A tarde já se despedia devagar, tingindo o quintal de tons dourados quando Marcelo cruzou a porta da cozinha, vindo do fundo da casa. Santiago e Lívia o seguiam logo atrás.
— Vamos embora, bombonzinho! — anunciou Marcelo com um sorriso zombeteiro.
Pedro ergueu uma sobrancelha, indignado.
— Até você agora?
— A revolução começou, acostume-se — Livia rebateu, estalando a língua.
Helena franziu o cenho, confusa.
— Vocês vão pra onde?
Marcelo colocou as mãos nos bolsos, apoiando-se no batente.
— Vamos dar a vocês dois um vale night. Acho que estão precisando — disse com naturalidade, como se aquilo fosse a ideia mais lógica do mundo.
Santiago se aproximou de Helena, envolvendo o ombro dela com o braço.
— Fica tranquila — murmurou. — É só por hoje.
— Mas e…
Antes que a continuasse, Marcelo ergueu uma mão.
— No tempo em que ficamos aqui, fizeram boas melhorias no andar de cima do sobrado. Vamos ficar muito bem acomodados e vigiar tudo de lá. Não se preocupe.
Helena percebeu que não tinha argumento algum contra aquilo. Suspirou, rendida.
— Tá bom…
Lívia foi até ela e lhe deu um abraço apertado — o tipo que desmontava qualquer tensão.
— Nos vemos depois, minha artista favorita!
— Até amanhã — respondeu Helena, sorrindo.
E assim, entre passos, brincadeiras e despedidas, o trio desapareceu pela porta da frente. A casa ficou silenciosa. Só Helena e Santiago.
Ela soltou o ar pela boca, sentindo o corpo reclamar — músculos pesados, coxas ardendo, ombros tensos. Treinar com Pedro parecia sempre uma mistura de sobrevivência e renascimento.
Santiago inclinou a cabeça, observando-a com carinho.
— Que tal um banho? — perguntou, com uma voz que parecia oferecer mais do que apenas água quente.
Helena sorriu, puxando-o pela cintura.
— Quer continuar nossa guerra no chuveiro, é isso?
— Eu posso até levantar bandeira branca — disse ele, aproximando o rosto do dela — se a sua resposta for sim.
Ela riu.
— Você está me deixando ganhar muito fácil.
— Por mim… — ele passou um braço por trás das pernas dela e a ergueu no colo com um movimento firme, inesperado — …você pode ganhar todas.
Helena riu alto, segurando-se no pescoço dele enquanto ele a carregava pelo corredor.
— Então vamos ver se você aguenta perder — provocou ela, mordendo a ponta do sorriso dele.
— Eu aguento tudo… desde que seja você — respondeu ele, entrando com ela no banheiro.
A porta se fechou devagar, junto com o último resquício de preocupação que ela carregava naquele dia.
...
O almoço de Cássio com a família foi bem diferente. O mesmo ritual imutável: falas medidas, expressões ensaiadas, uma etiqueta social tão rígida que quase abafava o ar. Mas, para Cássio, naquele dia tudo parecia ainda mais sufocante.
A mãe e a irmã conversavam animadamente com Silvia, cheias de expectativas sobre o bebê. Silvia sorria, emocionada. Esther se derretia em sugestões. Viviane fazia perguntas como se estivesse planejando a vida daquela criança.
E ele… tentava se sentir parte daquilo. Tentava se empolgar.
Mas sua mente, ingrata e indomável, insistia em voltar para Helena feliz nos braços de outro homem. Uma cena que ele queria apagar — e ao mesmo tempo revivia sem parar.
O prato à sua frente continuava quase intacto. O apetite parecia ter escapado junto com seu controle.
Fitou a mulher ao seu lado se perguntando se seria possível ter com ela a mesma alegria que havia visto entre Helena e o galerista. A mesma cumplicidade que eles pareciam dividir.
Silvia era bonita, dedicada, compreensiva e estava ali por ele. Carregava seu filho. Tudo deveria fazer sentido.
Mas não fazia.
Ela percebeu a distração dele e tocou suavemente sua mão.
— Está tudo bem?
— Tá sim — respondeu, desviando o olhar, limpando a garganta para esconder o desconforto.
— Coma, filho. — Esther o observava com preocupação. — Você está muito magro.
Viviane se inclinou para avaliá-lo melhor.
— A mamãe tem razão. Você está abatido demais. Parece que não dorme há dias.
Ele sabia que era verdade. Dormia à base de remédios. Malmente comia. Pensava demais.
E todas as vezes que tentava ignorar suas falhas, sua mente retornava à imagem de Santiago — um homem forte, centrado, bonito, tudo o que ele sempre fingiu ser.
Talvez fosse por isso que Helena o havia superado tão rápido.
Engoliu seco e forçou-se a comer. O silêncio instaurou-se na mesa contaminando os demais.
Quando recolheram os pratos, a voz grave de Carlos rompeu a calmaria.
— Vamos para o escritório. Precisamos conversar.
O velho tom de comando.
Cássio fechou os olhos por um segundo, exausto, antes de obedecer.
No escritório, o pai serviu uísque e sentou-se pesadamente no sofá.
— Sente-se — ordenou.
Ele obedeceu, acomodando-se na poltrona em frente.
— Sobre o que quer falar?
Carlos tomou um gole longo antes de começar.
— Filho… você já é adulto, sabe muito bem o que faz. Mas às vezes a vida nos tira do prumo, e ficamos perdidos. Eu sou seu pai. E em breve você será pai também.
— Eu sei disso, está bem? — retrucou Cássio, impaciente. — Não vou deixar faltar nada para essa criança.
Carlos respirou fundo, tentando manter a calma.
— E quanto à mãe do bebê?
— O que tem ela?
— Seu casamento acabou. E durante todos esses anos, você fez questão de mostrar o quanto estava infeliz naquela relação. Eu não vou passar a mão na sua cabeça — disse, firme. — Você errou quando roubou o trabalho dela. Mas o que está feito… está feito. E eu entendo que agora você precisa agir para manter a empresa.
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