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Quadros de um divórcio romance Capítulo 120

“É preciso aprender a lidar com os próprios demônios, em vez de esperar que o outro os amanse.”

Cássio acordou mais descansado. Ficar em casa, isolado do mundo, tivera um efeito inesperadamente reparador.

Arrumou-se de forma automática, quase mecânica, e desceu.

Silvia estava sentada ao balcão da cozinha, tomando um suco. Já vestida para o trabalho, impecável como sempre.

— Já acordou? — perguntou, levantando-se de imediato e enchendo um copo. — Fiz a vitamina que você gosta.

— Obrigado — respondeu Cássio, aceitando a bebida sem pensar muito.

— Podemos ir juntos para a empresa?

— Hoje não — disse ele, após um gole. — Vou passar no Grupo Ferreira agora cedo. Você pode ir com o motorista.

Silvia assentiu, escondendo bem a decepção por trás de um sorriso controlado.

— Tudo bem.

A diarista, que ia à casa três vezes por semana, surgiu na porta da cozinha com passos cautelosos.

— Senhor Cássio… posso falar um instante?

— Fale.

Ela hesitou, visivelmente constrangida.

— Estou ficando sem material de limpeza para trabalhar.

— E por que ainda não providenciou mais? — perguntou ele, já impaciente.

— É que… — ela baixou o olhar — era a senhora Helena quem cuidava disso antes.

O nome caiu no ambiente como algo sólido. Logo cedo.

Bastou ouvi-lo para que a ausência se tornasse ainda mais concreta.

Silvia se adiantou, rápida:

— Eu posso cuidar disso.

— Não. — Cássio a interrompeu de imediato.

Abriu a carteira, retirou algumas notas e estendeu à diarista.

— Aqui. Providencie o que for preciso.

Ela não se moveu.

— O que mais? — ele perguntou, agora sem disfarçar o cansaço.

— Desde que a patroa foi embora… ninguém acertou comigo pelos últimos serviços. E a dispensa também está quase vazia.

Cássio esfregou a testa, exausto. Como havia deixado aquilo passar? Como Helena conseguia manter tudo funcionando com tamanha naturalidade?

— Me envie o valor — disse, enfim. — Faço a transferência.

— Sim, senhor — respondeu a mulher, aliviada, antes de se retirar.

Ele terminou a vitamina em poucos goles.

— Já estou indo.

Aproximou-se de Silvia e, num gesto automático demais para ser pensado, beijou-lhe a testa — do mesmo jeito que fazia com Helena.

O toque durou menos de um segundo. Ainda assim, foi suficiente para causar estranhamento. Ele se afastou imediatamente, sem comentar e deixou a casa com uma sensação incômoda.

Silvia também foi pega de surpresa, mas antes que pudesse assimilar o comportamento dele, ele já havia saído.

...

Cássio chegou ao Grupo Ferreira e, por hábito, seguiu direto para o escritório de Renato.

Abriu a porta sem bater. O amigo estava sentado à mesa, cercado por papéis, contratos abertos e planilhas rabiscadas. O ar era de alguém que não dormira direito — mas seguia funcionando.

Renato ergueu os olhos ao notar sua presença.

— Ah… é você.

O tom neutro carregava mais distância do que qualquer grito.

Cássio parecia um pouco melhor fisicamente, mas ninguém saberia dizer se, por baixo da superfície mais calma, aquela obsessão ainda não fervilhava.

— O que você quer? — perguntou Renato, direto, sem rodeios.

— Qual é… — Cássio tentou forçar um meio sorriso. — Ainda está bravo comigo?

Renato apoiou as mãos na mesa, respirou fundo antes de responder:

— Não. Eu só… desisti.

A palavra atravessou Cássio como uma lâmina. Não aquilo. Não Renato também.

— Me desculpa, tá bem? — disse rápido, sentindo o chão ceder. — Sei que peguei pesado com você.

Renato balançou a cabeça, cansado.

— Não, Cássio. O seu problema não é comigo. — Seus olhos estavam firmes, quase tristes. — Você não consegue enxergar o que está fazendo com você mesmo.

— Você não entende…

— Se veio aqui para se enganar, é melhor ir embora. — Renato já voltava a organizar os papéis. — Tenho trabalho acumulado demais. Passei dias segurando a sua empresa enquanto você estava sei lá aonde.

As palavras doeram mais do que qualquer acusação direta. Eles já haviam discutido antes, mas Renato nunca fora tão frio. E, pela primeira vez, Cássio se perguntou se não estava mesmo passando de todos os limites.

Pensou em Helena. Em quantas vezes havia distorcido quem ela era. Talvez, se tivesse sido honesto desde o início, agora alguém entendesse o tamanho da sua perda.

— Eu não vim aqui para brigar — disse, enfim. — Precisamos fechar os últimos detalhes da coleção Inércia. O lançamento ainda é essa semana.

Renato fechou a pasta com um estalo seco.

— Certo. — Levantou-se. — Vamos ao setor de produção.

As duas horas seguintes transcorreram entre reuniões técnicas com Manoel e outros funcionários. Cássio se manteve profissional, mas o desconforto era evidente. Estar diante daquele homem — que defendera Helena sem hesitar indo contra ele — era quase insuportável.

Pensou em tocar no assunto da permanência dele na empresa ali mesmo, mas recuou. Renato já estava no limite.

Quando finalmente saíram do setor, o silêncio entre os dois se tornou pesado demais para ignorar.

— Por que você mantém aquele idiota trabalhando aqui? — Cássio disparou, sem rodeios.

Renato parou no meio do corredor.

— E por que eu não manteria?

— Você viu o que ele fez — Cássio retrucou, a irritação escapando. — Me expôs, me envergonhou na festa.

Renato virou-se devagar.

— Ele mentiu em alguma coisa?

A pergunta foi simples. E devastadora.

Cássio abriu a boca. Nada saiu.

— Você sabe melhor do que eu que tudo o que ele disse era verdade — Renato continuou, agora sem suavizar nada. — Mesmo assim, eu fiquei do seu lado, apesar de toda represália que a minha empresa pode sofrer por estar envolvida em tudo isso. E agora você quer que eu demita um profissional impecável, que trabalha comigo há anos, só porque ele escolheu não passar pano para uma injustiça?

O julgamento explícito fez o estômago de Cássio se revirar.

— Então é isso que você pensa de mim?

Quando a ligação terminou, Manoel apoiou o celular sobre a mesa e ficou alguns segundos em silêncio.

Então deixou escapar um sorriso de alívio — pequeno, quase tímido — como alguém que acaba de perceber que, mesmo depois de tudo, a vida ainda encontrava formas inesperadas de seguir em frente.

...

Helena se levantou para acompanhar Orsini e Ricci até a porta de sua nova sala. O gesto era simples, mas carregava o peso simbólico de um começo.

O chefe estendeu a mão, que ela aceitou de imediato. O aperto foi firme, confiante, de igual para igual.

— Estou contando com você para levar essa empresa ainda mais longe.

— Farei o meu melhor. — Helena respondeu com convicção tranquila.

Ricci a envolveu em um abraço afetuoso, já com um quê de saudade.

— Estou voltando para a Itália, mas per favore, mantenha-me informado.

— Pode deixar. — ela sorriu.

Assim que as silhuetas dos dois se afastaram pelo corredor, Helena respirou fundo, dobrou as mangas do vestido — um gesto quase ritual — e voltou-se para a equipe.

Não se fechou na sala. Pelo contrário. Preferiu se misturar a eles.

Além da coleção Prisma, outros projetos estavam em andamento, ainda em fases mais longas, mas o foco absoluto, naquele momento, era ela. E Helena se surpreendeu com o quanto tudo já estava avançado. Sobre as mesas, miniaturas de móveis surgiam com um nível de realismo quase mágico — tão detalhadas que pareciam ter sido encolhidas por algum artefato de ficção científica.

— Isso é incrível… — elogiou, genuinamente impressionada.

A forma como ela se sentava entre eles, como ouvia antes de opinar, como fazia perguntas e absorvia ideias dizia muito sobre quem ela era. O simples fato de preferir estar ali, no chão da criação, em vez de isolada em uma sala, criava uma atmosfera diferente.

Helena era fácil. Acessível. Interessada de verdade.

Sabia ouvir — e quando falava, sempre havia algo novo a ser aproveitado. Sua energia era contagiante, uma injeção silenciosa de ânimo que percorria o espaço sem esforço.

Poucas alterações haviam sido feitas no projeto: ajustes sutis de textura, variações de cor, pequenos refinamentos. Mas a essência de Prisma permanecia intacta — talvez até mais limpa, mais convidativa, mais fiel ao que ela sempre quis dizer.

Helena começou a reconhecer rapidamente as forças de cada um. Percebeu talentos, sensibilidades, olhares distintos. Teve que admitir, com um sorriso interno, que Orsini realmente sabia escolher pessoas.

Aquilo a empolgou tanto que ela sequer percebeu o tempo passar. E não foi só ela. Todos ali pareciam imersos no mesmo ritmo, contagiados por aquele frescor novo.

Estavam sentados de forma informal ao redor de uma das grandes mesas, papéis espalhados, protótipos ao alcance das mãos, discutindo ideias com entusiasmo quase juvenil, quando uma voz familiar cortou o burburinho.

— Interrompo?

Helena se virou de imediato, dando quase um pulo da cadeira.

Santiago estava ali, parado à entrada, sorrindo — os braços ocupados com várias sacolas de comida.

— Santi? — ela soltou, surpresa e feliz, os olhos brilhando.

— Pensei que talvez você estivesse com fome. — Ele disse, erguendo as sacolas num gesto leve.

Helena caminhou até ele e lhe deu um selinho rápido, espontâneo, que o fez corar de leve. Os olhares ao redor se encheram de curiosidade e admiração diante da cumplicidade evidente entre os dois.

— Acho que trouxe o suficiente para todo mundo. — Santiago comentou, olhando em volta.

Helena fez as apresentações, orgulhosa. Os papéis foram afastados, os materiais organizados às pressas, e logo todos estavam sentados ali mesmo, comendo e rindo como se aquele espaço sempre tivesse sido assim: vivo.

Santiago sentou-se ao lado dela, os joelhos se encostando de forma natural.

— Primeira manhã como diretora criativa. — ele murmurou baixo. — Sobreviveu?

— Mais do que isso. — ela respondeu, olhando ao redor. — Acho que me encontrei.

Ele apertou de leve a mão dela sob a mesa, um gesto pequeno, mas cheio de significado.

Pedro também se juntou ao grupo, a postura naturalmente ereta destoando da informalidade ao redor. Mesmo parado, parecia atento a tudo — como se o ambiente fosse amplo demais para baixar completamente a guarda. O semblante sério despertou a curiosidade imediata dos presentes; alguns lançaram olhares discretos, outros trocaram impressões silenciosas. Havia algo nele que impunha respeito sem esforço, uma presença firme que contrastava com o clima descontraído, mas que, paradoxalmente, fazia todos se sentirem ainda mais seguros.

Enquanto risadas e conversas se misturavam ao cheiro da comida, Helena pensou, com uma certeza serena: aquele não era apenas um novo trabalho. Era o começo de uma vida que fazia sentido.

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