“O amor começa assim: um contorno tímido… e um coração disposto a preencher.”
Quando Helena voltou ao quarto apenas em um roupão, a pele ainda quente do banho, encontrou Santiago sentado na cama, encostado na cabeceira usando apenas uma calça fina de moletom. Ele deslisava o dedo na tela do celular apreciativo demais. A luz azul da tela iluminava seu rosto e deixava seus olhos ainda mais bonitos.
— No que você está tão concentrado? — ela perguntou, curiosa.
Santiago sorriu sem desviar o olhar.
— Por que você não vem aqui ver?
Ela se aproximou e se acomodou ao lado dele, encaixando-se perfeitamente em seu ombro. Quando olhou para a tela, soltou um riso suave. A galeria estava lotada de fotos dela. Deles. Momentos roubados, espontâneos, muitos que ela nem percebera que ele tinha registrado.
— Senhor Villar… quando você tirou a maioria dessas fotos que eu nem vi?
Ele deu de ombros com aquele charme natural e irresistível.
— Você não pode me culpar pela câmera do meu celular te amar tanto quanto eu.
E roubou-lhe um beijo rápido, cheio de afeto.
Helena riu, balançando a cabeça.
— Tá bom… se você me enviar todas elas, eu não te culpo.
— Feito. — disse ele, já começando a selecionar as imagens.
Quando a última foto foi enviada, ele disse:
— Prontinho!
Helena então pegou o próprio celular, virando-se discretamente para o lado para que ele não visse.
Ele franziu a testa, tentando espiar por cima do ombro dela.
— Espera, curioso! — murmurou rindo.
Ela abriu sua rede social — privada, quase esquecida. Ali só havia pinturas, ensaios de cor e pinceladas do passado. Helena nunca tinha sido fã daquele mundo acelerado; achava que as pessoas fingiam ser felizes para um público que nunca vê suas sombras.
Mas agora… agora ela tinha algo real para mostrar.
Selecionou várias fotos dos dois: na fazenda, na exposição, no parque, na casa de Aurora… e outras tantas registradas dentro de casa, nos detalhes íntimos do cotidiano. Criou um carrossel.
Escolheu a música Modo Absurdo no mudo para que ele não ouvisse. E na legenda, escreveu um trecho que parecia traduzir seu peito aberto: "Eu sei que é uma em um milhão a chance de encontrar o grande amor da nossa vida. Eu sei. Que sorte a minha eu te encontrei."
Ficou alguns segundos olhando para aquilo, apenas sentindo.
Então, com coragem apertou publicar.
E antes que pudesse se arrepender, editou o perfil e o tornou público.
Era isso.
Chegara o fim do tempo de se esconder.
Ela tinha amor demais no peito para guardar só para si — e pela primeira vez, sentia vontade de gritar ao mundo o quanto aquele homem fazia sua vida florescer.
Se queria ser uma grande pintora precisava ser vista. Também queria deixar essa coragem transbordar para outras mulheres. Queria inspirar. Queria viver intensamente. Queria dividir a luz nova que habitava dentro dela.
E o mais bonito… é que tudo aquilo era real. Tão real quanto o homem ao seu lado que, sem saber, era agora a moldura perfeita da nova vida que ela estava pintando.
Santiago estava prestes a guardar o celular no criado-mudo quando vibrou uma notificação. Ele nem teria olhado, não fosse o nome dela piscando na tela. A única pessoa que ele havia ativado o alerta.
“Helena Duarte publicou uma nova foto.”
Aquilo já o fez sorrir. Eles haviam se adicionado a não muito tempo, e Helena não tinha quase nada postado em seu perfil. Mas quando ele abriu o aplicativo, o sorriso simplesmente… desabou. No melhor sentido possível.
Um carrossel de fotos surgiu com as fotos deles. Cenas pequenas, íntimas, preciosas.
Uma música tocando baixinho enquanto ele passava as fotos devagar, como se temesse estragar a delicadeza do que estava vendo.
Até que leu a legenda. Ele parou. Literalmente parou. O ar entrou fundo e saiu devagar, como se o corpo inteiro tentasse acomodar a avalanche de emoção que tomou conta dele.
— Meu Deus… — murmurou num tom quase reverente.
Olhou para ela. Helena estava ali ao lado, mordendo o lábio.
Santiago sentiu algo estremecer dentro dele — uma emoção tão grande, tão bonita, que quase machucava de tão forte.
Ele passou a mão pela nuca, riu baixinho, ainda incrédulo.
— Você… — começou, mas a voz falhou. Recomeçou, com um sorriso bobo, apaixonado, absolutamente entregue. — Amor… você sabe o que acabou de fazer?
Ela ergueu o rosto, um rubor sutil nas bochechas.
— Fiz… o que meu coração pediu.
Esse foi o fim da resistência dele. Caiu para frente, segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou com aquela devoção lenta, segura, cheia de promessas que só ele sabia fazer parecer eternas. Depois a abraçou forte o suficiente para que ela sentisse o quanto aquelas palavras tinham se tornado um marco interno nele. Quando se afastou, encostou a testa na dela.
— Eu achava que já te amava o suficiente… — murmurou, a voz baixa, rouca, sincera. — Mas você me faz te amar cada dia mais.
Ela sorriu tímida, quase menina.
Ele puxou o celular de volta, com um brilho quase travesso nos olhos.
— Minha vez!
Helena arqueou uma sobrancelha.
— O que você vai fazer?
— Shhh — ele murmurou, levantando um dedo para os lábios, teatral.
Ela riu, indignada.
— Meu Deus… você é muito competitivo, sabia?
Ele riu também, mas nem por um segundo desviou os olhos da tela — completamente focado, como se estivesse prestes a inaugurar outra exposição.
Embora também não fosse exatamente um entusiasta das redes sociais, Santiago ainda acumulava um número respeitável de seguidores — consequência natural do seu trabalho no mundo das artes. Ainda assim, seu perfil pessoal nunca tivera alma própria: era quase uma extensão do da galeria. Fotografias de exposições, inaugurações, close-ups de pinturas, esculturas iluminadas… quase nada revelava o homem por trás da arte.
Helena tentou espiar passando a perna por cima dele, mas Santiago rolou habilmente para o lado, rindo alto enquanto ela se esborrachava na cama atrás dele, indignada.
— Santiago!
— Espera, mulher! — ele disse entre risos, os dedos trabalhando rápido.
E então… ele demorou. Demorou demais. A ponto de Helena começar a morder a unha e franzir o cenho imaginando mil possibilidades. Até que, sem aviso, ela se jogou por cima dele outra vez — exatamente no momento em que ele apertou o botão de publicar.
Ele largou o celular, segurando-a pela cintura.
— Pronto!
— Me deixa ver! — pediu ela, se soltando dele com a agilidade de uma ladra de museu.
Santiago não resistiu — apenas riu do desespero genuíno dela.

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