“O castigo de quem tenta prender o passado é assistir, impotente, enquanto o futuro do outro floresce sem pedir licença.”
A casa estava silenciosa quando Silvia entrou, ainda com a bolsa pendurada no ombro. Fechou a porta devagar, quase sem som, e ficou por um instante encostada ali.
A conversa que ouvira atrás da porta do escritório ecoava dentro dela como um sino desagradável.
Não era amor o que movia Cássio. Era Helena. Sempre fora.
Até quando ele a desprezava, Helena ainda ocupava mais espaço do que deveria. E agora, com aquele olhar distante, com aquela inquietação crescente… Silvia percebia algo que temia admitir: O bebê não seria suficiente para prendê-lo.
E se ela não conseguisse o que queria por meio de afeto, atenção ou manipulação…
teria que conseguir através de estratégia.
Andou até a sala em passos lentos, quase felinos, e soltou a bolsa no sofá. Sentou-se devagar, entrelaçando os dedos sobre o ventre.
Não havia mais espaço para ingenuidade. Enquanto aquela mulher existisse — livre, forte, dona do próprio destino — ela sempre seria uma sombra na vida de Cássio. Uma lembrança incômoda. Um fantasma.
Mas ela sabia que não podia agir diretamente contra Helena. Então alguém teria que fazer isso por ela. E não havia ninguém melhor que o próprio Dante.
Ele só precisava acreditar que todos os problemas foram causados por ela.
Se Silvia o provocasse no ponto certo… se sugerisse que Helena era o perigo… que ela é quem colocava tudo em risco… ele mesmo faria o que precisava ser feito.
Silvia sentiu o coração acelerar com a clareza do plano. Precisava apenas plantar a ideia.
Um sorriso lento se formou em seu rosto. Helena Duarte não duraria muito tempo.
Depois de formular mentalmente os fios do plano, Silvia subiu as escadas para o quarto.
A máscara voltaria a ser erguida — doce, doce como mel, viscosa como veneno.
Cássio chegaria tenso. Irritado. Consumido por uma frustração que só ela poderia aliviar… ou acender ainda mais.
E Silvia pretendia ser exatamente aquilo que ele precisava.
Foi até o closet e abriu as portas, observando as roupas penduradas com precisão quase cirúrgica. Escolheu uma camisola curta de cetim preto, o tecido fino como um sussurro, deslizando pelos dedos em promessas silenciosas. Colocou-a lentamente, permitindo que o frio do tecido despertasse sua pele.
Fez alguns cachos largos nos cabelos que aos poucos estava crescendo. Um toque de perfume doce-amadeirado na nuca e nos pulsos. Um gloss claro para dar brilho aos lábios. E um borrifo discreto de spray iluminador nas clavículas, criando uma trilha sutil, como convite.
Olhou-se no espelho.
Uma mulher radiante, sensual, frágil na medida perfeita para provocar instinto protetor — e perigosa o suficiente para mover peças inteiras de um tabuleiro sem jamais ser vista jogando.
Desceu as escadas com calma, apagou parte das luzes da casa e sentou-se no sofá, cruzando as pernas com lentidão.
A postura era relaxada.
O olhar, convidativo.
E quando ouviu o barulho da porta se abrindo, um sorriso suave desenhou-se em seus lábios.
O jogo estava longe de terminar. E ela finalmente havia entendido como se jogava.
...
Cássio entrou, exausto, a mente fervendo demais para perceber de imediato o clima diferente da casa — a iluminação suave, a sala semiapagada, o perfume doce que pairava no ar como névoa.
Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Dia difícil? — perguntou Silvia, com a voz baixa, quase um sussurro.
Ele virou a cabeça devagar… e a viu.
Sentada no sofá, pernas cruzadas, a camisola preta pintando sua silhueta com malícia estudada. O cetim brilhando à luz mínima, escorregando sobre a pele como tinta.
O cabelo solto, o perfume no ar, a mão pousada no ventre — tudo milimetricamente calculado.
Por um instante, o corpo dele reagiu antes da mente.
Um impulso visceral, automático, conhecido.
Mas logo atrás veio a outra sensação — aquela incômoda, dissonante, que atravessava seus pensamentos como farpa: Helena jamais precisou fazer esforço para que ele a desejasse.
Com Silvia, tudo parecia ensaiado. Quadrado. Pré-moldado para caber nas expectativas que ela achava que ele ainda tinha.
Cássio piscou devagar, lutando contra o incômodo.
