Silvia permaneceu estacada na cozinha. O novo plano latejava em sua mente, pronto para ser executado. Mas havia um problema que a corroía: ninguém contatava Dante. Era ele quem decidia quando, como e quem podia falar com ele. Um fantasma com regras próprias.
Ele tinha um número que usava apenas quando queria falar com ela. Mas ligar para ele era inútil, ficava sempre desligado.
Se Márcio não tivesse “sumido”, ela ainda poderia usar aquele idiota para se aproximar dos capangas. Mas agora? Agora estava só. E precisava pensar. Rápido.
Ela girava o celular entre os dedos, o gesto inquieto traindo seu desespero silencioso.
Precisava apressar as coisas. Mas como?
Se aproximou da porta do escritório na ponta dos pés. Tentou ouvir algo — qualquer barulho que denunciasse o que Cássio estava fazendo. Nada. Silêncio absoluto.
Imaginou, com repulsa, se o cheiro dela — daquela mulher ridícula — ainda pairava naquele cômodo. Até pensar nisso faiscou raiva dentro dela.
Silvia bufou, espreitando como uma sombra rejeitada.
Se ele tinha resolvido se trancar ali dentro, que ficasse. Ela não ia perder o dia por causa dele.
Baixou os olhos para o cartão que ele havia lhe dado. Talvez…
Talvez comprar algumas coisas “para o bebê” — roupas, brinquedos, lembrancinhas fofas demais para serem ignoradas — o amolecesse. Talvez o lembrasse de que ele tinha responsabilidades, de que ela carregava algo dele. Algo importante.
E não custaria nada a ela. Absolutamente nada.
Mandou uma mensagem para Viviane e outra para Esther.
"Vamos ao shopping? Quero olhar coisas para o bebê."
A resposta de ambas veio rápida, animada demais para o gosto dela — mas, por ora, servia.
...
Silvia estava afundada em um sofá macio da loja, pernas cruzadas, postura impecável e aquele sorriso perfeito e ensaiado que nunca alcançava seus olhos frios.
Enquanto isso, a cunhada e a sogra rodopiavam pelo ambiente, passando de um móvel a outro, levantando roupinhas minúsculas, discutindo paletas neutras, escolhendo peças com um entusiasmo quase infantil.
Era curioso observar. Hilário até. As duas tão empolgadas… tão engajadas… tão orgulhosas. Como se fossem elas as prestes a se tornarem mães.
E embora aquilo a irritasse em partes, a vaidade também ronronava satisfeita dentro dela: aquelas duas estavam ao lado dela. Coisa que Helena, com toda aquela aura melosa de “mulher perfeita”, jamais tivera.
Três horas — e cinco lojas — depois, já tinham praticamente montado o enxoval inteiro.
Berço, cômoda, cadeira de amamentação, cama auxiliar, roupas neutras, mantas… tudo comprado. Elas nem sabiam o sexo do bebê ainda, mas parecia não importar: compraram o suficiente para vestir gêmeos.
Quando finalmente olharam a hora, já era bem tarde.
— Meu Deus! — exclamou Esther, colocando a mão no peito. — Ficamos tão empolgadas que nem vimos o tempo passar. E você, minha filha, precisa se alimentar bem pelo bebê.
— Está tudo bem — respondeu Silvia com a mão pousada no ventre ainda plano. — Comi uma maçã agora há pouco.
Viviane passou o braço pelo dela, radiante.
— Vamos almoçar no La Gostini! Estou louca para comer atum azul e King Crab. E já que meu irmão deixou o cartão… vamos aproveitar, né? — disse piscando, empolgada com a extravagância alheia.
O almoço foi tardio, caro e esnobe — exatamente como Viviane gostava.
Silvia comia pouco, mais preocupada em manter a postura do que em saborear qualquer coisa.
Passearam por algumas grifes e joalherias. Depois de comprar algumas camisolas brancas e delicadas, puras demais para o gosto dela, Silvia deu a desculpa de estar cansada e se despediu.
Já havia dado instruções ao motorista para chamar profissionais, supervisar a montagem, orientar que não fizessem barulho porque “Cássio estava trabalhando”. Mesmo que o escritório possuísse isolamento acústico, era melhor prevenir.
O sol já se despedia quando chegou em casa. Tudo estava quieto, o que denunciava que Cássio permanecia no escritório.
