“Toda vida tem um ponto em que dois caminhos deixam de correr paralelos — e um deles aprende a florescer sem olhar para trás.”
Santiago se recostou no batente da porta que dava acesso ao quintal, segurando um copo de suco que Aurora havia preparado. Seus olhos, porém, não estavam no copo — estavam em Helena.
Ela caminhava de grupo em grupo como se tivesse nascido ali, rindo com as mulheres mais velhas, se curvando para escutar as histórias das crianças, admirando as receitas caseiras como se fossem obras de arte. O sol atravessava as folhas das árvores do quintal e iluminava os cabelos dela, trazendo um reflexo dourado que deixava Santiago momentaneamente sem ar.
Helena tinha uma presença que preenchia espaços. E ali, entre vizinhos e aroma de comida boa, ela parecia… inteira.
Ele observou quando dona Clarice ofereceu a ela um pedaço exagerado de bolo de fubá, e Helena aceitou com a fome quase infantil que ele adorava.
Santiago sorriu sozinho.
Aquela mulher, tão machucada meses antes, agora brilhava.
Brilhava de um jeito que doía bonito nele — como quem testemunha um renascimento.
Pedro, ao lado dele, murmurou:
— Ela está bem… finalmente.
Santiago apenas concordou com a cabeça, o olhar ainda fixo nela, como se temesse perder algum detalhe daquele instante precioso.
Aurora chamou Helena com um aceno gentil. A jovem se aproximou ainda lambendo discretamente os dedos, resquício do bolo de fubá.
A senhora segurou as mãos de Helena entre as suas, quentinhas e pequenas como de avó.
— Minha menina… você parece diferente. — comentou a senhora, com aquele tom cheio de significados que não se explicam fácil.
Helena piscou, surpresa.
— Diferente como?
Aurora inclinou a cabeça, avaliando-a como quem lê uma pintura.
— Não sei… mas tem um brilho novo em você — murmurou, aproximando-se como se quisesse descobrir um segredo.
Helena arregalou um pouco os olhos, o rosto esquentando.
— Aurora… — riu nervosa — Eu... só estou feliz. Acho que é isso.
A senhora sorriu, aquele sorriso cheio de histórias que já viu muita vida acontecer.
— Pode ser, pode ser… — disse, pensativa.
Aurora a puxou para um abraço apertado.
— O mundo tirou muito de você, minha menina — sussurrou. — Agora deixe-o te devolver tudo em dobro.
Helena fechou os olhos, respirando fundo contra o ombro da senhora, permitindo-se ser amparada.
O momento foi interrompido por um trio de senhoras animadas empurrando as mesas para o canto. Uma música alegre começou a tocar de um rádio antigo e, como em toda boa reunião de bairro, rapidamente virou motivo para dançar.
Pedro estava sentado próximo a porta, vigilante, sério, mastigando devagar. Até que dona Odete, uma senhora de quase setenta, de vestido florido e disposição inesgotável, apontou para ele.
— Você!
Antes que Pedro percebesse o perigo, ela avançou.
— Levanta, meu filho — disse Odete, puxando o braço dele com surpreendente força para a idade. — Você tem cara de quem dança bem.
— Eu…? — Pedro ficou estático. — Não, senhora, eu estou só…
— Conversa mole! — decretou Odete. — Um homem como você não pode ficar sem dançar.
Santiago se apoiou na mesa para não cair de tanto rir.
— Vai lá, bombonzinho — provocou Helena, escondendo o riso atrás da mão.
Pedro lançou um olhar assassino para ela: “Eu vou me vingar.”
Mas Odete já o puxava para o centro da roda.
O segurança, rígido e treinado, parecia mais preparado para enfrentar um grupo armado do que três senhoras animadas. Ele ergueu uma das mãos, completamente desconfortável, tentando acompanhar o ritmo enquanto Odete balançava com uma energia inesgotável.
— Solta esse quadril, menino! — ela ordenou.
Helena e Santiago já choravam rindo.
— Isso está acontecendo? — Helena soluçou de tanto rir.
— E é maravilhoso — Santiago enxugou as lágrimas.
Pedro, derrotado, tentou deixar o corpo menos travado. Odete o guiava como se estivesse ensinando um adolescente tímido no baile da escola.
Quando a música terminou, as senhoras o aplaudiram.
Ela havia ido embora. Renato parecia ter se afastado também. E era domingo. Domingo sempre fora um dia silencioso, mas aquele parecia um túmulo.
Subitamente, ouviu passos. Silvia desceu as escadas usando a mesma camisola preta da noite anterior, o cetim deslizando por suas pernas longas. Ele apenas lançou-lhe um olhar rápido — quase impessoal.
Ela se apoiou no ombro dele por trás, entrelaçando as mãos e repousando o queixo sobre elas.
— Nossa noite foi incrível, amor — disse num sussurro meloso.
Cássio tirou as mãos dela do próprio ombro com um único movimento, sem violência, mas com uma frieza que cortava.
— Vou trabalhar de casa. Preciso de silêncio — disse seco.
Pegou a carteira no balcão, puxou um cartão de crédito e o estendeu para ela sem olhar.
— Aqui. Saia e faça compras. Talvez algo para o bebê.
Silvia pegou o cartão, mas a rejeição explícita — a forma como ele a afastava e a comprava ao mesmo tempo — acendeu nela uma fúria amarga, silenciosa, que crescia por trás do sorriso contido.
Cássio não percebeu. Ou não se importou.
Apenas se virou e seguiu para o escritório, trancando a porta atrás de si com uma urgência que beirava o desespero.
Assim que ouviu o baque seco, o arrependimento o atingiu como uma onda fria e imediata. Aquele cômodo, dentre todos, era o pior lugar para tentar esquecer.
Cássio avançou alguns passos, os dedos roçando automaticamente pela superfície da mesa — como se o toque ativasse memórias adormecidas.
Ele podia vê-la ali, sentada, inclinada sobre o papel, mordendo o canto do lábio enquanto desenhava. O som do grafite riscando a folha ainda ecoava em algum lugar da mente dele.
Sentou-se na cadeira, sentindo um peso no peito enquanto puxava as gavetas.
Pegou algumas folhas em branco. Depois, um estojo com diversos lápis de grafite.
Cássio apoiou o papel na mesa e ficou apenas… olhando.
O silêncio era tão profundo que ele conseguia ouvir a própria respiração irregular.
Por um instante, imaginou a mão dela se movendo sobre aquela folha. E então, como se quisesse invocar essa sensação de volta, ele começou a desenhar.
Os primeiros traços saíram trêmulos. Quase inúteis. Mas ele continuou, como alguém procurando um fantasma no papel.
E quanto mais desenhava, mais percebia que nada — absolutamente nada — preenchia aquele vazio gigante que ela havia deixado.

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