Quando Cássio desceu as escadas naquela manhã, Helena estava na cozinha preparando um café bem forte. Vestia a mesma camisola branca, os cabelos ondulados caíam sobre os ombros e cobriam levemente o pequeno decote.
Embora não tivesse dormido um minuto sequer naquela noite, há muito tempo não se sentia tão viva — e aquilo brilhava nela, de um jeito sereno e atraente.
Cássio parou no batente da porta enquanto ajustava o punho da camisa.
Por um instante, pareceu hipnotizado pela visão daquela mulher.
— O que temos para o café? — perguntou com um tom leve, quase cordial.
— Faz tanto tempo que você não toma café em casa, aliás... faz tempo que nem aqui você fica, que não imaginei que iria querer café hoje — respondeu ela calmamente, sem olhá-lo. — Mas se quiser, pode passar um na cafeteira... ou tomar o seu café no escritório, como acredito ter feito nas últimas semanas.
Ela sabia muito bem com quem ele vinha tomando o café ultimamente. Silvia se certificara de informá-la disso diariamente, como uma punição silenciosa.
Cássio se aproximou, tomado pela presença dela, e envolveu-a pela cintura. Tentou beijá-la, mas antes que seus lábios se tocassem, Helena esquivou-se, levantando a xícara fumegante entre eles.
— Cuidado! não quer se queimar quer? — disse, sem esforço para disfarçar o desinteresse.
Ele suspirou, desconcertado.
— Não fique assim. Logo tudo volta ao normal. A empresa, a rotina... nós dois. Só precisamos de um pouco de paciência.
Helena apenas sorriu, um sorriso breve, educado, que não chegava aos olhos. Por dentro, pensava em como alguém podia ser tão descarado, tão confortável dentro da própria mentira.
— Hoje tenho um jantar de trabalho, devo voltar tarde. Você não precisa me esperar. — Ele vestiu o casaco e falou como se nada estivesse errado.
— Está bem. — respondeu, com a voz doce, quase divertida. Afinal, há muito tempo ela já não o esperava.
— Depois me envie um e-mail com as atualizações do evento. Essa festa é crucial para a empresa. Tudo precisa que sair perfeitamente.
Ela apenas assentiu, observando-o sair — o homem que um dia acreditou amar, agora um estranho.
Não havia muito mais o que resolver sobre o evento.
Então Helena passou o dia em casa, arrumando o que restava de sua vida.
Juntou os poucos presentes que Cássio lhe dera ao longo dos anos — e achou graça do fato de que o “mundo” que ele prometera dar a ela agora cabia em uma pequena caixa de madeira.
Separou objetos, doou o que podia e embalou o resto em duas malas.
A casa, antes tão cheia de lembranças, agora parecia maior, o eco dos passos dela soava como despedida.
A empregada, que ia apenas três dias por semana, estava intrigada vendo-a no meio da arrumação.
— Está tudo bem senhora? Precisa de ajuda?
— Esta sim, como a muito não estava. Não se preocupe.
Resignada, afastou-se com pesar, imaginando o que teria acontecido com aquela mulher tão gentil para agora ela estar se desfazendo de tudo.
...............
Mais tarde, tomou um banho demorado, deixando a água escorrer pelo corpo levando o peso dos últimos anos.
A noite, confortável no sofá, com um caderno de desenho novo nas mãos — pronta, não para desenhar móveis, mas para esboçar seu próprio futuro — o celular vibrou com uma mensagem de Cássio.
“Venha me buscar no Scarlet Bar, bebi um pouco e não posso dirigir.”
Ela suspirou fundo, bufando com ironia.
Mesmo naquela altura, ele ainda tinha coragem de tratá-la como motorista.
Mas, como ainda precisava manter as aparências, pegou as chaves e foi.
O Scarlet Bar estava cheio, tomado por vozes e risos altos. No reservado dos fundos, Helena o encontrou — Cássio, com Silvia praticamente sentada em seu colo, cercados por Renato, Tânia, Viviane e outros amigos.
Taças, garrafas e gargalhadas por toda parte. A cena era de puro deboche.
Ao vê-la, Cássio congelou. O sorriso se desfez.
— O que está fazendo aqui? Está me seguindo de novo? Pensei que já tivesse entendido depois da nossa conversa.
Helena impaciente ergueu o celular, mostrando a mensagem.


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