— Você chegou tarde — ela disse, levantando-se com delicadeza, aproximando-se como quem caminha sobre seda.
— Tive… coisas para resolver — respondeu ele, evasivo.
Silvia pousou as mãos no peito dele, subindo devagar, avaliando cada reação.
Ele permaneceu rígido por alguns segundos — a hesitação evidente, quase desconfortável.
Mas ela insistiu.
Abaixou o olhar, os lábios entreabertos, a voz macia como mel quente.
— Você anda muito tenso, Cássio. Eu posso ajudar.
Ele fechou os olhos por um instante, exausto demais para lutar contra qualquer coisa.
A cabeça dele estava um caos: o pai, a audiência, Helena nos braços de outro homem. E agora Silvia, tentando se encaixar na vida dele como uma substituta que ele não pediu.
Quando abriu os olhos, ela estava tão próxima que sentiu o perfume doce invadindo sua respiração.
Foi então que a pergunta silenciosa o atravessou como faca: “É isso que eu quero ou é apenas o que sobrou?”
A resposta não veio.
E no vazio da indecisão, Silvia encontrou espaço para agir.
Ela deslizou os dedos pela nuca dele, puxando-o com cuidado, e sussurrou:
— Eu estou aqui, Cássio. Para você.
A voz dela tinha uma promessa que não era amor, mas conveniência. E naquele instante, ele não queria pensar. Não queria sentir.
Queria esquecer. Queria calar a dor que latejava cada vez que a imagem de Helena voltava à sua mente.
Então segurou a cintura de Silvia com força, puxando-a para si. Um gesto mais desesperado do que carinhoso.
Ela sorriu contra a boca dele, vitoriosa.
O beijo aconteceu — intenso, faminto, carregado de frustração.
Não havia ternura. Não havia entrega verdadeira.
Era só fuga. Só vazio.
Silvia correspondeu com entusiasmo, guiando-o para o sofá, para o quarto, para qualquer lugar onde pudesse cercá-lo, prendê-lo, convencê-lo de que ela era suficiente.
E Cássio se deixou levar.
Não por querer. Mas porque naquele momento perder-se nela era mais fácil do que encarar o fato de que estava perdendo tudo que realmente importava.
Quando finalmente cedeu por completo, a última coisa que viu antes de fechar os olhos foi o rosto de Helena atravessando sua mente como um fantasma impossível de banir.
...
Helena acordou sentindo primeiro um carinho suave deslizar por seus cabelos. Quando abriu os olhos, deu de cara com o sorriso tranquilo de Santiago — aquele sorriso que tinha o poder de rearrumar o mundo inteiro dentro dela.
— Bom dia — murmurou ele, beijando sua testa.
Ela sorriu sonolenta, aconchegando-se mais no peito dele.
— Bom dia…
Santiago se levantou e estendeu a mão para ela.
— Anda. Troca de roupa. Algo confortável.
— Por quê?
— Porque eu tenho uma surpresa.
— A essa hora? — ela perguntou entre o riso e o choro.
— A essa hora — ele respondeu com um olhar maroto que entregava que a surpresa valia a pena.
Minutos depois, vestida com uma calça legging, tênis e uma blusa leve, ela saiu pela porta da frente. Os primeiros raios de sol aquecendo sua pele.
Pedro, com roupas de treino, estava alongando os braços.
— Para constar: estou pronto há um tempão. Só avisando.
— Você é impossível — Helena riu.
Santiago passou o braço pelas costas dela, guiando-a para o portão.
— Vamos dar uma corrida no parque.
— Jura? — Helena perguntou entusiasmada.
Pedro caminhava um pouco à frente, atento ao entorno, mas não conseguia esconder o leve sorriso de satisfação ao ver Helena tão tranquila.
A trilha se abriu de repente para o parque, revelando a mistura perfeita de luz matinal filtrada pelas árvores e o som distante de pássaros.
Eles começaram a correr — devagar, só para aquecer.
O caminho se alternava entre áreas abertas e túneis naturais de árvores cujas copas se encontravam no alto, filtrando a luz da manhã.
Algumas pessoas reconheceram o casal ao longe. Sussurros amistosos, olhares curiosos, discretos acenos de respeito. Mas ninguém se aproximou. Era como se o próprio ambiente protegesse aquele momento deles.
Helena corria com passos fluidos, sentindo o corpo se soltar, a alma se expandir.
Depois de alguns minutos, diminuíram o ritmo até caminharem. O lago se abriu diante deles — sereno, espelhado, com patos deslizando de um lado para o outro como pequenas pinceladas vivas sobre a superfície.
— Vamos sentar um pouco — sugeriu Santiago.
Encontraram um trecho de grama macia debaixo de uma árvore. Ela se sentou, abraçando os joelhos, deixando a brisa brincar com alguns fios soltos de cabelo.
— Eu precisava disso — confessou.
Santiago sentou-se ao lado dela.
— Eu sei — respondeu baixinho.
Ela virou o rosto para ele, tocando de leve a mão que repousava sobre a grama entre os dois.
— Obrigada.
— Pelo quê?
Helena sorriu com ternura.
— Por pensar em mim desse jeito.
— É fácil — ele disse, tocando a ponta do nariz dela. — Você inspira cuidado.
Pedro, alguns passos atrás, fingia observar o lago — mas sua expressão claramente dizia “meu Deus, essa fase romântica deles vai me matar”.
— Só avisando — ele resmungou sem olhar para trás — se vocês começarem a trocar juras de amor, vou pular no lago.
Helena riu tão alto que dois patos se assustaram.
— Você está esbaforido demais treinador. _ Ela o provocou.
— Correr não é minha praia, mas confesso que é um bom exercício. Eu até topo vir com você toda semana, mas... só se você não me fizer correr atrás de você no ritmo do Usain Bolt.
— Posso pegar leve com você, mas só no início. — Disse ela devolvendo as próprias palavras dele.
— Tuchê! — Ele reconheceu apontando um dedo para ela como uma espada de esgrima.
De repente, um grito agudo e feliz rasgou a tranquilidade do lago.
— Moça sereia!
Helena se virou no susto — e, ao ver a pequena figura correndo em sua direção, levou alguns segundos para reconhecer.
— Sofia?
A garotinha se jogou em seus braços com a confiança de quem reencontra alguém muito querido. Como Helena ainda estava sentada na grama, ficaram quase da mesma altura, o que facilitou o abraço apertado que a menina lhe deu. Helena envolveu-a imediatamente, o carinho surgindo com naturalidade.
Logo atrás, Manoel apareceu correndo, curvado com as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.
— Desculpa… ela foi mais rápida do que eu — disse ele, meio rindo, meio envergonhado.
— Imagina! — Helena garantiu. — É muito bom ver vocês de novo.
Sofia, animadíssima, se ajoelhou entre as pernas de Helena, falando sem pausa.
— Papai me colocou na natação! Eu já sou quase uma sereia igual a você!
— Sério? — Helena abriu um sorriso largo e fez cócegas na cintura dela, arrancando risadinhas contagiantes. — Quase uma sereia?
— Papai disse que se eu me esforçar muito posso ficar tão boa quanto você!
— Nada disso. — Helena apertou o nariz da menina. — Você vai ficar melhor do que eu.
— Não é brinquedo, é arte culinária — corrigiu Helena, com seriedade.
Pedro suspirou alto, cruzando os braços.
— Isso é açúcar puro.
— E por isso que é tão gostoso — ela disse com a voz mais doce possível. — Se você quiser, posso te dar um pedaço.
— Não quero — respondeu de imediato, como se aquilo ferisse sua honra.
Helena deu de ombros, já se aproximando do balcão.
— Dois churros, por favor. Um com doce de leite… e o outro… — ela se virou para Santiago — …você quer de quê?
— Eu deixo você escolher, mas se vier muito doce, vai ter que dividir a culpa comigo.
— De chocolate então — ela concluiu, satisfeita.
O atendente entregou os churros recém-fritos, ainda estalando de calor. Helena deu a primeira mordida no dela e fechou os olhos, em puro êxtase.
— Meu Deus… isso devia ser proibido.
Ela se virou para Pedro com um sorriso de canto.
— Tem certeza que não quer um pedacinho?
— Já disse que não.
— Não sabe o que está perdendo.
— Helena! — Pedro exasperou, passando as mãos no rosto. — Estou trabalhando!
Santiago riu se apoiando no ombro dela.
— Deixa o homem em paz, amor. Ele leva o trabalho muito a sério.
— Ele leva minhas calorias muito a sério. É diferente — retorquiu ela, mordendo o churros novamente, com propósito.
Quando terminaram, Helena passou os dedos sobre os lábios, recolhendo açúcar.
Santiago observou o gesto com um sorriso caloroso — e um pouco perigoso.
— Cuidado com esse olhar, Santiago Villar — ela advertiu, brincando.
— Por quê? — ele deu um passo à frente. — Vai me prender?
