.
Pedro piscou, atônito, e então caiu na gargalhada.
— VOCÊ ME DERRUBOU, PORRA!
Helena tapou a boca, chocada.
— Eu… eu fiz isso?!
— FEZ! — Ele se levantou de um salto e segurou os ombros dela. — Helena, você tem noção do que acabou de fazer?! Você acabou de neutralizar alguém mais forte, mais pesado e mais treinado que você!
Ela começou a rir, nervosa, emocionada — o riso que vem depois da vitória interna.
Pedro viu o brilho nos olhos dela e diminuiu o tom. Falou com orgulho sincero, profundo:
— Eu vi você congelar quando te segurei. Eu senti. Mas você não ficou ali. Você saiu. Você lutou. Você derrubou. Helena… isso é força. Isso é coragem.
O peito dela se encheu de uma sensação nova. Não era só proteção. Era poder.
Ela respirou fundo, com lágrimas discretas prestes a surgir, mas contidas.
— Obrigada, Pedro… de verdade. Eu precisava disso.
Ele sorriu — aquele sorriso raro, sem sarcasmo, sem provocação.
— Acha que eu não sei? — disse suavemente. — Esse treino não é só pro corpo. É pra coração e pra cabeça também. E você… você está ficando cada vez mais forte.
Helena enxugou o suor da testa, ainda arfando.
— Então… de novo?
Pedro ergueu uma sobrancelha.
— Achei que você nunca fosse pedir.
Eles se posicionaram novamente. E antes de começar, Pedro disse algo que ela nunca esqueceria:
— Hoje você me derrubou. Daqui a pouco… vai derrubar o mundo inteiro.
E Helena sorriu — um sorriso cheio de futuro.
...
Santiago, Livia e Marcelo estavam no quintal dos fundos resolvendo os últimos detalhes sobre os documentos que o detetive havia recebido.
Enquanto o som das quedas no tatame ecoava pela casa, misturando-se à respiração ritmada de Helena e Pedro. Era uma dança de movimentos precisos — força, fuga, giro, impacto — uma coreografia que, aos poucos, estava esculpindo confiança no corpo dela.
Helena acabara de escapar de mais uma imobilização quando uma voz familiar soou da porta:
— UAU. — Lívia cruzou os braços, apoiando-se no batente com um sorriso impressionado. — Se eu soubesse que vocês estavam brincando de UFC, eu tinha vindo antes.
Helena riu, ainda ofegante.
— Eu não estou brincando, amiga. Isso aqui é sério.
— Sério e sensacional — retrucou Lívia, entrando com passos leves. — Pedro, por acaso existe a possibilidade remota de você me ensinar também?
Pedro, que pegava fôlego para a próxima demonstração, ergueu apenas um canto da boca.
— Quem sabe um dia.
A resposta foi curta. Rasa. Mas Helena viu o olhar dele mudar. Uma faísca rápida, quase escondida.
Lívia, animada como sempre, não percebeu.
— “Quem sabe um dia”… — repetiu, imitando a voz dele com deboche carinhoso. — Vou anotar isso.
Ela caminhou pela sala, mexendo nos pesos, nas luvas, comentando tudo como se fosse um tour.
Mas Pedro… Pedro ficou parado por um instante. Quieto. Pensativo.
Os últimos dias treinando com Helena, e o pedido de Lívia — simples, leve, quase uma brincadeira — abriu uma porta dentro dele que já vinha rangendo fazia tempo.
Desde a morte do pai, aquele peso antigo sempre estivera ali: a responsabilidade de proteger. A missão silenciosa que ele carregava como um escudo.
Proteger Helena. Proteger qualquer pessoa que precisasse. Proteger… sempre.
Mas a verdade o atingiu como um golpe preciso na boca do estômago: Ele não podia proteger todo mundo. Não era onipotente. A vida já havia provado isso da forma mais cruel possível.
Porém… E se ele ensinasse? E se ele multiplicasse a força em vez de tentar carregar tudo sozinho?
A imagem de Helena, segundos antes, derrubando-o no tatame, surgiu nítida na mente dele. Não era apenas técnica. Era libertação.
E se outras mulheres tivessem isso também? E se outras mulheres soubessem escapar, reagir, sobreviver?
Uma sensação nova se acomodou no peito dele. Quente. Pulsando forte. Quase… propósito.
Ele piscou devagar, como se organizasse os pensamentos.
— Pedro? — Helena chamou suave, percebendo que ele havia se perdido em si mesmo.
Ele balançou a cabeça, voltando ao presente.
— Tudo certo — respondeu, reposicionando-se. — Vamos mais uma vez?
Lívia, sentada no sofá afastado, observava os dois com admiração real — o tipo raro de olhar que ela geralmente escondia atrás de piadas.
— Eu quero mesmo aprender — disse ela, desta vez sem brincadeira. — De verdade.
Pedro encontrou seu olhar. E, pela primeira vez, não desviou. Havia decisão ali. Havia missão. Havia algo nascendo.
Ele inspirou fundo.
— Vamos trabalhar nisso — respondeu, não mais um “quem sabe” vago… mas uma promessa que só ele entendia por inteiro.
Helena sorriu, percebendo.
Lívia ergueu uma sobrancelha, curiosa.
E Pedro, ainda que não dissesse em voz alta, sabia: Proteger era bom.
Mas ensinar a se proteger… era muito melhor.
Era eficiente. Era multiplicador. Era futuro. Era necessário.
E dentro dele, com a força silenciosa que sempre teve, uma ideia começou a tomar forma — e talvez, sem que ele percebesse ainda, sua verdadeira vocação.
Após mais de uma hora de treino, e de ter sido derrubado talvez pela décima vez, Pedro disse, ainda caído, com a voz dolorida compadecida com o corpo:
— Acho que chega por hoje.
Helena, antes relutante com o treino, contraditoriamente ainda parecia empolgada.
— Cansou de cair?
— Engraçadinha. — Ele bufou enquanto se levantava. — Você gostou muito disso né?
— Talvez um pouquinho? — Ela zombou.

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