Quando subiu ao andar superior, tudo já estava pronto. O quarto recém-montado parecia um showroom de revista: Uma poltrona de amamentação branca, de balanço, linhas retas e elegantes. Uma cama auxiliar combinando, já com roupa de cama neutra. Um berço majestoso, quase teatral, digno de um catálogo de luxo. Um tapete felpudo que engolia os pés ao primeiro passo. Sacolas espalhadas, transbordando roupas minúsculas e caríssimas. O carrinho, ainda na caixa, apoiado contra a parede como se aguardasse um anúncio oficial.
Silvia cruzou os braços e observou tudo.
Era bonito. Era impecável. Era… insuficiente.
Ela queria uma decoradora renomada, iluminação especial, papel de parede importado, móveis sob medida — tudo que ela acreditava merecer. Mas, por ora, aquilo precisava servir.
Porque, no fim das contas, nada disso era sobre o bebê. Era sobre ele.
Sobre fazer Cássio olhar para ela com algo que não fosse tédio ou desinteresse. Sobre ocupar espaços que antes pertenciam à outra. Sobre provar — a todos, e principalmente a si mesma — que havia vencido.
— Eu… eu pensei que compraria umas poucas coisas. Não um quarto inteiro.
— Desculpa. Acho que me empolguei… — sussurrou com falsa timidez, dando um passo para se aproximar.
Ele ergueu as mãos e segurou seus ombros antes que ela chegasse perto demais.
— Silvia… acho que mais do que empolgação, você se confundiu. — Sua voz endureceu. — O plano continua o mesmo. Helena vai voltar. E eu vou abrir a filial para que você administre. Não era para montar um quarto aqui.
A palavra “aqui” caiu entre eles como uma pedra. Ela mordeu o lábio inferior, fazendo os olhos lacrimejarem num timing perfeito. Lágrimas treinadas, mas eficazes.
— Mas… ela já seguiu em frente — disse num fio dramático de voz. — Eu pensei que… nós dois… nós três... agora seríamos uma família. — Colocou as mãos sobre o ventre ainda plano, tão encenado quanto sua dor.
Aquela imagem falsa — aquela tentativa de ternura — teve o efeito que ela queria. Ele amoleceu. Não por ela, mas pela culpa. Pelo desconforto. Pela sombra daquele bebê que ainda nem havia nascido, mas já se tornava uma arma.
Cássio suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Eu nunca te prometi isso, Silvia. Nunca. Sempre fui claro. — A voz estava mais baixa agora, menos afiada. — Mas não precisa se preocupar. Vou pedir que devolvam tudo ao lugar. Assim que eu conseguir outra casa para você, montamos o quarto do bebê lá. — Ele respirou fundo. — Não vou deixar faltar nada para vocês dois. Mas… o que existe entre nós não vai mudar. Você precisa entender isso.
A resposta dele doeu nela como um estalo seco, daqueles que deixam o ar preso no peito. O que mais ela precisava fazer para que ele finalmente se entregasse? Quantas versões de si mesma teria que fabricar para ocupar o lugar daquela mulher que parecia imortal dentro da cabeça dele?
Silvia respirou fundo, tentando manter a pose, tentando não deixar transparecer o tremor invisível que ameaçava tomar seus dedos.
— Deixe isso como está. — Ele concluiu com a voz baixa demais para ser calma. — Depois eu mando alguém arrumar tudo. Vamos… deitar.
Então ele virou as costas com um gesto duro, mecânico, como se nada naquele quarto — nem móveis, nem bebê, nem ela — tivesse relevância. Caminhou pelo corredor sem olhar para trás, desaparecendo na penumbra como se o peso da conversa tivesse lhe arrancado a última gota de paciência.
Não a esperou. Não perguntou se ela vinha. Não tentou suavizar nada.
Simplesmente… foi.
Silvia ficou parada no meio do quarto, o silêncio pressionando seus ouvidos. Os punhos cerrados, as unhas cravando na pele. As lágrimas que ela tinha fabricado antes tinham sumido, substituídas por algo muito mais perigoso.
Como até isso podia falhar?
Um quarto perfeito. Um teatro emocional impecável. Um papel interpretado com precisão cirúrgica. Nada funcionava. Nada tirava Helena da mente dele.
E ali, cercada por móveis brancos e macios, Silvia sentiu uma certeza escura crescer dentro dela — Cássio ia pagar. Toda aquela humilhação ainda ia custar muito caro para ele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio