“É justo que muito custe o que muito vale.” Santa Teresa D'Ávila
Helena finalizava os últimos detalhes em frente ao espelho de chão que sua mãe havia escolhido para seu quarto. A imagem refletida mostrava uma mulher que, meses antes, jamais imaginaria ocupar aquele espaço com tanta firmeza.
O vestido preto estilo blazer dress abraçava seu corpo com precisão: ombros levemente estruturados que lhe davam uma postura quase imponente; lapelas elegantes que deixavam parte do colo à mostra com sofisticação; a cintura marcada pelo cinto do próprio tecido, desenhando suas curvas com equilíbrio; e o comprimento midi, finalizado por uma fenda frontal discreta, que revelava apenas o suficiente para sugerir confiança sem perder a sobriedade.
A maquiagem leve realçava sua beleza natural, enquanto o coque baixo deixava seu rosto completamente à mostra — sem sombras, sem proteção. Apenas ela, transparente e segura.
Quando estava terminando de prender seus brincos dourados, sentiu a presença dele atrás de si. Santiago se aproximou silencioso, como sempre fazia quando queria admirá-la sem ser notado. O reflexo no espelho capturou os dois: ela em preto sofisticado; ele, impecável em seu terno escuro, a gravata ainda um pouco desalinhada.
— Você está linda, — disse ele, a voz baixa, cheia de orgulho.
Helena virou-se devagar e ajeitou o nó da gravata dele, enquanto as mãos dele encontravam sua cintura com naturalidade, como se pertencessem ali.
— Você também, — ela respondeu, com um sorriso suave.
Ele apoiou a testa na dela por um segundo.
— Eu queria ir com você — confessou.
Ela riu, inclinando o rosto, divertida com aquele tom quase manhoso.
— Vai deixar de trabalhar… para ir trabalhar comigo?
— Eu bem que queria — murmurou ele, num suspiro resignado. — Mas sei que isso é algo que você precisa fazer sozinha.
— Nem tão sozinha assim — ela lembrou-o. — O Pedro vai comigo. E o Padrino vai estar lá hoje também.
Santiago segurou o rosto dela com delicadeza, sério de novo.
— Promete me ligar se acontecer qualquer coisa?
— Prometo. Mas vai dar tudo certo. — A convicção dela o desmontava sempre. — Agora vai, ou quem vai se atrasar é você.
Antes que ele pudesse responder, ela se colocou nas pontas dos pés, deu-lhe um selinho rápido e — travessa — virou-o de costas e deu um tapa na bunda dele.
Ele olhou por cima do ombro com os olhos semicerrados, fingindo indignação, mas o sorriso no canto da boca o denunciava.
Poucos minutos depois, Helena calçou o scarpin bege fosco que parecia uma extensão de sua perna, pegou a bolsa no mesmo tom sobre a cômoda e caminhou até a sala, onde Pedro já a esperava — impecável em seu terno de segurança, bem diferente das roupas que costumava usar à paisana.
— Pronta? — ele perguntou, observando-a com o profissionalismo habitual, embora seus olhos revelassem sincero orgulho pelo quanto ela parecia forte.
— Pronta.
E estava.
...
Pedro guiava o Audi Q8 de Santiago com a precisão. O carro deslizava pela rua com suavidade, mas os olhos dele permaneciam firmes no retrovisor e nos cantos da via em atenção total.
Helena havia insistido — com aquele jeitinho doce e determinado — para ir no banco da frente ao lado dele, mas Pedro foi irredutível.
— Atrás é mais seguro, Helena. Por favor.
Ela rolou os olhos, mas obedeceu. No fundo, sabia que aquilo não era apenas teimosia… era cuidado.
Encostada no banco macio, respondeu às mensagens que pipocavam na tela:
Lívia mandando boa sorte, exagerada e dramática como sempre; seus pais, carinhosos e orgulhosos, desejando que o primeiro dia fosse leve; o tio Windsor dizendo que estava ansioso para vê-la brilhar.
Esse calor familiar a acalmava.
Quando terminou de responder todos, deslizou o dedo para abrir sua rede social, mas Pedro a chamou:
— Quer passar em algum lugar antes? — perguntou ele, ainda sem desviar os olhos da pista.
— Não precisa — ela sorriu. — Já estou levando umas compotas que a Aurora preparou.
O resto do percurso foi preenchido por uma conversa leve, quase doméstica — Helena falando sobre a reunião, Pedro comentando sobre técnicas de defesa e sobre como ela estava evoluindo rápido. Às vezes, ele fazia uma pausa para observar algo pela janela, sempre alerta, sempre varrendo o ambiente em silêncio profissional.
Quando ela se deu conta, o carro já diminuía a velocidade.
— Chegamos — anunciou Pedro, estacionando suavemente.
Helena respirou fundo e desceu.
...
A sala de conferências da Orsini Design era um espetáculo em si — paredes de vidro, vista panorâmica para o centro corporativo, madeira italiana polida, aço escovado e telas gigantes exibindo o logotipo da empresa em brilho âmbar.
Era um espaço feito para impor respeito. E todos ali presentes respeitavam.
Arquitetos, coordenadores de marketing, engenheiros, consultores… cada cadeira ocupada por algum representante de setor.
O murmúrio que ocupava o ambiente tinha o ritmo de curiosidade e expectativa.
Na cabeceira da mesa oval, Francesco Orsini observava a sala como um rei avaliando seu conselho. Elegante, imponente, impecável — aquele tipo de homem que parecia carregar poder e respeito no próprio ar ao redor.
Ao seu lado, discretamente, mas ainda assim notável, estava Ricci, com seu terno azul grafite e olhar orgulhoso.
E então a porta se abriu. Helena entrou.
Não com ostentação — mas com presença. Com aquela firmeza silenciosa que sempre fez parte dela, mas que agora florescia ao máximo.
Pedro a acompanhava um passo atrás.
As conversas morreram imediatamente.
Francesco sorriu como quem observa uma peça rara cruzando o salão.
— Signori, — disse ele com voz forte, — acho que está na hora de começarmos.
O silêncio era absoluto.
Ele se levantou.
— Hoje apresentarei a vocês a mente por trás da coleção Prisma.
Alguns sussurraram. Outros arregalaram os olhos.
Francesco continuou:
— Uma coleção brilhante que o mercado acreditava ter outro autor. — Suas palavras carregaram uma tensão calculada. — Chegou o momento de corrigirmos essa narrativa.
Helena sentiu o estômago apertar — não de nervosismo, mas de reconhecimento: aquele era um passo sem volta.
— Permitam-me apresentar… Helena Duarte.
Ele fez um gesto convidando-a à frente.
Todos bateram palmas — algumas discretas, outras entusiasmadas, outras curiosas demais para esconder o interesse.
Helena caminhou até o centro da sala.
A tela atrás dela acendeu, exibindo a palavra PRISMA em cores elegantes, seguida de um resumo visual de suas peças — renderizações, detalhes de textura, cortes, estudos cromáticos, lâminas técnicas.
Ricci lhe deu um leve aceno de incentivo.
Helena respirou fundo e começou, com a voz firme e serena:
— Obrigada pela recepção. Para mim, é uma honra estar aqui. A coleção Prisma fala de vida e essência. Formas que mudam com a luz, cores que quebram e renascem. É uma coleção sobre transformação…
A sala estava completamente hipnotizada.
Quando ela falou de técnicas, materiais, inspirações, fluxo artístico — o respeito cresceu no ar como um perfume.
Até os engenheiros mais experientes anotavam tudo.
Até os diretores de criação trocavam olhares impressionados.
Até os líderes de produção murmuravam em aprovação.
Quando ela terminou, Francesco bateu palmas — um gesto raro.
— Isso, signori, é talento genuíno. — disse ele, orgulhoso. — Teremos o privilégio de trabalhar com ela não só no lançamento internacional da Prisma, como também teremos Helena à frente da nossa equipe criativa a partir de agora.
Mais um murmúrio. Dessa vez admirado.
E então veio a semente de conflito — jogada com a elegância de um jogador de xadrez.
— Também aviso antecipadamente — acrescentou Francesco — que devido à disputa pública envolvendo o nome da senhora Duarte, a Orsini Design prestará total suporte jurídico e institucional para garantir a integridade desta colaboração.
Helena ergueu os olhos, surpresa. Aquilo era mais do que parceria. Aquilo era proteção. Reconhecimento.
Os diretores de comunicação já começaram a anotar freneticamente. Marketing trocou olhares tensos.
Ricci sorriu como quem já sabia.
Francesco continuou, com a voz baixa, quase sedosa — mas com poder bruto por baixo:
— Não aceitaremos qualquer tentativa de deslegitimar esta designer. Nem ataques. Nem difamações. Nem manipulações externas.
Um arrepio percorreu a sala inteira. Todos sabiam exatamente de quem ele estava falando.
— O Studio Cassiani pode tentar o quanto quiser — finalizou Francesco, entrelaçando as mãos sobre a mesa, postura impecável. — Mas nós garantiremos que a verdade prevaleça. E que Helena Duarte receba o crédito que sempre mereceu.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi de respeito. De impacto. De reconhecimento.
E então, lentamente, um a um, todos começaram a bater palmas. Não um aplauso contido — mas um aplauso firme, convicto, forte.
Helena ficou ali, recebendo aquilo. Sentindo. Aceitando.
Respirando a nova vida que estava nascendo diante dela.
Quando sentou-se novamente ao lado de Ricci, ele sussurrou:
— Ora, bambina… Você acabou de pendurar seu primeiro quadro na parede certa.
E Helena sorriu, radiante, com o coração cheio de esperança.


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