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Quadros de um divórcio romance Capítulo 114

A tarde já se despedia devagar, tingindo o quintal de tons dourados quando Marcelo cruzou a porta da cozinha, vindo do fundo da casa. Santiago e Lívia o seguiam logo atrás.

— Vamos embora, bombonzinho! — anunciou Marcelo com um sorriso zombeteiro.

Pedro ergueu uma sobrancelha, indignado.

— Até você agora?

— A revolução começou, acostume-se — Livia rebateu, estalando a língua.

Helena franziu o cenho, confusa.

— Vocês vão pra onde?

Marcelo colocou as mãos nos bolsos, apoiando-se no batente.

— Vamos dar a vocês dois um vale night. Acho que estão precisando — disse com naturalidade, como se aquilo fosse a ideia mais lógica do mundo.

Santiago se aproximou de Helena, envolvendo o ombro dela com o braço.

— Fica tranquila — murmurou. — É só por hoje.

— Mas e…

Antes que a continuasse, Marcelo ergueu uma mão.

— No tempo em que ficamos aqui, fizeram boas melhorias no andar de cima do sobrado. Vamos ficar muito bem acomodados e vigiar tudo de lá. Não se preocupe.

Helena percebeu que não tinha argumento algum contra aquilo. Suspirou, rendida.

— Tá bom…

Lívia foi até ela e lhe deu um abraço apertado — o tipo que desmontava qualquer tensão.

— Nos vemos depois, minha artista favorita!

— Até amanhã — respondeu Helena, sorrindo.

E assim, entre passos, brincadeiras e despedidas, o trio desapareceu pela porta da frente. A casa ficou silenciosa. Só Helena e Santiago.

Ela soltou o ar pela boca, sentindo o corpo reclamar — músculos pesados, coxas ardendo, ombros tensos. Treinar com Pedro parecia sempre uma mistura de sobrevivência e renascimento.

Santiago inclinou a cabeça, observando-a com carinho.

— Que tal um banho? — perguntou, com uma voz que parecia oferecer mais do que apenas água quente.

Helena sorriu, puxando-o pela cintura.

— Quer continuar nossa guerra no chuveiro, é isso?

— Eu posso até levantar bandeira branca — disse ele, aproximando o rosto do dela — se a sua resposta for sim.

Ela riu.

— Você está me deixando ganhar muito fácil.

— Por mim… — ele passou um braço por trás das pernas dela e a ergueu no colo com um movimento firme, inesperado — …você pode ganhar todas.

Helena riu alto, segurando-se no pescoço dele enquanto ele a carregava pelo corredor.

— Então vamos ver se você aguenta perder — provocou ela, mordendo a ponta do sorriso dele.

— Eu aguento tudo… desde que seja você — respondeu ele, entrando com ela no banheiro.

A porta se fechou devagar, junto com o último resquício de preocupação que ela carregava naquele dia.

...

O almoço de Cássio com a família foi bem diferente. O mesmo ritual imutável: falas medidas, expressões ensaiadas, uma etiqueta social tão rígida que quase abafava o ar. Mas, para Cássio, naquele dia tudo parecia ainda mais sufocante.

A mãe e a irmã conversavam animadamente com Silvia, cheias de expectativas sobre o bebê. Silvia sorria, emocionada. Esther se derretia em sugestões. Viviane fazia perguntas como se estivesse planejando a vida daquela criança.

E ele… tentava se sentir parte daquilo. Tentava se empolgar.

Mas sua mente, ingrata e indomável, insistia em voltar para Helena feliz nos braços de outro homem. Uma cena que ele queria apagar — e ao mesmo tempo revivia sem parar.

O prato à sua frente continuava quase intacto. O apetite parecia ter escapado junto com seu controle.

Fitou a mulher ao seu lado se perguntando se seria possível ter com ela a mesma alegria que havia visto entre Helena e o galerista. A mesma cumplicidade que eles pareciam dividir.

Silvia era bonita, dedicada, compreensiva e estava ali por ele. Carregava seu filho. Tudo deveria fazer sentido.

Mas não fazia.

Ela percebeu a distração dele e tocou suavemente sua mão.

— Está tudo bem?

— Tá sim — respondeu, desviando o olhar, limpando a garganta para esconder o desconforto.

— Coma, filho. — Esther o observava com preocupação. — Você está muito magro.

Viviane se inclinou para avaliá-lo melhor.

— A mamãe tem razão. Você está abatido demais. Parece que não dorme há dias.

Ele sabia que era verdade. Dormia à base de remédios. Malmente comia. Pensava demais.