— Posso pensar no caso — ela sussurrou.
Pedro tossiu alto.
— Gente. Estamos em público.
Helena e Santiago apenas riram e começaram a caminhar de volta pela trilha.
A trilha parecia ainda mais bonita no retorno, iluminada pelo sol que subia preguiçoso no céu. O cheiro de mato molhado, a brisa leve, o canto dos pássaros… tudo criava uma paz que Helena sentia como se ocupasse espaço físico dentro dela.
Santiago caminhava ao seu lado, a mão roçando a dela em toques sutis, quase involuntários.
Pedro seguia alguns passos à frente — fingindo estar atento, mas na verdade sorrindo discretamente toda vez que Helena gargalhava de algo que Santiago dizia.
Quando entraram em saca, ela se aproximou e depositou um beijo leve no canto da boca dele, agradecida.
— Obrigada.
— Sempre — ele respondeu, tocando o rosto dela com carinho.
O restante da manhã transcorreu em uma serenidade acolhedora. Haviam recebido um convite para almoçar na casa de Aurora, que embora morasse sozinha, parecia ter o dom de reunir pessoas como quem costura retalhos de afeto. Ela chamara alguns vizinhos, cada um levaria um prato, e o clima prometia ser daqueles domingos de bairro que aquecem até o coração mais cansado.
Marcelo, desde cedo, havia colocado um lombo recheado no forno — com um tempero secreto, segundo ele — e o aroma lento e profundo da carne assando já se espalhava por toda a casa.
— Esse cheiro está me dando fome — Helena reclamou manhosamente, apoiando o queixo no ombro de Santiago, que mexia uma panela generosa de farofa dourada.
Pedro ergueu uma sobrancelha.
— Ela realmente tem um monstrinho faminto morando dentro dela — decretou.
Helena, indignada, tacou o pano de prato na direção dele.
— Respeita meu monstrinho — retrucou.
Santiago riu baixo.
— Eu já terminei a farofa. Agora depende da obra-prima do Marcelo.
Helena então virou os olhos esperançosos para o detetive, que claramente se divertia com o desespero dela. Ele abriu o forno, checou o ponto da carne, avaliou… e enfim sorriu.
— Já podemos ir.
As palavras funcionaram melhor do que qualquer milagre: o humor dela imediatamente iluminou o ambiente.
A casa de Aurora ficava praticamente no final da rua, bem perto da trilha que levava ao parque. Quando chegaram, o quintal já estava cheio de vozes animadas, risadas, crianças correndo e adultos equilibrando pratos caseiros que exalavam aromas reconfortantes.
Aurora os recebeu com o sorriso largo que sempre aquecia Helena.
— Oh, minha menina! Que alegria te ver aqui — disse ela, envolvendo Helena em um abraço acolhedor que cheirava a flor de laranjeira e saudade de avó.
— Eu que agradeço por nos convidar — respondeu Helena, retribuindo com afeto.
— Que isso! — Aurora bateu leve no braço dela. — Aqui somos todos família.
E assim foram puxados para dentro, recebidos como se já frequentassem aquela casa há anos.
Aurora apresentou Helena, Santiago, Marcelo e Pedro aos moradores presentes. Bastaram poucos minutos para que Helena já estivesse conversando animadamente com as senhoras do bairro, com um prato generoso nas mãos, enquanto Santiago permanecia ao seu lado com aquele olhar de orgulho tranquilo que só ele sabia ter.
Marcelo, por sua vez, mergulhou em uma conversa empolgada com o dono do antiquário local — o mesmo que lhe vendera algumas peças para o sobrado. Gesticulava tanto que parecia estar negociando um tesouro perdido.
Pedro… comia. Sério. Atento. Imutável.
Helena o observou à distância, sorrindo com ternura, mas com uma pontada de culpa no peito.
Em meio ao riso coletivo, às piadas espalhadas pelo quintal e à sensação de comunidade que Aurora criava tão naturalmente, Pedro ainda mantinha aquele olhar vigilante, os ombros alertas, a postura treinada.
Mesmo ali, entre amigos, comida boa e despreocupação, ele não conseguia relaxar.
Ela sabia que era por causa dela. Mas imaginou, com carinho, o futuro. Um futuro em que a ameaça tivesse passado. Um futuro em que Pedro pudesse, enfim, se dedicar ao novo chamado que havia despertado dentro dele.
Helena sorriu, esperançosa.
Porque talvez, no fim de tudo, todos ali estivessem começando versões novas de si mesmos.

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