E todas as vezes que tentava ignorar suas falhas, sua mente retornava à imagem de Santiago — um homem forte, centrado, bonito, tudo o que ele sempre fingiu ser.

Talvez fosse por isso que Helena o havia superado tão rápido.

Engoliu seco e forçou-se a comer. O silêncio instaurou-se na mesa contaminando os demais.

Quando recolheram os pratos, a voz grave de Carlos rompeu a calmaria.

— Vamos para o escritório. Precisamos conversar.

O velho tom de comando.

Cássio fechou os olhos por um segundo, exausto, antes de obedecer.

No escritório, o pai serviu uísque e sentou-se pesadamente no sofá.

— Sente-se — ordenou.

Ele obedeceu, acomodando-se na poltrona em frente.

— Sobre o que quer falar?

Carlos tomou um gole longo antes de começar.

— Filho… você já é adulto, sabe muito bem o que faz. Mas às vezes a vida nos tira do prumo, e ficamos perdidos. Eu sou seu pai. E em breve você será pai também.

— Eu sei disso, está bem? — retrucou Cássio, impaciente. — Não vou deixar faltar nada para essa criança.

Carlos respirou fundo, tentando manter a calma.

— E quanto à mãe do bebê?

— O que tem ela?

— Seu casamento acabou. E durante todos esses anos, você fez questão de mostrar o quanto estava infeliz naquela relação. Eu não vou passar a mão na sua cabeça — disse, firme. — Você errou quando roubou o trabalho dela. Mas o que está feito… está feito. E eu entendo que agora você precisa agir para manter a empresa.

Como permitir que alguém ocupasse um espaço que sempre considerou garantido?

A angústia virou raiva.

— Eu respeito o senhor — disse por fim, a voz baixa, tensa. — Mas fui eu quem sustentei essa família nos últimos anos. O senhor não tem direito de me dizer o que eu devo ou não devo fazer. A minha vida é minha, e não te diz respeito.

O olhar de Carlos crispou, queimando com uma mistura de raiva e decepção. Ele balançou a cabeça devagar, como quem tenta entender onde exatamente falhou como pai.

— Espero que você não se arrependa das suas escolhas — respondeu com frieza.

— Eu não vou. — Cássio disparou, saindo do escritório e batendo a porta com força.

O corredor pareceu encolher ao redor dele. Virou para seguir até a sala — e então parou abruptamente.

Silvia estava ali. Próxima demais. O sorriso dela doce demais.

— Ouvi vozes exaltadas — disse ela com um tom dengoso que o irritou instantaneamente. — Vim ver se estava tudo bem.

Cássio a observou por alguns segundos, tentando identificar o incômodo que roçava sua mente. Algo nela parecia… deslocado. Como uma peça de quebra-cabeça que até encaixa, mas não pertence àquele desenho.

— Preciso voltar ao trabalho — respondeu seco, passando por ela sem tocar. — Te vejo em casa.

Silvia piscou, tentando recuperar o controle da própria expressão enquanto o seguia com os olhos.

Ele não olhou para trás.

...

Quando ele se afastou, Silvia ficou imóvel no corredor, respirando pela boca como se precisasse reorganizar seus pensamentos.

Ela havia escutado mais da conversa do que queria. O suficiente para entender que Cássio não a amava, que o apego dele por Helena não era apenas orgulho ferido — era obsessão, e que aquele bebê… não a colocava tão no pedestal quanto ela imaginava.

A insegurança atravessou seu peito como um arrepio gelado.

Por um segundo, a fantasia que ela tentava construir — a nova vida, a família feliz, a segurança financeira — pendia como uma moldura mal fixada.

Seu instinto de sobrevivência gritava.

Helena era o problema, precisava ser removida da equação. Mas a equação de Dante era diferente da sua, e ele havia sido claro quando ordenou que ela a esquecesse.

Silvia levou a mão ao ventre, apoiando a palma com uma delicadeza ensaiada, mesmo estando sozinha.

“Eu preciso garantir meu lugar”, pensou. “De um jeito ou de outro.”

...

No carro, Cássio dirigia rápido demais. O mundo passava pelas janelas como borrões.

O coração batia pesado, desconexo, como se tentasse disputar espaço com a raiva.

As palavras do pai ecoavam.

A imagem de Helena irradiando felicidade ecoava ainda mais.

Ele apertou o volante até os nós dos dedos embranquecerem.

Ela deveria estar sofrendo.

Deveria estar arrependida.

Deveria estar esperando por ele.

Mas não estava.

Uma única certeza o mantinha no lugar: A audiência estava marcada e ele não perderia.

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